Os seguintes textos foram resenhados e resumidos para a Disciplina de
Teorias (H, C e I) do Doutorado (2013). Normalmente indico a referência
bibliográfica no início do texto e logo a seguir apresento a resenha ou o
resumo, podendo haver outras indicações de referências ou não. Lembrando que
esses pequenos textos, de 1 a 2 páginas, são apenas pequenos fragmentos
dos brilhantes escritos dos teóricos aqui indicados, ou seja, nem sempre
abrangendo toda a temática e discussão ali inscritos.
Christiane Kalb
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Rial, Carmen. As estratégias do gênero: entrevista
com Saksia Sassen. pp. 491-501. 2010.
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Saskia Sassen, cientista social
contemporânea, foi uma das conferencistas do X Congresso Internacional
Interdisciplinar sobre as Mulheres, realizado em Madri, em julho de 2008. E a
partir da entrevista realizada naquela oportunidade, Rial realizou
transcrição dessa entrevista que foi publicada dois anos depois na Revista de
Estudos Feministas – REF.
Ela é professora na Columbia
University e no London School of Economics, integra também o Conselho de
Relações Estrangeiras e a prestigiosa Academia Nacional de Ciências, atuando
no Comitê de Cidades e o seu trabalho tem como foco a globalização – em suas
dimensões sociais, econômicas e políticas –, os processos de imigração, as
cidades globais, o terrorismo, as novas tecnologias e as transformações
atuais do Estado neoliberal no contexto transnacional.
Os temas que discutem os
efeitos da emigração sobre as mulheres, assim como as ambivalências de
processos de nacionalização e reivindicações de cidadania, o tráfico de
mulheres, as trocas interculturais entre mulheres nas cidades globais, a
passagem por fronteiras armadas, o ativismo imóvel foram alguns dos assuntos
tratados prioritariamente na entrevista, conforme explanação de Rial.
Sobre o tráfico de mulheres,
Sassen fala sobre o tráfico para fins sexuais, onde países que possuem uma
economia fraca arrecadam muito dinheiro com esse tipo de tráfico, sendo assim
uma forma de arrecadação financeira que detém uma questão mais do que
financeira, mas política. “quando falo do tráfico de pessoas, há toda uma
série de atores, não sendo somente a exploração pelo traficante” (p.493).
Quanto às cidades globais, a
autora explica que é um espaço desnacionalizado, tanto em nível de elite como
em nível de pessoas mais pobres. Mas que juntas, essas mulheres podem ter o
poder de mudança em suas mãos, como exemplo a autora cita as questões de
direitos humanos.
Sassen afirma que a questão de
gênero ainda não está suficientemente desenvolvida, pois é um processo
contínuo, que está sendo trabalhado e reconhecido por vários países. Contudo,
afirma que a internet tem auxiliado a organizar as redes de auxilio a certos
grupos de mulheres, como exemplo citou as mulheres muçulmanas.
Quanto ao tema da mobilidade, a
autora conclui “Necesitamos desarrollar instrumentos para recuperar y
analizar y teorizar estas diferencias dentro de una condición que
generalmente se ve como absoluta – la inmovilidad. Ciertas
condiciones, por ejemplo para algunas mujeres, apuntan a una inmovilidad
subjetiva, aún cuando hay movilidad a nivel de vida diaria. Mujeres que no tienen mucho poder sobre
su vida diaria pueden desarrollar inmovilidades subjetivas, cayendo en
una situación de falta de poder elemental” (p.501).
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Durham, Deborah. 2000, Youth and Social Imagination in Africa,
in Anthropological Quarterly, 73. 3, pp. 113-120.
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Para se estudar a juventude,
Durham explica que precisa-se estar atento a topologia da paisagem social, de
modo que se enfoque no modo como a juventude é construída como um problema
categórico, ou como as atores se engajam no paradigma social e como ela
contribuiria para a geração de debates e construções teóricos.
A juventude, muitas vezes, é
vítima de circunstâncias e manipulações de poder por pessoas mais velhas, porém
a partir dessa questão, importante entender três pontos: identificar quem e o
que são os jovens, relacionar a juventude com outras gerações e, por último,
entender que tipo de políticas a juventude pode participar e fazer a
diferença.
Por ser uma construção de
categoria histórica-social, a juventude é tão sensível a transformações
econômicas, assim como suas atividades, prospecções e ambições são deslocadas
e redirecionadas. E por esse motivo, que a juventude está no centro da
dinâmica social da África, afinal 43% de sua população tinha menos de 15
anos, em 1998. E essa aparência de modernidade, em razão da idade de sua
população, modifica e afeta a forma como as pessoas se veem e se percebem
entre si dentro da sociedade.
Alguns autores ainda conceituam
o que seria a juventude, a puberdade, assim como a adolescência, mas a
realidade é que “o local natural, as definições e as experiências vividas na
juventude existem em qualquer lugar e em todos os tempos, com diferentes
grupos de gênero, classe e/ou ocupações”.
A autora ainda conecta as
questões de agência (atividade/operação) com moralidade, já que os adultos
que possuem algum poder veem os jovens como tolos até mesmo para votar, ainda
que tenham idade para tanto e também inábeis para resolver seus próprios
problemas, porém após a 1ª Grande Guerra, houve certa reinvenção do espaço
político e social. A juventude tem entrado na seara política, embora ditos
sabotadores/terroristas, como atores políticos cuja política é abrir
discursos sobre a natureza da sociedade em seus termos mais amplos e mais
específicos.
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FLORES, Maria Bernardete Ramos Flores. Ao Brasil
dos meus sonhos: feminismo e modernismo na utopia de Adalzira Bittencourt.
Revista Estudos Feministas, vol. 10, núm. 1, jan., 2002, pp. 11-37. Disponível
em www.scielo.br.
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Aldazira Bittencourt foi
escritora, professora e ativista social da área da Infância.
Maria Bernadete Ramos faz uma
análise dos pontos políticos e culturais que a autora pensava sobre o Brasil,
principalmente no que se refere às questões de gênero, etnia, religião.
A obra de Aldazira descreve um
imaginário entre anos 20 e 30 do século XX sob o olhar da cultura política,
assim, de acordo com Flores, a autora manifesta o “projeto paradigma moderno,
dos anos 1920 e 1930, sob a atuação técnico-científica da medicina
(normatizando o corpo), da educação (conformando as mentalidades) e da
engenharia (organizando o espaço)”
A autora também acredita no
poder que a ciência e a educação tem de mudar a sociedade, de modo que
descreve-se como participante da onda feminista e como escritora, da onda
modernista (ou modernismo), onde delineia “no seu nacionalismo
verde-amarelismo, a modernidade incorpora o interior e a tradição, uma
modernidade que lida em duas direções: a utópica, voltada para as
transformações e a mítica, para a perpetuação do status quo”.
Ainda sobre o movimento
feminista, a autora destaca algumas das atividades ditas como “próprias” para
mulheres, como o papel de professora, porém tenta romper com o pensamento
tradicional de dona de casa como única atividade feminina, destacando também
as atividades políticas e de luta social.
Flores destaca “Para além do sufragismo, portanto, essas
organizações feministas tinham por objetivo promover a educação da mulher e
elevar o nível de instrução feminina, proteger as mães e a infância, obter
garantias legislativas e práticas para o trabalho feminino, auxiliar as boas
iniciativas da mulher e orientá-la na escolha de uma profissão, estimular o
espírito de sociabilidade e cooperação entre as mulheres e interessá-las
pelas questões sociais e de alcance público, assegurar à mulher direitos
políticos e prepará-la para o exercício inteligente desses direitos”.
Após a discussão do trabalho da
mulher perante a sociedade, Flores compara a obra de Aldazira com o livro: O presidente negro ou o choque de raças:
romance americano do ano 2228, publicado em 1926 por Monteiro
Lobato. Nesse livro, os negros são mortos por uma fórmula química
esterilizante, enquanto que naquele Aldazira também faz os negros
desaparecerem, fazendo-os voltar à África.
Assim, tanto “Aldazira
Bittencourt [como] Monteiro Lobato, navegam no imaginário do Brasil moderno.
[…] Ambos enveredaram pelo nacionalismo retumbante das décadas de 1920 e
1930, pelo caminho do progresso através da eugenia, do higienismo e do
sanitarismo”.
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PELBART, Peter Pál. Vida Capital. São Paulo:
Iluminuras, 2009, pp. 55-89.
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Peter Pál Perbart é um
filósofo, ensaísta, professor e tradutor húngaro, residente no Brasil.
Em seu texto “Vida Capital”, o
autor traz a ideia de um novo poder na vida humana, a partir do século XVIII,
principalmente nas sociedades ocidentais,
o biopoder. O Estado, e não mais o soberano, substitui o “fazer morrer e deixar viver” por “fazer viver e deixar morrer”,
parafraseando Foucault, que ainda diz que a vida e a norte não são
consideradas como fenômenos naturais, pois depois da morte o indivíduo escapa
de qualquer poder.
Pelbart também recupera os
conceitos gregos de bíos e zoé, vida politicamente qualificada e
vida nua, respectivamente, nas quais fazem referência no pensar a genealogia
do paradigma político do ocidente (não somente moderno, como concepção
biológica da vida).
Agamben, citado por Pelbart,
assume como figura central no paradigma biopolítico o Estado de Exceção,
principalmente o totalitarismo nazista, como o primeiro Estado radicalmente
biopolítico, já que os “nazistas tratava-se de assumir politicamente sua
hereditariedade biológica”.
Pelbart esclarece que o poder sobre a vida a partir de um dilema
contemporâneo em torno do conceito de biopolítica ressignifica tal termo, o
tornando um poder da vida. Assim,
conceituando a biopolítica como poder da
vida, o autor propõe que o capitalismo rizomático propicia uma nova dinâmica
social.
Com base no que diz Lazzarato,
a vida se espalha e se hibridiza nas relações sociais baseadas na economia da
informação, então a “vida se moleculariza e se totaliza” e “Sim, é a
subsunção da economia, a cultura, também do bios social a um poder que assim engloba todos os elementos da
vida social, mas é um domínio que produz algo muito paradoxal, e nada linear,
dizem os autores [Hardt e Negri], pois ao invés de unificar tudo cria um meio
de pluralidade e de singularização não domesticáveis. Daí a inversão não só
semântica, mas também cultural e política, proposta por um grupo de teóricos,
majoritariamente italianos, e entre eles o próprio Negri. Com ele, o termo
biopolítica deixa de ser prioritariamente a perspectiva do poder e de sua
racionalidade refletida tendo por objeto passivo o corpo da população e suas
condições de reprodução, sua vida.”
Quanto às possibilidades de
resistência atualmente, o autor explica que o poder tem que ser entendido
dentro da capacidade da multidão. Multidão no sentido de uma auto-organização
biopolítica, uma coletividade humana em ação.
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Hall, Stuart. Quem precisa da identidade? pp.
103-133.
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Stuart Hall é um teórico
cultural jamaicano que trabalha no Reino Unido, com estudos na área da
cultura e dos meios de comunicação, assim como para o debate político. Seu artigo tenta identificar, entender e
discutir os conflitos sociais na contemporaneidade, fazendo um levantamento
das questões identitárias do tempo presente-imediato, havendo conforme o
autor, um paradoxo fenomenológico entorno do conceito de identidade.
Sobre isso, “O conceito de
identidade aqui desenvolvido não é, portanto, um conceito essencialista, mas
um conceito estratégico e posicional. Isto é, de forma diretamente contrária
àquilo que parece ser sua carreira semântica oficial, essa concepção de
identidade não assinala aquele núcleo estável do eu que passa, do início ao
fim, sem qualquer mudança, por todas as vicissitudes da história. Esta
concepção não tem como referência aquele segmento do eu que permanece, sempre
e já, “o mesmo”, idêntico a si mesmo ao longo do tempo. Ela tão pouco se refere, se pensarmos agora na questão da identidade
cultural, àquele “eu coletivo ou verdadeiro que se esconde dentro de
muitos outros eus – mais superficiais ou mais artificialmente impostos – que
um povo, com uma história e uma ancestralidade partilhadas, mantém em comum”.
(grifei)
O autor ainda confirma que “Têm
a ver não tanto com as questões “quem nós somos” ou “de onde viemos”, mas
muito mais com as questões “quem nós podemos nos tornar” e “como essa
representação afeta a forma como nós podemos representar a nós próprios”. […] “É precisamente porque as identidades são
construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las
como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no
interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e
iniciativas específicas. Além disso, elas emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder e são, assim,
mais o produto da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma
unidade idêntica, naturalmente construída, de uma “identidade” em seu
significado tradicional – isto é, uma mesmidade que tudo inclui, uma
identidade sem costuras, inteiriça, sem diferenciação interna.” (grifei)
A figura do Outro aparece nas
interpelações de Hall “é apenas por meio da relação com o Outro, da relação
com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que tem
sido chamado de seu exterior constitutivo, que o significado “positivo” de
qualquer termo – e, assim, sua “identidade” – pode ser construída (Derrida,
1981; Laclau, 1990; Butler, 1993)”.
Portanto, Hall afirma que a identidade é construída por meio da
diferença e não fora dela, e toda identidade, “eu/nós”, só se estabelece em
relação com um Outro, o exterior constitutivo, com aquilo que lhe
falta, “ele/eles”. Assim, a unidade da identidade é constituída no interior
dessa relação de exclusão, mas o mesmo jogo de poder se vê desestabilizado
por aquilo que ele deixa de fora. Para o autor, a identidade se baseia nesse
ato de exclusão, que cria uma violenta hierarquização entre os pólos
resultantes[1][1].
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FOUCAULT, Michel. As técnicas
de si. Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994, Vol. IV,
pp. 783-813, por Wanderson Flor do Nascimento e Karla Neves. Disponível na web:
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Michel Foucault foi filósofo e professor francês.
Chamado e Escritos (Dits et Écrits) é uma coleção póstuma de
entrevistas, palestras e artigos do filósofo Michel Foucault. O livro foi
publicado pela primeira vez em quatro volumes, em 1994 e, em dois volumes, em
2001, em uma nova edição, que substituiu o primeiro.
A expressão “cuidado de si” recomenda uma série
de experiências e técnicas que auxiliam o indivíduo a transformar-se em si
mesmo. Algumas das formas de se chegar a “si mesmo” é por meio das técnicas
de si, como apresentadas por Foucault.
Essas técnicas são definidas pelo sujeito a
partir donde vive e das relações pessoais que possui. Sempre relacionados com
os esquemas que lhe são propostos, às vezes, impostos, ou então sugeridos, no
decorrer da vida social.
E a partir da construção de algumas “técnicas de
si” é possível a formação das sociedades. “Os princípios morais da sociedade
ocidental passaram por uma profunda transformação”.
Foucault relembra algumas diferenças nas técnicas associadas ao cuidado de si
em distantes tempos históricos: na Grécia e na Contemporaneidade. O autor
observa que o indivíduo contemporâneo é constituído de inseguranças: medo da
morte, tortura e martírio, totalmente diverso da constituição dos gregos.
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Geertz, C. 1973 (1988) Person, time and conduct in Bali: na
essay in cultural analysis. In: Interpretation of culture.
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Geertz analisa em seu ensaio a
natureza social do pensamento, usando como exemplo uma ilha da Indonésia,
Bali, onde a maneira pela qual o povo de lá se percebe e percebe aos outros
possui características bastante peculiares de outras “civilizações”
ocidentais.
Vale ressaltar que o estudo
científico da cultura, muito descritivo normalmente, tem dificuldades maiores
que o estudo das relações econômicas, políticas e sociais de uma sociedade,
já que sua própria matéria é ilusória.
A forma como nos percebemos é
discutida por Geertz a partir da caracterização dos seres de maneira
individualizada. Afinal, todos os lugares tem estruturas simbólicas nas quais
as pessoas são percebidas, sem rodeios, como exemplo, “fileiras nobres,
status de faixa etária, categorias ocupacionais”. Contudo, o autor traz a
baila alguns padrões associados à cultura balinesa, embora também aplicável à
cultura ocidental, que seriam os “semelhantes” entre si em: “antecessores”,
“contemporâneos”, “consociates” e “sucessores”, padrões estes relacionados à
identidade pessoal, à ordem temporal e estilos comportamentais das pessoas.
Para esclarecer esses padrões
utilizarei os exemplos trazidos pelo autor. Consociates são os amantes, enquanto o amor durar, ou os cônjuges
até se separarem – pessoas que se encontram. Contemporâneos “são pessoas que partilham uma parcela de tempo, mas
não de espaço”, por exemplo, um amigo ausente, que não tenho mais notícias. Antecessores e Sucessores não compartilham tempo, pois são de gerações
diferentes, apesar de terem suas vidas influenciadas um pelos outros.
Em Bali, especificamente,
existem ainda seis tipos de etiquetas, rótulos que uma pessoa pode aplicar a
outra. O nome pessoal relacionado
ao simples fato de descrever a pessoa, sem conexões familiares. O nome por ordem de nascimento. O termo de parentesco, definindo
indivíduos em uma taxonomia. O Teknonyms,
onde não é o ato de casar que identifica a pessoa, mas o poder de procriação,
“um casal com dez filhos não é mais honrado do que um casal com cinco […] o
que conta é a continuidade reprodutiva, a preservação da capacidade da
comunidade para perpetuar-se”. Os títulos
de status, ou também conhecido por castas, sendo um sistema de prestígio,
onde “não é moral, nem econômico nem político, mas religioso”. E por fim, os títulos públicos, dados aos chefes,
governantes, sacerdotes e deuses.
Geertz ainda analisa os
calendários balineses, o lunar-solar e o permutacional. “Na prática, o
calendário lunar-solar é usado da mesma maneira para os mesmos tipos de
coisas que para o permutacional. O fato é que ele é vagamente ancorado em
contextos agrícolas e alguns templos tem ligação simbólica com a agricultura
ou com a fertilidade”.
Assim, a interação das
estruturas simbólicas que definem as pessoas juntamente com as estruturas
simbólicas de tempo, em Bali, influenciam em seu comportamento interpessoal,
de modo que “o conceito de integração cultural que Weber chamou de Sinnzusammenhang pode ser
legitimamente aplicada”, já que essas estruturas formam uma espécie de polvo, cujos tentáculos conectam e
interconectam nossas relações pessoais.
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AUGÈ, Marc. Los no lugares espacios del
anonimato. pp.81-118.
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Marc Augé é Presidente da École
des Hautes Études em Sciences Sociales
(EHESS) e coordena os estudos na área de lógica simbólica e ideologia.
O autor define os “não-lugares” como sendo espaços de passagem.
Alguns dos exemplos trazidos
pelo autor seriam: o espaço aéreo, espaço publicitário, e salas de espetáculo
ou de encontro. E explica que “o espaço do viajante seria, assim, um
arquétipo de um não-lugar” (p.91).
Esses locais são incapazes de
formar qualquer identidade, pois são relacionados a determinados fins, como o
transporte, o comércio ou o ócio e a relação que esses locais se vinculam às
pessoas. Outros exemplos dados por Augé são as autopistas, ou estações de
serviços, rotas departamentalizadas (autoestradas) e os transportes
ferroviários.
No que se refere ao comércio –
espaços mundiais de consumo - cita o caso dos supermercados. Onde o
consumidor circula silenciosamente, consulta etiquetas, pesa os legumes ou a
fruta numa máquina que lhe indica, juntamente com o peso, o preço, depois
paga tudo com cartão de crédito de forma também silenciosa ou que fala pouco.
“Outra característica destacada
pelo autor dos não-lugares é que estes são permeados de pessoas em trânsito.
São espaços de ninguém, não geradores de identidade. Lá, você ou eu, não
importa, somos apenas mais um” (Não-Lugares – Marc Augé. João Luis Binde.
Resenha - Revista Antropos – Volume 2, Ano 1, Maio de 2008). Ou seja, vamos
ao supermercado ou viajar de avião e estamos sempre sozinhos, sem termos
ideia dessa situação, pois cumprimos diversos atos de forma mecânica com
várias pessoas ao nosso redor, porém sem qualquer interação afetiva, assim,
apesar de estar em contato com os outros, estamos, na realidade, sozinhos.
E conclui, “na realidade
concreta do mundo de hoje, os lugares e os espaços, os lugares e os não
lugares se entrelaçam, se interpenetram” (p.110). Buscando fundamentar sua
tese, analisa a capacidade da antropologia compreender a sociedade atual,
chamado por alguns autores de pós-modernidade, contudo por Augé denominada de
supermodernidade (sobremodernidad).
Esse conceito caracteriza-se pelos excessos: excesso de tempo, espaço e da
figura individual.
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MAUSS, Marcel. 1938. Une
catégorie de l´esprit humain: La notion de personne celle de “moi”. Journal
of the Royal Anthropological Institute, v. LXVIII, Londres, 2002.
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Mauss detalha uma das categorias da mente humana,
ou seja, a ideia de “pessoa”, a ideia de “eu”. Inicialmente trata o conceito
de pessoa / indivíduo por meio de conceituações de clãs, fraternidades, a
própria família.
Levanta alguns pontos sobre essas conceituações,
a partir do noroeste americano, da Austrália, Índia, China, que o nome do
indivíduo muda em razão de sua nobreza, ou idade ou ainda dependendo da
função que desempenha ou seu modo de vida. “A vida e a alma das coisas é
fornecida pela perpetuidade dos nomes dos indivíduos, das pessoas”.
Para o autor, a pessoa é um fato de organização,
sendo mais que um nome ou um direito de um personagem ou uma máscara ritual,
é um direito fundamental. Porém, Mauss afirma que o nosso conceito de ser
humano ainda é basicamente um conceito cristão.
Finaliza o autor dizendo que “a partir de uma
simples máscara, do caráter de uma pessoa, um nome, um indivíduo, de sua
consciência metafísica e moral o curso é concluído a partir da forma
fundamental de pensamento e ação”. Embora as disciplinas da antropologia
social, sociologia e história tentam nos ensinar o que é a pessoa e o eu,
necessário estarmos conscientes de nós mesmos, para cada vez mais, nos
aperfeiçoarmos e irmos perdendo as máscaras da ilusão, mostrando então a
única faceta verdadeira de nosso ser.
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PINTO, Céli Regina Jardim.
Quem tem direito ao "uso do véu"? (uma contribuição para pensar a
questão brasileira) Disponível em:
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Céli Pinto
é Doutora em Ciência Política, pela Universidade de Essex –Inglaterra e
escreveu interessante artigo que discute a incluso de grupos marginalizados
cultural e/ou economicamente.
A autora
faz um comparativo entre o caso francés de uso ou proibição do uso do véu
pelas estudantes muçulmanas com as ações afirmativas de cotas de
universidades a negros brasileiros.
Apresenta
tal tema como um debate feminista, que busca analisar a inclusão, “como um certo
tipo de ordem privada [que] pode significar a exclusão na ordem pública”
(p.380). Traz o exemplo da inclusão gay, a partir das últimas décadas e
finalmente trata da questão brasileira, sobre “ação afirmativa que envolvem
políticas de reconhecimento”, de cotas nas universidades públicas para
estudantes negros e egressos de escolas públicas. A autora afirma que “os
alunos das escolas públicas brasileiras foram tratados até então como vítimas
e não como sujeitos” (p. 382). Discute a questão sob a perspectiva do “nós x
eles”, onde é difícil que se reconheça o direito “deles”.
E conclui “pensar o universal a
partir da diversidade tem profundas implicações políticas e práticas,
mormente, se a igualdade for tomada como um a priori na democracia. Pensar o
outro como igual exatamente por suas diferenças, implica um realocamento de
posições de poder com consequências profundas”. E a partir do conceito de
reconhecimento por parte do Estado e da sociedade, que a autora desponta sua
temática sobre o direito ao uso do véu, ou então, melhor explicado, o direito
de escolher usar ou não o véu, pelas estudantes francesas. Quando completa
“se estas mulheres, ou porque não querem ou porque não tem liberdade, passam
a não frequentar a escola porque não lhe é permitido não usar o véu, qual é o
serviço que o estado francês está fazendo a favor a libertação destas
mulheres?”
Assim, o
direito ao uso do véu, isto é, o direito à diferença no espaço público é a
conclusão do artigo de Pinto, onde faz uma analogia a quem tem direito de
usar o véu no Brasil, metaforizando a questão das cotas das universidades com
a discussão das universitárias muçulmanas na França. E conclui “o caso
francés não é de ação afirmativa como tende a ser o caso brasileiro, mas em
ambas as situações o reconhecimento da diferença parece ser fundamental para
criar condições positivas de integração dos grupos em questão em um pacto
cidadão que garanta igualdade de direitos”.
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ANDERSON, Perry. Primórdios.
In:_____. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999,
p. 09-22. Disponível em http/books.google.com.br.
GIDDENS, Anthony. Introdução.
In: _____As consequências da modernidade. SP, Ed. UNESP, 1991. p. 11-60.
SANTOS, L. G. Politizar as
novas tecnologias: o impacto sócio-técnico da informação digital e genética.
Editora 34. São Paulo, 2003. p. 109-182
FÉHER, Ferenc. La
condición de la postmodernidad. In: HELLER, Ágnes e FÉHER,
Ferenc. Políticas de la postmodernidad. Ensayos de
crítica cultural. Barcelona, Ediciones
Península, 1989, p. 09-23.
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Perry Anderson, historiador
londrino marxista, nascido em 1938, em seu subcapítulo Primórdios, da obra As origens da pós-modernidade, traz o
fenômeno da pós modernidade como um evento que não nasceu no “centro” do
sistema cultural, ou seja, nem na Europa, nem nos Estados Unidos. Mas
descreve a ideia como nascida no mundo hispânico, na década de 30, lembrando
que o movimento estético - modernismo – adveio de um poeta nicaraguense.
Somente a partir da década de
40 que o termo surgiu num contexto anglófono, como uma categoria de época e,
não, da estética. E o autor esclarece que duas evoluções ocorrem nesse
período: “a ascensão de uma classe operária industrial no Ocidente e o
convite de sucessivas intelligentsias
fora do Ocidente a dominar os segredos da modernidade e volta-los contra o
mundo ocidental” (p. 11).
Outro autor, citado por
Anderson, Charles Olson - poeta norte-americano, que cunhou os termos
pós-modernismo e verso projetivo, descreve o período da pós-modernidade sendo
posterior à era imperial dos Descobrimentos e da Revolução Industrial, a
partir da primeira metade do século XX. Ele era “crítico feroz do humanismo
racionalista”, conforme Anderson (p.12).
A partir da década de 50,
outros autores (Mills e Howe, Toynbee, Levis) assumiram o termo, para
“descrever uma literatura derivada que havia renunciado aos rígidos padrões intelectuais
do modernismo em prol de uma relaxada meia síntese” (p.19). São autores que
se utilizaram da ideia pós-moderna após a 2ª Guerra Mundial, voltada aos
jovens excluídos da América, onde a “sociedade podia pela primeira vez
tornar-se uma democracia ‘senhora de si mesma’” (p. 20).
Anthony Giddens, sociólogo
britânico, conhecido por sua Teoria da Estruturação - teórico pioneiro da
Terceira via da sociologia, em sua obra As
consequências da modernidade, especificamente no capítulo de Introdução,
trata da modernidade e das suas consequências como um acontecimento que
transformou não somente mudanças filosóficas e epistemológicas, mas também as
instituições em uma determinada época e local – Europa ocidental, século XVII
– que até o final do século XX alcançou praticamente todo o planeta.
Vários termos são e foram
utilizados para conceituar essa transição: sociedade da informação, sociedade
de consumo, pós-modernidade, pós-modernismo, sociedade pós-industrial. E
Lyotard foi o primeiro a popularizar o termo, que define a pluralidade de
reivindicações heterogêneas de conhecimento, onde a ciência não tem um lugar
privilegiado.
Giddens esclarece que ao invés
de um novo modernismo/nova modernidade estamos num período em que as
consequências da modernidade se tornam mais radicalizadas e universalizadas
do que antes. E a partir disso, o autor compõe seu capítulo introdutório em 8
(oito) fases.
A primeira fase elucida a
descontinuidade das instituições da modernidade. A história é tomada como
exemplo, pois sempre é contada, a partir da perspectiva evolucionista como um
enredo. Porém não é assim que ocorre, já que vivemos num ritmo de mudança
ininterrupta, principalmente no que se refere hoje à tecnologia. Além da
história, outras instituições como o próprio Estado, hoje é visto como uma
Nação; e as cidades, hoje bem delineadas e delimitadas, conceitos totalmente
deturpados do que se via no passado sobre os mesmos termos.
Quanto aos aspectos de
Segurança x Perigo e Confiança x Risco, o autor mostra como “o lado da oportunidade
da modernidade foi fortemente enfatizada pelos fundadores clássicos da
sociologia”, Marx, Durkheim e Weber, cada um com suas peculiaridades em
contraponto com as preocupações ecológicas e ambientais, que não tinham tanto
espaço quanto às inovações industriais e tecnológicas voltadas à
industrialização da guerra.
Apesar dos fundadores não terem
vivido o período da 2ª Guerra Mundial, o totalitarismo combinou poder
político, militar e ideológico no pós guerra para engendrar o armamento
nuclear. O século XX é chamado por Giddens (p. 19) como o século da guerra.
Sobre a sociologia e a modernidade o autor
descreve 3 (três) concepções defendidas. A primeira defende o diagnóstico
institucional da modernidade, que se refere ao sistema do capitalismo: investimento
– lucro – investimento e à exploração industrial e da natureza em si; a
segunda atribui-se ao conceito de sociedade, como estudo das sociedade
humanas das sociedades modernas, que o autor questiona tal conceito e as
questões de fronteira, relacionadas ao tempo e ao espaço e por fim, a
terceira tese se refere ao conhecimento sociológico, que se define pela vida
social, pelos conceitos que definem o que é conhecimento e o que é a
modernidade.
Os aspectos da conexão entre a
modernidade e a transformação do tempo e do espaço traçam primeiramente
alguns pontos que transformaram as sociedades pré-modernas, são o calendário
e o relógio mecânico. Giddens aduz que “a coordenação através do tempo é a
base do controle do espaço”, já que espaço e tempo se coincidem nas
sociedades pré-modernas, porém nas sociedades modernas isso não ocorre,
havendo o surgimento da relação entre os ausentes, em seus espaços vazios.
Portanto, a separação entre o espaço e o tempo são tão cruciais para o
dinamismo da modernidade.
Sobre o desencaixe dos sistemas
sociais, o autor mostra que ocorre mudanças em instituições sociais modernas,
que seriam a criação das fichas simbólicas e o estabelecimento de sistemas
peritos que se dependem de confiança ademais explicitada para sob existir. As
fichas simbólicas seriam os meios de intercâmbio que circulam, diferentes do
poder e da linguagem, o melhor exemplo trazido pelo autor seria o dinheiro,
pois “é obviamente uma parte inerente da vida social moderna bem como um tipo
específico de ficha simbólica” (p. 33). Enquanto os sistemas peritos são os
sistemas de excelência técnica ou de competência profissional, nas quais são
consultados por leigos.
Assim, a confiança está
relacionada ao risco x crença em que acredito. O autor exemplifica esse contexto,
dizendo que dirigimos cotidianamente um veículo pois confiamos no sistema do
automóvel, assim como, na empresa que nos vendeu tal bem. Desse modo, numa
situação de crença, a pessoa reage ao desapontamento culpando os outros, na
circunstância de confiança ela assumi a responsabilidade e se arrepende de
ter confiado em alguém ou em algo.
Embora o perigo exista na
circunstância de risco, o risco substitui a fortuna, porque muda a percepção
das pessoas na modernidade, assim, a ideia de acaso surge no mesmo tempo do
de risco.
A reflexividade da modernidade
é tratada pelo autor como a característica que defini a ação humana. As
tradições são modos de se monitorar a ação de uma comunidade, bem como, a
escrita e o saber-escrever determinam a capacidade humana de ter certo poder
em suas mãos. Portanto, as “práticas sociais são examinadas e reformadas em
razão das informações que alteram o seu caráter” (p. 45).
Assim, a ciência deixa de ser a
certeza das coisas e os dados ditos oficiais
são tidos como forma de poder manipulador do Estado. De modo que a premissa
de que, quanto mais conhecimento sobre a vida social mais controle terei
sobre nosso destino, deixa de ser verdadeira e passa a ser questionada por
Giddens, em razão das disputas de poder, valores e consequências inesperadas
que a modernidade vem gerando.
A última temática da
Introdução, intitulada de Modernidade e Pós Modernidade?, vincula a
reflexividade sobre a pós modernidade. O movimento conceituado de
pós-modernismo se atrela a estilos literários, artísticos e de arquitetura,
conhecidos pelos autores da área, como o fim da história. O fim da história,
pois do uso do passado entendíamos a orientação para o futuro. Enquanto que a
pós-modernidade atrela-se a trajetória de desenvolvimento da sociedade mudou
o rumo de certas instituições da modernidade a um novo e diferente tipo de
ordem social.
Como ponto de partida, Giddens
lembra do niilismo de Nietzsche e Heidegger, onde há a ruptura, a superação
da modernidade. Contudo questiona tal termo como sendo uma forma de dar
coerência a história e de nos situarmos em nosso lugar, ou seja, a
modernidade tentando entender a si mesma. Assim, “a modernidade não é
perturbadora apenas devido à circularidade da razão, mas porque a natureza
desta circularidade é decisivamente intrigante” (p. 55). Essa consciência de
urgência em nos entender gera uma ansiedade social, já que não nos deslocamos
da modernidade, Giddens então entende que, estamos vivendo através de uma
fase de radicalização, a partir do declínio europeu e da globalização.
Ambos os textos que se referem
ao termo - pós modernidade - os colocam em uma visão contrária dos autores
que entendem que estamos em uma nova era. Tanto Anderson como Giddens
entendem que a pós modernidade não se trata de um movimento das instituições
sociais para um novo rumo, mas sim, que estamos sofrendo as consequências da
modernidade.
Até mesmo porque o primeiro autor, Anderson trata
do assunto como uma questão muito mais estética do que social. Já Giddens,
apesar de não se referir ao termo como um acontecimento pontual e estética
relaciona diversos temas implicados a partir da modernidade, como as
alterações institucionais.
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RIBEIRO, Gustavo Lins. A
globalização popular e o sistema mundial não hegemônico. 2010.
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Gustavo Ribeiro é mestre em
Antropologia pela Universidade de Brasília (1980) e doutor pela City
University of New York (1988), hoje é professor titular do Departamento de
Antropologia e professor do Centro de Pesquisas sobre as Américas da
Universidade de Brasília.
Em seu artigo publicado em 2010
escreve sobre a globalização econômica dita “popular”, que se refere às redes
de pirataria, de eletrônicos, roupas, bolsas, tênis, brinquedos e demais
bugigangas vendidos em camelôs e mercados populares.
A globalização popular que
trata o autor, se refere à uma economia não hegemônica, sendo que o autor não
denomina de anti-hegemônica, vez que essa rede não tem intenção de destruir o
modelo capitalista hoje imposto, que seria o hegemônico. Essa economia é
vista por muitos como ilegal, já que normalmente está interligada ao
contrabando. E esse comércio que movimenta centenas de bilhões de dólares por
ano, representa uma ameaça à sociedade capitalista contemporânea.
O autor ainda analisa a obra de
Moises Naim, como sendo um lugar marcado pelo americanocentrismo imperial,
“como se essa fosse a ordem natural das coisas”, quando descreve os espaços
de globalização popular como sendo todos iguais, “sacoleiros” aos membros de
cartéis de drogas, todos oriundos de “buracos negros” da sociedade
ilícita/ilegal.
A partir da página 25, Ribeiro
faz a distinção entre a economia informal e ilícita e entre o que ilegal e
ilícito, definições que para ele são cruciais para se entender o sistema
mundial não hegemônico. Um dos exemplos trazidos pelo autor é a folha de
coca, na Bolívia, que lá é livremente comercializada e consumida, enquanto
que fora dali a sua produção é ilegal e passa a ser suspeita de consumo de
cocaína. Assim, alguns produtos e serviços são considerados ilegais ou legais
dependendo donde são produzidos e comercializados.
Especificamente sobre a
pirataria, o autor diz que “sempre foi um problema para os poderes
estabelecidos”. Afinal, as redes que se formam conectam unidades no mundo por
meio de fluxos de informação, pessoas, mercadorias e capital. E essas redes
se auto-organizam em dois tipos de processo de globalização: a economia
ilegal global e a economia (i)lícita global, onde a primeira envolve as
atividades de crime organizado e a segunda envolve atividades da globalização
popular que são consideradas ilegais pelo Estado e lícitas pela sociedade.
Sobre ao segundo tipo de
processo de globalização, Ribeiro discorre sobre a diáspora chinesa em
mercados populares, como de São Paulo, Belo Horizonte, Cidade do México e
outros, trazendo algumas informações sobre a dicotomia entre os produtos
originais x cópias, pois “a pirataria significa uma ameaça a um dos núcleos
duros da reprodução do capitalismo, qual seja, a detenção de direitos de
propriedade sobre determinadas mercadorias, uma vez que tais direito
permitem, justamente, a manutenção dos nichos”.
O problema ou interessante da pirataria é revelar
o valor excedente absurdo que é agregado à mercadoria original pela
propriedade de certas superlogomarcas, e mostrar ao consumidor o quanto
poderia estar pagando, quando adquire um produto-cópia.
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SILVA, Telma. “Corpos em
Perigo: Uma Análise sobre Percepção de Risco em Casos de Desastre Radioativo”.
Trabalho apresentado no XXII Encontro Anual da ANPOCS (GT – Pessoa, Corpo e
Saúde), Caxambu – 27 a 31 de Outubro de 1998. (Não publicado).
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Telma
Camargo da Silva escreve sobre as consequências do desastre radiológico de
Goiânia, ocorrido em 1987, partindo do pressuposto de que a noção de risco é
uma construção sócio-cultural.
A
autora utiliza dos conceitos e categorias de Beck e Giddens (sociedade de
risco e sistemas leigos e peritos), de Douglas e Wildavsky (teoria cultural
do risco), onde o “poder social seleciona os perigos com os quais o público
deve se preocupar”.
A
partir desses teóricos, a autora analisa depoimentos e entrevistas, de
profissionais que participaram do pós-desastre, bem como, do acompanhamento
das descontaminações nas residências que poderiam estar contaminadas.
A partir desses depoimentos
percebe-se que os peritos não abrangem todas as especificidades e
problemáticas levantadas durante o pós desastre. Acontecimentos relacionados
à quebra de intimidade das pessoas, assim como, questões que computadores não
podem solucionar, provam para a autora que “o conhecimento especializado do
sistema perito não é suficiente para fazer face plenamente à situação de
risco”.
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[1][1] Disponível em:
<http://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/08/10/identidade-e-diferenca-uma-breve-introducao/>
Acesso em: 14 nov 2013.
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