O Porquê disso tudo...

Um dia ouvi de uma professora que existe um campo verde que representa o conhecimento. Nesse campo existem diversas árvores, cada uma poderíamos chamar de grandes áreas do conhecimento. "Dentro" dessas árvores há galhos e ramos que nos levam a pequenas folhas. Eu me aprofundei em algumas dessas folhas de algumas árvores do conhecimento, por isso quero dividir esses estudos com quem tiver interesse em conhecer alguma "nova" ou "velha" folha. Sem intenção de gerar a priori novos frutos, porém apenas semear, agora sim, ideias e esclarecimentos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Compreendendo o patrimônio histórico-cultural joinvillense a partir da História Oral e da Etnografia



 Artigo escrito em 2014 para a Disciplina de Metodologia do Doutorado.


CHRISTIANE  KALB


Introdução

Quase completando 20 anos de existência, o programa de Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, mesmo com grande experiência e sucesso em formar doutores em suas três linhas de pesquisa, quais sejam, Sociedade e Meio Ambiente; Condição Humana na Modernidade e Estudos de Gênero, ainda gera estranhamento para outros doutorandos e professores provenientes de programas disciplinares.
Portanto, a indisciplinaridade é tema ainda em voga, por sua particularidade em alguns aspectos que é seguida como método científico. Em diversos momentos a interdisciplinaridade ressurge na vida dos acadêmicos para se perguntarem se estão no caminho certo. Isso ocorre primeiro, quando os candidatos estão no decorrer do processo seletivo para entrar em nosso curso. Mas também se repete quando já doutorandos se preparam para a escrita de suas teses e, obviamente, na reformulação dos projetos de pesquisa.
Minayo (2010) expõe quatro elementos envoltos em sua pesquisa, abrangendo também a interdisciplinaridade. A Multidisciplinaridade, que seria a justaposição de disciplinas, cada uma com suas próprias teorias e metodologias; o Multiprofissionalismo, que seria uma múltipla articulação de profissionais para resolver um problema; a Interdisciplinaridade, que seria a articulação de várias disciplinas com enfoque em um objeto, ou problema, sendo que é o objeto que nos convoca com sua complexidade e; a Transdisciplinaridade, que seria o produto final da interdisciplinaridade, ou seja, quando se ultrapassa os limites de uma disciplina pelo investimento articulado.
Discorre ainda sobre o pensamento complexo, que conforme Heidegger, Gadamer e Weber apud Minayo (2010), tem como princípio a dialógica, de modo que a conversa e o ouvir são partes do pensamento intersubjetivo. Pombo (2007), por outro lado, entende que a palavra interdisciplinaridade está gasta. Assim, subdivide o seu entendimento a partir de diferentes contextos, como o epistemológico, a partir da transparência de conhecimentos entre disciplinas, o pedagógico, ligado às questões de ensino, e o contexto mediático, a partir dos novos meios de comunicação. Haveria ainda um contexto empresarial e tecnológico, onde a palavra vem ganhando força, nos últimos anos.
Para entender, então, a interdisciplinaridade nas pesquisas científicas, Pombo (2007) combina de forma sequencial as palavras Pluridisciplinaridade com coordenação – onde as disciplinas caminham de forma paralela umas às outras; Interdisciplinaridade com combinação – onde há uma convergência entre as disciplinas; e Transdisciplinaridade com fusão, local em que há um holismo, uma unificação entre as disciplinas.
Para entender isso melhor, quanto à história da interdisciplinaridade, Minayo (2010) relata que, a partir da década de 1960, há movimentos (ambientalistas, feministas, anti-antropocentristas, etc) para que houvesse novos questionamentos aos métodos e à ideia de ciência, bem como críticas ao excesso de racionalismo. O triunfo da especialização consiste em saber tudo sobre nada. Com o desenvolvimento tecnológico percebeu-se que todos os seres vivos estão intricados em redes e, para entendê-los, precisa-se analisar o todo.
Quanto ao método interdisciplinar em si, a autora esclarece o que seria o “fetiche do método”, ou seja, quando os pesquisadores acham que a verdade se esconde na sofisticação do método, sem qualquer pergunta teórica ou contextualização, que deveria ser feita de forma interdisciplinar. Assim, o pesquisador não deve abandonar a sua formação, porém, precisa entender e aceitar a experiência interdisciplinar, estabelecendo trocas, colaboração, cooperação; acolhendo o abandono da vaidade unidisciplinar, que, na maioria das vezes, provém de uma formação na graduação extremamente especialista.
Formas de se fazer ciência que Bourdieu (1968) critica. O autor discorre sobre uma ciência indissociada das reflexões sociológicas e epistemológicas, havendo trocas simbólicas entre o que é o fazer científico e a construção do conhecimento científico, reconhecendo que as condições sociais seriam obstáculos para o conhecimento científico. Como forma de transpor esses obstáculos, Bourdieu sugere uma ciência social unificada, que siga um rigor científico, ou seja, que as ciências sociais possam ser “tão científicas” quanto às ciências da natureza. Toda a defesa de Bourdieu quanto às ciências sociais como um fazer científico, entendido na relação entre a prática e a lógica da episteme, é baseada nas análises dos teóricos clássicos, Marx, Weber e Durkheim quanto aos fatos sociais.
Muitos teóricos reclamavam por uma urgência de haver uma teoria sociológica, que respondesse aos anseios de uma teoria geral e universal, porém, para Bourdieu (1968), não é uma teoria universalizante que responderá os anseios de todas as sociedades, principalmente as mais complexas. Cupani (1985), no mesmo sentido, entende que o conhecimento científico nasce no âmbito do conhecimento vulgar, sendo portanto  indissociáveis e comprometidos um com o outro. Desconsiderar o conhecimento de senso comum, supervalorizando o científico é tarefa de uma ciência limitante e unidisciplinar, que não mais responde às questões atuais para compreender o mundo. Portanto, Pombo (2007) entende que estamos numa fase de alargar o sentido da palavra interdisciplinaridade, assim como já ocorreu com o conceito de ciência.
Para responder a algumas perguntas que tenho feito no decorrer da criação do projeto de pesquisa de tese venho utilizando algumas metodologias que entendo como interdisciplinares.  Interdisciplinares, pois, apesar de surgirem de teorias unidisciplinares, podem e são aplicadas em múltiplos temas. A seguir, exponho algumas dessas metodologias.

Metodologias de Pesquisa aplicadas às Ciências Humanas

A entrevista pode ser considerada uma das mais interessantes formas de se pesquisar dentro das Ciências Humanas. As diversas metodologias de entrevista capazes de desvendar fatos e dados históricos, políticos e memoriais fazem parte do arcabouço teórico da História Oral.
Ocorre que, de acordo com Alberti (2005), há alguns problemas que são enfrentados pelos Programas que organizam e arquivam esse tipo de informação. O primeiro deles é a ausência de agilidade entre a realização da entrevista até o momento de sua liberação para consulta pelo público em geral; ou então, até o momento da não-liberação do conteúdo pelo depoente. Outro problema enfrentado é a falta de tecnologia na gravação e na forma de armazenamento desse conteúdo. Afinal, nem todos os programas e universidades que possuem arquivo de história oral detém toda a tecnologia para arquivamento correto desses conteúdos. Muitos dados se perdem pelo mau condicionamento.
Além dos problemas sofridos pelos Programas que arquivam e armazenam esses dados, há ainda a questão dos entrevistadores. Como são realizadas as entrevistas e como é o seu arquivamento são pontos bastante relevantes no momento da apresentação do resultado pelos pesquisadores. Alberti (2005) frisa que, quanto mais informações relacionadas à entrevista houver, melhor serão os resultados, uma vez que a intencionalidade ficará mais clara e o papel do historiador eou pesquisador se aclarará da mesma forma.
Silva (2006) alerta sobre algumas especificidades da entrevista qualitativa, alertando para as possibilidades de se formalizar demais a forma de aplicar tal método, já que busca-se muitas vezes imitar as Ciências Exatas e Naturais.
Esse método foi utilizado pelas primeiras vezes nas Ciências Sociais, de acordo com Silva (2006), a partir da década de 1930. Os autores enumeram diversas especificidades da entrevista qualitativa, sendo que a entrevista em profundidade é aquela que objetiva investigar a vida do entrevistado de forma bastante ampla, contrapondo-se a entrevista focalizada, que objetiva analisar algum tema em específico, que espera-se que os entrevistados devam ou possam  responder, relacionado às suas vidas.
Assim, a entrevista em profundidade fica longe do formalismo técnico esperado em outras técnicas. Deste modo, é também nominada de entrevista aberta, ou simplesmente de entrevista qualitativa. Contudo, não se trata de apenas registrar tudo que o entrevistado fala de sua vida, mas também de analisar o discurso e interpretá-lo.
Uma dúvida recorrente no decorrer das pesquisas qualitativas e quando se aplica entrevistas abertas é sobre quem, quantos e quantas vezes entrevistar, pois nesse método não há cálculo estatístico do tamanho amostral ideal para tal pesquisa. Uma das técnicas utilizadas é a bola de neve, onde a partir da indicação de amigos, parentes e outros contatos pessoais encontram-se esses sujeitos que poderão se tornar os entrevistados da pesquisa.
O papel do entrevistador também é bastante importante no momento da pré-entrevista e da entrevista em si, pois dependendo da forma de aproximação e do desenrolar do ato, o entrevistado pode se sentir constrangido ou ameaçado, em razão do comportamento do pesquisador ou entrevistador, renegando algumas informações que seriam preciosas à pesquisa. A paciência e a compaixão do entrevistador se mostram também imprescindíveis, já que silêncios e emoções podem vir à tona e, se não levados em consideração e respeitados, podem também ser deixados de lado, sendo que poderiam trazer outras informações e dados relevantes.
A entrevista qualitativa só funciona quando há a arte do vínculo, ou seja, “é um jogo de estratégias comunicativas, uma invenção dialógica, um gênero discursivo, que antes de se submeter às regras da linguagem, submete-se aos usos, ao contexto e aos sujeitos como atores sociais” (SILVA, 2006, p.318).
Outro método interessante e que de certa forma está completamente interligado à História Oral é a etnografia. A etnografia é um método utilizado na Antropologia para coleta de dados, durante a pesquisa científica. Tem por base a interação subjetiva entre o pesquisador, antropólogo ou não, e o seu objeto de pesquisa. Hoje, muitos pesquisadores já não nomeiam de objetos de pesquisa os seus pesquisados, por questão de aproximação e distanciamento. As primeiras etnografias ocorriam em tribos ou comunidades indígenas extremamente distantes das residências de seus pesquisadores, como foi Malinowski, com sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental, publicado em 1922, na qual detalhava o ambiente e as pessoas a partir da técnica Observação Participante. Na atualidade, muitos atuam em seus próprios bairros, aplicando pesquisas de cunho urbano, como foi o caso de Gilberto Velho, advindo do recorte das Sociedades Complexas.
Fravret-Saada (1990) citado por Goldman (2005) publica um livro diferente de todos os estilos etnográficos contemporâneos mais usuais, pois não se limita a apresentar pessoas e suas ações, como um naturalista, nem tão pouco somente descrevê-los. Utiliza-se de um método diverso do paradigma cientificista, pois tenta entender como ajudar algumas pessoas, dito por alguns na época de sua publicação, como uma forma de feitiçaria, já que a autora iniciou suas pesquisas sobre feitiçaria na região do Bocage francês.
Suas pesquisas se fixaram em torno da feitiçaria e suas implicações como a modalidade de violência, como parte de práticas terapêuticas, como local de afeto, e assim como uma questão de etnografia e da antropologia. A técnica utilizada pela pesquisadora durante as visitas de campo em locais onde havia as feitiçarias não era nem a observação participante, proveniente de Malinowski, nem a empatia. Ela realmente se deixou envolver pelos rituais. E critica a forma como outros antropólogos faziam suas pesquisas, quando se tratava de feitiçaria, além de avaliar que em todos os textos que leu sobre o tema, afirmava-se que não havia feitiçaria na Europa ocidental. Não foi o que ela viu.
Na área pesquisada, Fravret-Saada (1990) teve de início dificuldade em obter informações sobre o fato de haver ou não feitiçaria em Bocage. Porém, algum tempo depois, com o decorrer dos dias e semanas, as pessoas acreditavam que a pesquisadora estava sofrendo de alguma feitiçaria, o que abriu as portas para que ela iniciasse propriamente sua pesquisa. Assim, a autora relata alguns dos eventos do enfeitiçado e dos desenfeitiçadores, e diz que se sentia como “nativa” em meio aos seus objetos de pesquisa.
Fravret-Saada (1990) explica que se um etnógrafo aceita ser afetado, isso não significa que se identifica com o nativo, ou que está se aproveitando do campo para exercitar o narcisismo. Aceitar ser afetado supõe correr riscos em seu projeto de conhecimento. A abordagem da autora é bastante interessante e diferenciada das demais técnicas de etnografia, principalmente pelo fato de participar de forma ativa.
Nesse sentido, apresentando as questões metodológicas mais marcantes para o meu projeto, trazidas nos Módulos da Disciplina Epistemologia e Metodologia da pesquisa interdisciplinar em Ciências Humanas, acredito que poderão me auxiliar na minha formação, o que concluirei a seguir.

Considerações Conclusivas


No desenvolvimento da minha pesquisa científica aplicarei o método qualitativo, interdisciplinar. Dentro dessa perspectiva, pretendo utilizar a História Oral, por meio de entrevistas qualitativas em profundidade e também as temáticas, dependendo do entrevistado e dos dados que objetivo obter. Além disso, para a coleta de dados, utilizarei a técnica antropológica da etnografia.
Deste modo, sendo operacionalizada pelo estudo bibliográfico, buscarei informações sobre três bens tombados no centro da cidade de Joinville, quais sejam: A Escola Estadual Germano Timm; a Casa Boehm e; o Cine Palácio, escolhidos durante a escrita do projeto de pesquisa.
O Cine Palácio, conforme figura 1, em dois momentos, no primeiro, uma figura atual, e no segundo, uma foto antiga da década de 1920.

Figura 1: Cine Palácio, 2014. Cine Palácio, déc. de 1920.
Fonte: Disponível em: <www.ndonline.combr> e  <www.panoramico.com> Acesso em: maio,2014.

Hoje o Cine Palácio é alugado por uma Igreja Evangélica. Deixou de ser teatro/cinema em meados da década de 1990, quando da chegada dos shoppings centers a cidade. Esse ícone possui uma história interessante, uma vez que foi inaugurado em 1917, com o nome de Theatro Municipal Nicodemus. Em 1934, passa a se chamar Palace Theatro.  Somente em 1943 muda seu nome para Cine Palácio, como é conhecido até hoje. Foi tombado em 2003, a partir de oito processos administrativos, por um Tombamento Municipal (GUEDES, 2001).
Entre 1964 e 1984 o Brasil sofreu com a ditadura militar e, consequentemente, com a censura ideológica, o que se refletiu sobremaneira, no cinema. Nesse período, o Cine Palácio destaca-se por exibir filmes pornôs como a única saída para sobreviver ao abandono das telas. A partir da década de 1980, tanto no Brasil como mundialmente, os cinemas passam por um período de decadência em razão dos videocassetes, da comercialização massificada de televisores e também com o surgimento (mais a partir da década de 1990) dos shoppings centers. Em 1992, é inaugurado o primeiro shopping de Joinville. No ano de 1995, o Cine Palácio é alugado para a Igreja Universal do Reino de Deus, que utiliza praticamente todo o edifício para seus cultos. Porém, no fim desse mesmo ano, o cinema fecha por completo as portas que ainda funcionava numa entrada alternativa à da igreja (Guedes, 2001).
A Escola Germano Timm, o segundo ícone escolhido, na figura 2, é a segunda escola mais antiga da Joinville.

Figura 2: Escola Germano Timm, 2006.
Fonte: Disponível em: <vereadormauriciopeixer.blogspot.com>. Acesso em: maio, 2014.

A Escola Germano Timm foi fundada no dia 30 de maio de 1935, já iniciando com 280 alunos. O nome dado à escola, Germano Timm, foi em homenagem a um antigo professor, ainda vivo à época, em reconhecimento a uma vida dedicada à educação. Germano Timm é meu bisavô materno, motivo da escolha dessa escola para o estudo de seu abandono.
Em 2003, correu a notícia de que a Escola Germano Timm, situada à rua Orestes Guimarães, n. 406, e a escola Conselheiro Mafra, situada à rua Conselheiro Mafra, n. 70, seriam demolidas para dar lugar a edifícios residenciais, conforme notícias veiculadas no Jornal ANotícia (2003a). Imediatamente, houve reação. A resistência à demolição e a defesa da preservação não se fizeram esperar. Queria-se a manutenção das duas escolas mais antigas de Joinville, ameaçadas de virem abaixo. O grupo que defendia a manutenção era formado por ex-alunos, professores e integrantes do Patrimônio Cultural de Joinville, que se organizaram para que o Poder Público não aprovasse a tal demolição sem consultar a população interessada (Kalb e Flores, 2014).
As informações das possíveis demolições provocaram a reação dos professores que alertaram os pais, enviando um bilhete nos cadernos dos alunos, diante do risco da perda de um espaço de memória. No bilhete dizia: “Povo sem memória, não terá história”. Após reuniões entre os grupos de defensores da manutenção da Escola e de defensores da demolição (representantes do Poder Público), no dia 29 de maio daquele mesmo ano, foi publicado no mesmo jornal (ANotícia, 2003b), que a 23ª Gerência Regional da Educação e Inovação – GEREI decidiu transformar o prédio da Escola em patrimônio cultural do Estado, se o tombamento fosse aprovado, o que ocorreu em 2009.
Contudo, desde o tombamento, em 2009, até a data de hoje, ainda não se iniciaram as obras de restauração desse bem patrimonializado, ficando a deriva de vândalos e curiosos, que vêm destruindo ainda mais esse patrimônio, e das autoridades públicas, que nada fazem para protegê-lo.
A Casa Boehm está localizada na esquina da Rua 9 de Março com a Rua Dr. João Colin, no centro da cidade, que mostra as figuras 3 e 4, é o terceiro ícone a ser estudado na pesquisa. Hoje a casa é alugada para uma loja de calçados.

Figura 3: Casa Boehm, 2005. Casa Boehm, déc.30.
Fonte: Casa Boehm. Disponível em: < m.ndonline.com.br> Acesso em: maio, 2014.

Figura 4: Casa Boehm, Loja Apolo, 2013.
Fonte: < www.dascatarinas.com.br>

Essa casa foi construída em 1927 e tombada em 2009, porém, vem sofrendo alterações em sua estética física, principalmente no que se refere às cores de suas paredes externas, como se pode perceber pela figura 4.
As alterações não autorizadas na pintura da casa demonstram a falta de interesse dos locatários em preservar as condições “originais” desse bem. Apesar de haver discussões sobre a originalidade das cores da pintura externa de bens tombados, vislumbra-se claramente a ridicularização que esse bem vem sofrendo em nome de uma sociedade de consumo, que apenas visa lucro.
Esses bens são paradigmáticos, ícones que representam certas discussões por estarem sendo impactados pelas questões do mundo contemporâneo. Todos os três bens vêm sendo influenciados pela urbanização contemporânea.
O Cine Palácio teve seu fim totalmente desvirtuado do original. Afinal foi inicialmente um teatro, logo se transformando num cinema e, em razão da modernidade, perdeu espaço para os shoppings centers, sendo alugado na década de 1990 para ser usado como igreja. A Escola Germano Timm é um caso triste de abandono para a cidade de Joinville, por parte das autoridades públicas e de certa forma, pela população. A escola vem se deteriorando com o tempo, sem data certa para reforma estrutural. Desde 2006, está completamente fechada, porém vândalos e curiosos continuam a acelerar sua destruição. A UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina - vem prometendo há dois anos abraçar a causa e reformar com dinheiro público estadual a escola, contudo, até o momento nada se viu de efetivo.
E, por fim, a Casa Boehm, como é conhecida entre os profissionais do patrimônio, ou Loja Apolo, para a população em geral joinvillense, é um caso diferenciado. A casa está em boa conservação, sendo utilizada pelo comércio de calçados, ou seja, não se desvirtuou de seu fim, já que inicialmente, quando construída em 1927, já era para uso comercial, porém a sua estética é motivo de piada na cidade. Pode-se observar a diferença discrepante entre as imagens 3 e 4 as quais mostram à direita, em preto e branco, uma foto antiga, e ao lado esquerdo, a foto da casa em suas cores originais. As cores, roxo e branco, destoaram completamente do original, causando alvoroço entre os defensores do patrimônio.
Esses seriam os objetos de estudo, porém, a forma de se analisar tais casos será por meio da etnografia. A pesquisa de campo ocorrerá no Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Natural de Joinville – COMPHAAN.
Na pesquisa bibliográfica será utilizado o método exploratório e descritivo, analisando as referências a respeito do assunto. Pode ocorrer a indicação e a leitura de referências específicas, no caso textos legais em razão das questões ambientais, urbanas e do patrimônio cultural, o que não significa que o tema perderá o seu caráter interdisciplinar.
Neste sentido, para Bachelard (1976, p.53), o estudo das ciências precisa se desenvolver conforme os avanços tecnológicos, realizando revisões e ajustamentos em suas concepções, constantemente. Assim, "todo conhecimento é polêmico. Antes de constituir-se, deve destruir as construções passadas e abrir lugar a novas construções. É este movimento dialético que constitui a tarefa da nova epistemologia".
Quanto ao estudo de campo, para a coleta e análise dos dados, será utilizada a pesquisa qualitativa etnográfica, tendo sido priorizados como instrumento de coleta de dados a observação direta dos fenômenos, por meio da observação participante, o registro da observação das reuniões quinzenais que ocorrerão no Conselho - COMPHAAN em diário de campo, principalmente no que se refere aos três bens acima mencionados, e a aplicação de entrevistas qualitativas aprofundadas e temáticas, com os integrantes do Conselho. Após o estudo de campo, analisaremos os dados para a elaboraçã da tese.
“A pesquisa de campo é aquela que busca dados não em livros, mais junto a determinado campo social de determinada situação cultural e faixa etária. É a pesquisa que se utiliza do testemunho de pessoas, para melhor sentir o fato ou fenômeno com o objetivo de observá-lo e registrá-lo”, conforme Pasold (1999, p.51). E ainda sobre a abordagem qualitativa (pesquisa soft) Bauer e Gaskell (2002, p.23) explica que “é vista como uma maneira de dar poder ou dar voz às pessoas, em vez de tratá-las como objetos, cujo comportamento deve ser quantitativo e estatisticamente modelado”.
Minayo (1993) na mesma linha entende que a metodologia qualitativa permite entender o texto, a fala e o depoimento, como resultado simultâneo de um processo social e de conhecimento e, por isso, recebe atenção especial.
Por isso, o uso concomitante dessas técnicas metodológicas tem o intuito de buscar respostas ou talvez novas perguntas sobre o que se vem fazendo no, sobre e para o patrimônio histórico-cultural da cidade de Joinville, sendo que os módulos da disciplina foram essenciais para aprofundar essas questões.


Referências

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ANotícia, Jornal. ALBERT, Oliver F. Polêmica na demolição de escolas. 08 maio, 2003a.
ANotícia, Jornal. Comunidade se mobiliza contra demolições. 10 maio, 2003b.
BACHELARD, Gaston. A epistemologia. São Paulo: Martins Fontes, 1971.
BAUER, Martin W.; GASKELL, George. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2002.
BOURDIEU, Pierre. et al. A Ruptura, pp. 23-44. In: A profissão do sociólogo. Petrópolis: Vozes, 1999 [1968].
CUPANI, Alberto. A crítica do positivismo e o futuro da filosofia. Florianópolis: Ed da UFSC, 1985.
FAVRET-SAADA, Jeanne. Ser afetado - “Être Aff ecté”. Trad. Paula Siqueira. In: Gradhiva: Revue d’Histoire et d’Archives del’Anthropologie, 8. pp. 3-9, 1990.
GOLDMAN, Marcio. Jeanne Favret-Saada, os afetos, a etnografia. Cadernos de campo. n.13, pp. 149-153, 2005.
GUEDES, Sandra P. L. de Camargo. Cine Palácio Fragmentos da História do Cinema em Joinville. Joinville: Editora: Univille, 2001.
KALB, Christiane H., FLORES, Maria Bernadete Ramos. A construção de um lugar de memória: a Escola Germano Timm, Joinville-SC. Trabalho apresentado no XII Encontro Nacional de História Oral: Política, ética e conhecimento. (Anais do XII...) UFPI. Teresina-PI, 2014.
MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. (Introdução). São Paulo: Abril Cultural, 1976 [1922].
MINAYO, Maria Cecilia de Souza. Disciplinaridade, Interdisciplinaridade e Complexidade. In: Ver Emancipação. Ponta Grossa, 10. 2 p. 435-442, 2010.
MINAYO, Maria Cecilia de Souza; SANCHES, Odécio. Quantitativo-Qualitativo: oposição ou complementaridade? Cad. Saúde Públ. Rio de Janeiro, 9 (3), pp.239-262, jul-set, 1993.
PASOLD, Cesar Luiz. Prática da pesquisa jurídica, idéias e ferramentas úteis para o pesquisador do direito. 3 ed. Florianópolis: OAB/SC Editora, 1999.
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