Artigo escrito em 2014 para a Disciplina de Metodologia do Doutorado.
CHRISTIANE KALB
Introdução
Quase completando 20 anos
de existência, o programa de Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas,
mesmo com grande experiência e sucesso em formar doutores em suas três linhas
de pesquisa, quais sejam, Sociedade e Meio Ambiente; Condição Humana na
Modernidade e Estudos de Gênero, ainda gera estranhamento para outros
doutorandos e professores provenientes de programas disciplinares.
Portanto, a
indisciplinaridade é tema ainda em voga, por sua particularidade em alguns
aspectos que é seguida como método científico. Em diversos momentos a
interdisciplinaridade ressurge na vida dos acadêmicos para se perguntarem se
estão no caminho certo. Isso ocorre primeiro, quando os candidatos estão no decorrer
do processo seletivo para entrar em nosso curso. Mas também se repete quando já
doutorandos se preparam para a escrita de suas teses e, obviamente, na
reformulação dos projetos de pesquisa.
Minayo (2010) expõe quatro
elementos envoltos em sua pesquisa, abrangendo também a interdisciplinaridade. A
Multidisciplinaridade, que seria a
justaposição de disciplinas, cada uma com suas próprias teorias e metodologias;
o Multiprofissionalismo, que seria
uma múltipla articulação de profissionais para resolver um problema; a Interdisciplinaridade, que seria a
articulação de várias disciplinas com enfoque em um objeto, ou problema, sendo
que é o objeto que nos convoca com sua complexidade e; a Transdisciplinaridade, que seria o produto final da
interdisciplinaridade, ou seja, quando se ultrapassa os limites de uma
disciplina pelo investimento articulado.
Discorre ainda sobre o
pensamento complexo, que conforme Heidegger, Gadamer e Weber apud Minayo (2010),
tem como princípio a dialógica, de modo que a conversa e o ouvir são partes do pensamento
intersubjetivo. Pombo (2007), por outro lado, entende que a palavra
interdisciplinaridade está gasta. Assim, subdivide o seu entendimento a partir
de diferentes contextos, como o epistemológico, a partir da transparência de
conhecimentos entre disciplinas, o pedagógico, ligado às questões de ensino, e
o contexto mediático, a partir dos novos meios de comunicação. Haveria ainda um
contexto empresarial e tecnológico, onde a palavra vem ganhando força, nos
últimos anos.
Para entender, então, a
interdisciplinaridade nas pesquisas científicas, Pombo (2007) combina de forma
sequencial as palavras Pluridisciplinaridade
com coordenação – onde as disciplinas caminham de forma paralela umas às
outras; Interdisciplinaridade com combinação
– onde há uma convergência entre as disciplinas; e Transdisciplinaridade com fusão, local em que há um holismo, uma
unificação entre as disciplinas.
Para entender isso melhor,
quanto à história da interdisciplinaridade, Minayo (2010) relata que, a partir
da década de 1960, há movimentos (ambientalistas, feministas,
anti-antropocentristas, etc) para que houvesse novos questionamentos aos
métodos e à ideia de ciência, bem como críticas ao excesso de racionalismo. O
triunfo da especialização consiste em saber tudo sobre nada. Com o
desenvolvimento tecnológico percebeu-se que todos os seres vivos estão intricados
em redes e, para entendê-los, precisa-se analisar o todo.
Quanto ao método
interdisciplinar em si, a autora esclarece o que seria o “fetiche do método”,
ou seja, quando os pesquisadores acham que a verdade se esconde na sofisticação
do método, sem qualquer pergunta teórica ou contextualização, que deveria ser
feita de forma interdisciplinar. Assim, o pesquisador não deve abandonar a sua
formação, porém, precisa entender e aceitar a experiência interdisciplinar,
estabelecendo trocas, colaboração, cooperação; acolhendo o abandono da vaidade
unidisciplinar, que, na maioria das vezes, provém de uma formação na graduação
extremamente especialista.
Formas de se fazer ciência
que Bourdieu (1968) critica. O autor discorre sobre uma ciência indissociada
das reflexões sociológicas e epistemológicas, havendo trocas simbólicas entre o
que é o fazer científico e a construção do conhecimento científico, reconhecendo
que as condições sociais seriam obstáculos para o conhecimento científico. Como
forma de transpor esses obstáculos, Bourdieu sugere uma ciência social
unificada, que siga um rigor científico, ou seja, que as ciências sociais possam
ser “tão científicas” quanto às ciências da natureza. Toda a defesa de Bourdieu
quanto às ciências sociais como um fazer científico, entendido na relação entre
a prática e a lógica da episteme, é baseada nas análises dos teóricos
clássicos, Marx, Weber e Durkheim quanto aos fatos sociais.
Muitos teóricos reclamavam
por uma urgência de haver uma teoria sociológica, que respondesse aos anseios
de uma teoria geral e universal, porém, para Bourdieu (1968), não é uma teoria
universalizante que responderá os anseios de todas as sociedades,
principalmente as mais complexas. Cupani (1985), no mesmo sentido, entende que
o conhecimento científico nasce no âmbito do conhecimento vulgar, sendo portanto indissociáveis e comprometidos um com o
outro. Desconsiderar o conhecimento de senso comum, supervalorizando o
científico é tarefa de uma ciência limitante e unidisciplinar, que não mais
responde às questões atuais para compreender o mundo. Portanto, Pombo (2007)
entende que estamos numa fase de alargar o sentido da palavra interdisciplinaridade,
assim como já ocorreu com o conceito de ciência.
Para responder a algumas
perguntas que tenho feito no decorrer da criação do projeto de pesquisa de tese
venho utilizando algumas metodologias que entendo como interdisciplinares. Interdisciplinares, pois, apesar de surgirem
de teorias unidisciplinares, podem e são aplicadas em múltiplos temas. A seguir,
exponho algumas dessas metodologias.
Metodologias
de Pesquisa aplicadas às Ciências Humanas
A entrevista pode ser
considerada uma das mais interessantes formas de se pesquisar dentro das Ciências
Humanas. As diversas metodologias de entrevista capazes de desvendar fatos e
dados históricos, políticos e memoriais fazem parte do arcabouço teórico da
História Oral.
Ocorre que, de acordo com
Alberti (2005), há alguns problemas que são enfrentados pelos Programas que
organizam e arquivam esse tipo de informação. O primeiro deles é a ausência de
agilidade entre a realização da entrevista até o momento de sua liberação para
consulta pelo público em geral; ou então, até o momento da não-liberação do
conteúdo pelo depoente. Outro problema enfrentado é a falta de tecnologia na
gravação e na forma de armazenamento desse conteúdo. Afinal, nem todos os
programas e universidades que possuem arquivo de história oral detém toda a
tecnologia para arquivamento correto desses conteúdos. Muitos dados se perdem
pelo mau condicionamento.
Além dos problemas sofridos
pelos Programas que arquivam e armazenam esses dados, há ainda a questão dos
entrevistadores. Como são realizadas as entrevistas e como é o seu arquivamento
são pontos bastante relevantes no momento da apresentação do resultado pelos
pesquisadores. Alberti (2005) frisa que, quanto mais informações relacionadas à
entrevista houver, melhor serão os resultados, uma vez que a intencionalidade
ficará mais clara e o papel do historiador e∕ou pesquisador se aclarará
da mesma forma.
Silva (2006) alerta sobre
algumas especificidades da entrevista qualitativa, alertando para as possibilidades
de se formalizar demais a forma de aplicar tal método, já que busca-se muitas
vezes imitar as Ciências Exatas e Naturais.
Esse método foi utilizado pelas
primeiras vezes nas Ciências Sociais, de acordo com Silva (2006), a partir da
década de 1930. Os autores enumeram diversas especificidades da entrevista
qualitativa, sendo que a entrevista em profundidade é aquela que objetiva
investigar a vida do entrevistado de forma bastante ampla, contrapondo-se a
entrevista focalizada, que objetiva analisar algum tema em específico, que
espera-se que os entrevistados devam ou possam responder, relacionado às suas vidas.
Assim, a entrevista em
profundidade fica longe do formalismo técnico esperado em outras técnicas. Deste
modo, é também nominada de entrevista aberta, ou simplesmente de entrevista
qualitativa. Contudo, não se trata de apenas registrar tudo que o entrevistado
fala de sua vida, mas também de analisar o discurso e interpretá-lo.
Uma dúvida recorrente no
decorrer das pesquisas qualitativas e quando se aplica entrevistas abertas é
sobre quem, quantos e quantas vezes entrevistar, pois nesse método não há
cálculo estatístico do tamanho amostral ideal para tal pesquisa. Uma das
técnicas utilizadas é a bola de neve, onde a partir da indicação de amigos,
parentes e outros contatos pessoais encontram-se esses sujeitos que poderão se
tornar os entrevistados da pesquisa.
O papel do entrevistador
também é bastante importante no momento da pré-entrevista e da entrevista em
si, pois dependendo da forma de aproximação e do desenrolar do ato, o
entrevistado pode se sentir constrangido ou ameaçado, em razão do comportamento
do pesquisador ou entrevistador, renegando algumas informações que seriam
preciosas à pesquisa. A paciência e a compaixão do entrevistador se mostram
também imprescindíveis, já que silêncios e emoções podem vir à tona e, se não
levados em consideração e respeitados, podem também ser deixados de lado, sendo
que poderiam trazer outras informações e dados relevantes.
A entrevista qualitativa
só funciona quando há a arte do vínculo, ou seja, “é um jogo de estratégias
comunicativas, uma invenção dialógica, um gênero discursivo, que antes de se
submeter às regras da linguagem, submete-se aos usos, ao contexto e aos
sujeitos como atores sociais” (SILVA, 2006, p.318).
Outro método interessante
e que de certa forma está completamente interligado à História Oral é a
etnografia. A etnografia é
um método
utilizado na Antropologia para coleta de dados, durante a pesquisa científica. Tem
por base a interação subjetiva entre o pesquisador, antropólogo ou não, e o seu
objeto de pesquisa. Hoje, muitos pesquisadores já não nomeiam de objetos de
pesquisa os seus pesquisados, por questão de aproximação e distanciamento. As
primeiras etnografias ocorriam em tribos ou comunidades indígenas extremamente
distantes das residências de seus pesquisadores, como foi Malinowski, com sua
obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental,
publicado em 1922, na qual detalhava o ambiente e as pessoas a partir da técnica
Observação Participante. Na atualidade, muitos atuam em seus próprios bairros,
aplicando pesquisas de cunho urbano, como foi o caso de Gilberto Velho, advindo
do recorte das Sociedades Complexas.
Fravret-Saada (1990)
citado por Goldman (2005) publica um livro diferente de todos os estilos
etnográficos contemporâneos mais usuais, pois não se limita a apresentar
pessoas e suas ações, como um naturalista, nem tão pouco somente descrevê-los.
Utiliza-se de um método diverso do paradigma cientificista, pois tenta entender
como ajudar algumas pessoas, dito por alguns na época de sua publicação, como
uma forma de feitiçaria, já que a autora iniciou suas pesquisas sobre
feitiçaria na região do Bocage francês.
Suas pesquisas se fixaram
em torno da feitiçaria e suas implicações como a modalidade de violência, como
parte de práticas terapêuticas, como local de afeto, e assim como uma questão
de etnografia e da antropologia. A técnica utilizada pela pesquisadora durante
as visitas de campo em locais onde havia as feitiçarias não era nem a observação
participante, proveniente de Malinowski, nem a empatia. Ela realmente se deixou
envolver pelos rituais. E critica a forma como outros antropólogos faziam suas
pesquisas, quando se tratava de feitiçaria, além de avaliar que em todos os
textos que leu sobre o tema, afirmava-se que não havia feitiçaria na Europa
ocidental. Não foi o que ela viu.
Na área pesquisada, Fravret-Saada (1990) teve de início dificuldade em obter informações
sobre o fato de haver ou não feitiçaria em Bocage. Porém, algum tempo depois,
com o decorrer dos dias e semanas, as pessoas acreditavam que a pesquisadora
estava sofrendo de alguma feitiçaria, o que abriu as portas para que ela
iniciasse propriamente sua pesquisa. Assim, a autora relata alguns dos eventos
do enfeitiçado e dos desenfeitiçadores, e diz que se sentia como “nativa” em
meio aos seus objetos de pesquisa.
Fravret-Saada (1990) explica que se um etnógrafo
aceita ser afetado, isso não significa que se identifica com o nativo, ou que
está se aproveitando do campo para exercitar o narcisismo. Aceitar ser afetado
supõe correr riscos em seu projeto de conhecimento. A abordagem da autora é bastante interessante e
diferenciada das demais técnicas de etnografia, principalmente pelo fato de
participar de forma ativa.
Nesse
sentido, apresentando as questões metodológicas mais marcantes para o meu
projeto, trazidas nos Módulos da Disciplina Epistemologia e Metodologia da
pesquisa interdisciplinar em Ciências Humanas, acredito que poderão me auxiliar
na minha formação, o que concluirei a seguir.
Considerações
Conclusivas
No desenvolvimento da minha pesquisa
científica aplicarei o método
qualitativo, interdisciplinar. Dentro dessa perspectiva, pretendo utilizar a
História Oral, por meio de entrevistas qualitativas em profundidade e também as
temáticas, dependendo do entrevistado e dos dados que objetivo obter. Além
disso, para a coleta de dados, utilizarei a técnica antropológica da
etnografia.
Deste modo, sendo operacionalizada pelo
estudo bibliográfico, buscarei informações sobre três bens tombados no centro
da cidade de Joinville, quais sejam: A Escola Estadual Germano Timm; a Casa
Boehm e; o Cine Palácio, escolhidos durante a escrita do projeto de pesquisa.
O Cine Palácio, conforme figura 1, em dois momentos, no
primeiro, uma figura atual, e no segundo, uma foto antiga da década de 1920.
Figura
1: Cine Palácio, 2014. Cine Palácio, déc. de 1920.
Fonte:
Disponível em: <www.ndonline.combr> e
<www.panoramico.com> Acesso em: maio,2014.
Hoje o Cine Palácio é alugado por uma Igreja Evangélica.
Deixou de ser teatro/cinema em meados da década de 1990, quando da chegada dos
shoppings centers a cidade. Esse ícone possui uma história interessante, uma
vez que foi inaugurado em 1917, com o nome de Theatro Municipal Nicodemus. Em
1934, passa a se chamar Palace Theatro.
Somente em 1943 muda seu nome para Cine Palácio, como é conhecido até
hoje. Foi tombado em 2003, a partir de oito processos administrativos, por um
Tombamento Municipal (GUEDES, 2001).
Entre 1964 e 1984 o Brasil sofreu com a ditadura militar
e, consequentemente, com a censura ideológica, o que se refletiu sobremaneira,
no cinema. Nesse período, o Cine Palácio destaca-se por exibir filmes pornôs
como a única saída para sobreviver ao abandono das telas. A partir da década de
1980, tanto no Brasil como mundialmente, os cinemas passam por um período de
decadência em razão dos videocassetes, da comercialização massificada de
televisores e também com o surgimento (mais a partir da década de 1990) dos
shoppings centers. Em 1992, é inaugurado o primeiro shopping de Joinville. No
ano de 1995, o Cine Palácio é alugado para a Igreja Universal do Reino de Deus,
que utiliza praticamente todo o edifício para seus cultos. Porém, no fim desse
mesmo ano, o cinema fecha por completo as portas que ainda funcionava numa
entrada alternativa à da igreja (Guedes, 2001).
A Escola Germano Timm, o segundo ícone escolhido, na
figura 2, é a segunda escola mais antiga da Joinville.
Figura
2: Escola Germano Timm, 2006.
Fonte:
Disponível em: <vereadormauriciopeixer.blogspot.com>. Acesso em: maio,
2014.
A Escola Germano Timm foi fundada no dia 30 de maio de
1935, já iniciando com 280 alunos. O nome dado à escola, Germano Timm, foi em
homenagem a um antigo professor, ainda vivo à época, em reconhecimento a uma
vida dedicada à educação. Germano Timm é meu bisavô materno, motivo da escolha
dessa escola para o estudo de seu abandono.
Em 2003, correu a notícia de que a Escola Germano Timm,
situada à rua Orestes Guimarães, n. 406, e a escola Conselheiro Mafra, situada
à rua Conselheiro Mafra, n. 70, seriam demolidas para dar lugar a edifícios
residenciais, conforme notícias veiculadas no Jornal ANotícia (2003a).
Imediatamente, houve reação. A resistência à demolição e a defesa da
preservação não se fizeram esperar. Queria-se a manutenção das duas escolas
mais antigas de Joinville, ameaçadas de virem abaixo. O grupo que defendia a
manutenção era formado por ex-alunos, professores e integrantes do Patrimônio
Cultural de Joinville, que se organizaram para que o Poder Público não
aprovasse a tal demolição sem consultar a população interessada (Kalb e Flores,
2014).
As informações das possíveis demolições provocaram a
reação dos professores que alertaram os pais, enviando um bilhete nos cadernos
dos alunos, diante do risco da perda de um espaço de memória. No bilhete dizia:
“Povo sem memória, não terá história”. Após reuniões entre os grupos de
defensores da manutenção da Escola e de defensores da demolição (representantes
do Poder Público), no dia 29 de maio daquele mesmo ano, foi publicado no mesmo
jornal (ANotícia, 2003b), que a 23ª Gerência Regional da Educação e Inovação –
GEREI decidiu transformar o prédio da
Escola em patrimônio cultural do Estado, se o tombamento fosse aprovado, o que
ocorreu em 2009.
Contudo, desde o tombamento, em 2009, até a data de hoje,
ainda não se iniciaram as obras de restauração desse bem patrimonializado,
ficando a deriva de vândalos e curiosos, que vêm destruindo ainda mais esse
patrimônio, e das autoridades públicas, que nada fazem para protegê-lo.
A Casa Boehm está localizada na esquina da Rua 9 de Março
com a Rua Dr. João Colin, no centro da cidade, que mostra as figuras 3 e 4, é o
terceiro ícone a ser estudado na pesquisa. Hoje a casa é alugada para uma loja
de calçados.
Figura
3: Casa Boehm, 2005. Casa Boehm, déc.30.
Fonte:
Casa Boehm. Disponível em: < m.ndonline.com.br> Acesso em: maio, 2014.
Figura
4: Casa Boehm, Loja Apolo, 2013.
Fonte:
< www.dascatarinas.com.br>
Essa casa foi construída em 1927 e tombada em 2009, porém,
vem sofrendo alterações em sua estética física, principalmente no que se refere
às cores de suas paredes externas, como se pode perceber pela figura 4.
As alterações não autorizadas na pintura da casa
demonstram a falta de interesse dos locatários em preservar as condições
“originais” desse bem. Apesar de haver discussões sobre a originalidade das
cores da pintura externa de bens tombados, vislumbra-se claramente a
ridicularização que esse bem vem sofrendo em nome de uma sociedade de consumo,
que apenas visa lucro.
Esses bens são paradigmáticos, ícones que representam
certas discussões por estarem sendo impactados pelas questões do mundo
contemporâneo. Todos os três bens vêm sendo influenciados pela urbanização
contemporânea.
O Cine Palácio teve seu fim totalmente desvirtuado do
original. Afinal foi inicialmente um teatro, logo se transformando num cinema e,
em razão da modernidade, perdeu espaço para os shoppings centers, sendo alugado
na década de 1990 para ser usado como igreja. A Escola Germano Timm é um caso
triste de abandono para a cidade de Joinville, por parte das autoridades
públicas e de certa forma, pela população. A escola vem se deteriorando com o
tempo, sem data certa para reforma estrutural. Desde 2006, está completamente
fechada, porém vândalos e curiosos continuam a acelerar sua destruição. A UDESC
– Universidade do Estado de Santa Catarina - vem prometendo há dois anos abraçar
a causa e reformar com dinheiro público estadual a escola, contudo, até o
momento nada se viu de efetivo.
E, por fim, a Casa Boehm, como é conhecida entre os
profissionais do patrimônio, ou Loja Apolo, para a população em geral
joinvillense, é um caso diferenciado. A casa está em boa conservação, sendo
utilizada pelo comércio de calçados, ou seja, não se desvirtuou de seu fim, já
que inicialmente, quando construída em 1927, já era para uso comercial, porém a
sua estética é motivo de piada na cidade. Pode-se observar a diferença
discrepante entre as imagens 3 e 4 as quais mostram à direita, em preto e
branco, uma foto antiga, e ao lado esquerdo, a foto da casa em suas cores
originais. As cores, roxo e branco, destoaram completamente do original,
causando alvoroço entre os defensores do patrimônio.
Esses seriam os objetos de estudo, porém, a
forma de se analisar tais casos será por meio da etnografia. A pesquisa de
campo ocorrerá no Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico,
Arqueológico e Natural de Joinville – COMPHAAN.
Na pesquisa bibliográfica será utilizado o
método exploratório e descritivo, analisando as referências a respeito do
assunto. Pode ocorrer a indicação e a leitura de referências específicas, no
caso textos legais em razão das questões ambientais, urbanas e do patrimônio
cultural, o que não significa que o tema perderá o seu caráter
interdisciplinar.
Neste sentido, para Bachelard (1976, p.53),
o estudo das ciências precisa se desenvolver conforme os avanços tecnológicos,
realizando revisões e ajustamentos em suas concepções, constantemente. Assim,
"todo conhecimento é polêmico. Antes de constituir-se, deve destruir as
construções passadas e abrir lugar a novas construções. É este movimento
dialético que constitui a tarefa da nova epistemologia".
Quanto ao estudo de campo, para a coleta e
análise dos dados, será utilizada a pesquisa qualitativa etnográfica, tendo
sido priorizados como instrumento de coleta de dados a observação direta dos
fenômenos, por meio da observação participante, o registro da observação das
reuniões quinzenais que ocorrerão no Conselho - COMPHAAN em diário de campo,
principalmente no que se refere aos três bens acima mencionados, e a aplicação
de entrevistas qualitativas aprofundadas e temáticas, com os integrantes do
Conselho. Após o estudo de campo, analisaremos os dados para a elaboraçã da
tese.
“A pesquisa de
campo é aquela que busca dados não em livros, mais junto a determinado campo
social de determinada situação cultural e faixa etária. É a pesquisa que se
utiliza do testemunho de pessoas, para melhor sentir o fato ou fenômeno com o
objetivo de observá-lo e registrá-lo”, conforme Pasold (1999, p.51). E ainda
sobre a abordagem qualitativa (pesquisa soft)
Bauer e Gaskell (2002, p.23) explica que
“é vista como uma maneira de dar poder ou dar voz às pessoas, em vez de
tratá-las como objetos, cujo comportamento deve ser quantitativo e
estatisticamente modelado”.
Minayo (1993) na
mesma linha entende que a metodologia qualitativa permite entender o texto, a
fala e o depoimento, como resultado simultâneo de um processo social e de
conhecimento e, por isso, recebe atenção especial.
Por isso, o uso
concomitante dessas técnicas metodológicas tem o intuito de buscar respostas ou
talvez novas perguntas sobre o que se vem fazendo no, sobre e para o patrimônio histórico-cultural da cidade de
Joinville, sendo que os módulos da disciplina foram essenciais para aprofundar
essas questões.
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