O Porquê disso tudo...

Um dia ouvi de uma professora que existe um campo verde que representa o conhecimento. Nesse campo existem diversas árvores, cada uma poderíamos chamar de grandes áreas do conhecimento. "Dentro" dessas árvores há galhos e ramos que nos levam a pequenas folhas. Eu me aprofundei em algumas dessas folhas de algumas árvores do conhecimento, por isso quero dividir esses estudos com quem tiver interesse em conhecer alguma "nova" ou "velha" folha. Sem intenção de gerar a priori novos frutos, porém apenas semear, agora sim, ideias e esclarecimentos.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O ferro como forma de desenvolvimento industrial no mundo Ocidental e no Brasil



 Esse é o primeiro artigo que publicarei no Blog, não por ser o mais importante nem por ser menos interessante. Contudo foi uma das pesquisas que realizei quando no Mestrado.  Minha pesquisa no Mestrado discorreu sobre Ferramentarias e fiquei curiosa sobre os aspectos que o ferro apresentava no que se refere ao processo de industrialização no mundo Ocidental e especialmente no Brasil.

Christiane Kalb

RESUMO

O presente artigo analisa sucintamente as principais condições históricas que auxiliaram para a formação do patrimônio industrial no mundo Ocidental e no Brasil a partir do ferro, desde a caracterização rural e muito incipiente, até as transformações com ideais industriais em alguns determinados países.  Além disso, busca-se descrever as primeiras tentativas de desenvolvimento de atividades industriais a partir do ferro, após o sistema de colonização portuguesa no Brasil até meados da Revolução industrial. Fato que influenciou pensadores, as formas de trabalho, os próprios trabalhadores, gerando uma nova fase na época, chamada de modernidade.

PALAVRAS-CHAVE: Trabalho, Revolução Industrial, indústrias, ferro, Brasil.

 

As primeiras formas de trabalho, mesmo que voluntário, ou melhor, para a sobrevivência do ser humano ocorreu no Período Neolítico, também conhecido de Idade da Pedra Polida, que por meio das atividades de domesticação de animais e da descoberta da agricultura, “a oferta de alimentos cresceu, [...] grupos humanos começaram a se sedentarizar, dando origem às comunidades e às primeiras aldeias. As atividades se diversificaram, especialmente o artesanato, a tecelagem, a cerâmica e a fabricação de farinhas, pão e bebidas” (Barbeiro, 2004, p.13).
Já neste período, conforme Le Roi-Gourhan (1953, p. 200 apud SENAI, 2002, p. 11) entre os anos 6000 e 3000 a.C. aparecem objetos de ferro pelo Egito à Mesopotâmia e Índia, quando o resto do mundo lascava e polia pedra, o Mediterrâneo Oriental e a Ásia Ocidental já possuíam utensilagem da fundição e da forja[1].
Com o tempo, a divisão dos trabalhos da aldeia / comunidade foi se delineando, aos homens normalmente cabia a caça de animais e a fabricação dos artefatos de defesa e ataque, o trabalho na terra e a construção das habitações. Já, às mulheres cabia o cuidado da lavoura e a preparação dos alimentos, quando já arado, bem como o cuidado e educação das crianças.
Barbeiro (2004, p. 27) complementa:

A descoberta da agricultura provocou uma verdadeira revolução na sociedade humana, que até então caçava, e ao mesmo tempo, era a caça de outros predadores. O trabalho de muitos homens e mulheres foi responsável por uma vida mais estável, com maior segurança, sem tantas mudanças (nomadismo) em busca de comida. O início da agricultura e da criação de animais domésticos proporcionou condições para que a sociedade se tornassem mais complexas, organizadas e criativas. As civilizações descobriram suas potencialidades e teve início um pluralismo que deixou marcas indeléveis em obras como as pirâmides do Egito, os palácios da Mesopotâmia, os templos indianos e a muralha da China. Todo esse trabalho foi fruto da cultura e da arte acumuladas por esses povos, que legaram à nossa civilização uma herança imensa.

Como se bem sabe (Altavilla, 2001, p.1 e Souto, 1975, p. 15), as primeiras civilizações do mundo “surgiram” no Oriente há aproximadamente cinco mil anos, criando as primeiras pequenas cidades e consequentemente desenvolvendo técnicas de organização social, ou seja, algumas delas inventaram uma escrita, e por conseguinte, leis e normas de conduta, além é claro do estabelecimento de regras econômicas, hierarquias dentro daquelas cidades.
Normalmente elas se desenvolviam ao redor de algum rio ou mar, pelo fácil acesso à fonte de água e alimento. Exemplo disso era a civilização egípcia, na qual se ampliou às margens do Rio Nilo, tendo como principais atividades: arar, semear, abrir canais, bombear água, dentre outras, que se pode verificar pela simples análise destas atividades na escrita egípcia, chamada de hieróglifos.
Vale ainda ressaltar que nesta civilização também havia uma hierarquia, estando no topo dela os faraós, donos das terras cultivadas pelos camponeses. Além dos camponeses, havia também artesãos e comerciantes. Estes artesãos produziam tijolos e vasilhas de argila úmida que vinha do Rio Nilo, além disso, investiam na “fabricação de pão e de cerveja de cereais, produção de vinho de uva e de tâmara, fiação e tecelagem do linho, indústrias de couro, utilização do papiro e da madeira para produções diversas (material para escrever, cordas, redes, embarcações, móveis, portas etc)” (Barbeiro, 2004, p. 37).
Na Europa, por volta do século IX a.C. (Wagner, 2003) se desenvolveu a "cultura de Hallstatt" substituindo a "cultura dos campos de urnas", que se denominou "Primeira Idade do Ferro", pois coincide com a introdução do uso deste metal. O ferro, pois, era usado em ferramentas, armas e jóias, embora também nesta época ainda haviam objetos de bronze.
Aos poucos as cidades, principalmente romanas e gregas, foram se urbanizando com a ajuda da mão de obra escrava e o desenvolvimento comercial. “O Direito também se modificou, com atenção maior à proteção dos órfãos e idosos, humanização dos processos judiciais e a garantia da integridade física do cidadão” (Barbeiro, 2004, p. 37), deixando para trás as regras de processo criminal bastante conhecidas e, às vezes, violentas, da Lei de Talião ‘olho por olho, dente por dente’.
Durante a Idade Média ocorreu uma nova organização estrutural, baseada em sociedades fundadas “na posse das terras, onde os servos trabalhavam duro e ganhavam apenas parte da produção que arrancavam dos campos. [...] No Oriente houve um grande progresso técnico e cultural que se espalhou também pelo Ocidente” (Barbeiro, 2004, p. 103). O comércio neste período consistia na troca de produtos (conhecido como escambo) sem grandes transformações, assim como ocorria a troca de escravos por armas, ou outros produtos. Além disso, as cidades começaram a se unir estrategicamente formando os primeiros Estados, tendo um governo centralizado, o que antes apenas ocorria quando em período de guerras.
 Nos feudos havia ainda a divisão de ordens, clero, nobreza e o povo, este consistia nos trabalhadores camponeses que sustentavam toda a sociedade com o seu trabalho. Os camponeses produziam “trigo, centeio, [...] cuidavam das oliveiras e vinhas. Usavam o sistema de rotatividade no plantio a cada dois anos, reservando um campo para o cultivo de cereais enquanto o outro campo descansava e era usado para a pastagem dos animais, cujo esterco fertilizava o solo” (Barbeiro, 2004, p. 121).
Neste período e até finais do século XIX, toda a europa empregava como método siderúrgico a "farga catalana" (Wagner, 2003), na qual se obtinha o ferro e o aço de baixo carbono empregando-se carvão vegetal e o minério de ferro. Este procedimento foi substituído pelo emprego de altos fornos.
A partir do século XII, Maior (1975, p. 34) acrescenta que os primeiros burgos são criados, junto às corporações de ofícios e às ligas de mercadores, nas quais buscavam proteger os interesses de um determinado ofício, garantindo o monopólio da produção e comercialização do produto artesanal para seus membros.  Durante o período medieval, aperfeiçoa-se a metalurgia e as utilidades com o ferro, assim como os trabalhos nas minas. “Os fornos são ainda fracos e o trabalho faz-se grande parte à mão, mas as pequenas forjas multiplicam-se por toda parte onde encontra a madeira, o minério e as quedas de água” (Souto, 1975, p. 34). Após as Cruzadas, o impulso econômico nas cidades do Ocidente mobilizou a expansão de bancos (uso de moedas) e dos instrumentos comerciais.
Com este crescimento econômico dos burgos, os donos de comércio tinham um novo sentimento de libertação das regras da monarquia e do sistema feudal, por meio do título de burguesia, tomando corpo a ponto de ser considerada uma camada superior no sistema urbano. Neste mesmo ínterim iniciou-se o êxodo rural, mesmo que incipiente, tornando as cidades o principal centro de vivência, tornando este renascimento urbano e comercial uma nova Era na Europa Ocidental, chamada de Idade Moderna, que no seu início foi marcado pela “guerra, peste e fome” (Infopédia, 2003-2011, web).
As guerras prejudicaram sobremaneira o comércio terrestre, fazendo com que os mercadores dessem preferência à via marítima, vez que a Peste Negra devastou o território europeu matando um terço de sua população (Rezende, 2008, web). A pobreza atingiu todas as camadas sociais, trazendo revolta e descontentamento de toda a população, “as péssimas condições de trabalho e o monopólio dos mestres de oficinas provocaram a sublevação dos artesões. [...] os artífices conseguiram maior participação nas corporações e os camponeses, o afrouxamento das relações servis” (Barbeiro, 2004, p. 146). Singer (1988, p.18) complementa descrevendo que:

Na Inglaterra, os senhores reagiram à emancipação de seus servos, realizando as chamadas “enclosures” – cercamento – que consistiam na expulsão em massa dos arrendatários e a transformação das terras de cultivo em pastagens para ovelhas. Os camponeses expulsos entre 1455 e 1637 constituíram uma parte importante do proletariado manufatureiro.

Vale lembrar ainda que o trabalho escravo (Barbeiro, 2004, p. 155) existiu durante muitos períodos da história da humanidade. Foi por meio do serviço dessas pessoas que se ergueram monumentos ou se alimentaram adultos e crianças que ocupavam o topo do poder social. Na Antiguidade a escravidão estava relacionada a prisioneiros de guerra ou a povos conquistados. Com o desenvolvimento do capitalismo (Idade Moderna), foi entre negros e índios que os europeus conseguiram maiores contingentes de escravos. Nas regiões da África houve despovoamentos pelo tráfico negreiro e civilizações inteiras da América foram levadas para as minas de prata do continente. A exploração do trabalho compulsório foi ampliada graças às descobertas tecnológicas, a princípio monopolizados pelos europeus em busca de riquezas utilizadas para medir o poder dos Estados modernos e, mais tarde, na industrialização de países como a Inglaterra.
No período conhecido por Renascimento, ou Renascença, Barbeiro prediz que, “a burguesia lutava pelos seus interesses econômicos [...] a sociedade renascentista comportava novos segmentos sociais, como profissionais liberais e assalariados. Os servos libertados deslocavam-se para os centros urbanos e tentavam se integrar na nova sociedade” (Barbeiro, 2004, p. 166).

Possuidores de habilidades técnicas necessárias estavam à disposição dos ex-mestres, transformados em empregados, para se inserir em nova divisão técnica de trabalho, que alocava a cada grupo de trabalhadores especializados uma única operação produtiva da série que constitui o ciclo completo de produção. Transformavam-se em produtos parcelados, despojados de sua antiga qualificação profissional, que os habilitava a confeccionar o objeto inteiro, para se tornarem parte integrante de um trabalhador coletivo, subordinado ao proprietário dos meios de produção. Tendo-lhes sido roubada a oportunidade de exercer autonomamente seu ofício, tornaram-se dependentes de quem se dispunha a lhes comprar a força de trabalho (Singer, 1988, p. 20).

A sociedade modifica-se culturalmente por meio das transformações econômicas, políticas e tecnologias ambientais, com a abertura das universidades aos leigos, assim, a burguesia passa a ter acesso a conhecimentos antes exclusivos ao clero, bem como com o aperfeiçoamento da imprensa por Gutemberg (Ribeiro, Chagas e pinto, 2007, p. 29), possibilitando a divulgação de livros que antes eram manuscritos em número extremamente reduzidos.  Deste modo, o Renascimento ficou conhecido por desmitificar muitos dogmas e mitos da Idade Média, em razão, principalmente da liberdade de pesquisas em todas as áreas.
Outro fato importante neste período da história ocidental foi a Reforma protestante, idealizada por Martin Lutero, que influenciou o pensamento europeu, causando entusiasmo popular suficiente para encarar os dogmas católicos até então seguidos cegamente. Max Weber, em sua obra que trata do capitalismo e pensamento protestante, lembra que com o processo de industrialização que aos poucos também ocorreu nos países de tradição protestante, fez com que o trabalho fosse “um fim absoluto em si mesmo, como uma vocação [contudo] não pode ser estimulado por baixos ou altos salários, mas só pode ser produzido por um longo e árduo processo de educação” (Weber, 2007, p. 57).
Na continuidade do movimento marítimo, em meados do século XVI, intensificavam-se a exploração econômica nas Américas e as transações comerciais com a Ásia, favorecendo a colonização (concentração de riquezas nas mãos dos colonizados em detrimento das colônias) pelos países europeus banhados pelo oceano Atlântico. “Esta revolução comercial assumiu um caráter global e teve uma importância fundamental para a futura Revolução Industrial” (Barbeiro, 2004, p. 181). Além disso:

As conquistas espanholas na América tornaram a Coroa espanhola a proprietária da maior parte das terras americanas, com um império que se estendia desde a Califórnia, a desembocadura do Rio Mississipi e a Flórida, ao norte, até a Terra do Fogo, na América do Sul, com exceção dos territórios portugueses que vieram a formar o Brasil. Os espanhóis montaram um sistema colonial que sobreviveu, no seu conjunto, até o início do século XIX (Barbeiro, 2004, p. 185).

Obviamente, os portugueses não deixaram por menos, colonizando parte do Brasil, utilizando a mão de obra indígena (Souto, 1975, p. 320) para extrair pau-brasil em troca de pequenos objetos e utensílios. Além da exploração da madeira do pau-brasil, os portugueses passaram também a cultivar cana de açúcar logo no início do processo de colonização. A madeira foi explorada muito intensamente até meados de 1800, quando a indústria têxtil a substituiu.
A sociedade brasileira colonial era a expressão do capitalismo comercial europeu, sob o alvo principal dos investimentos destinados ao cultivo de produtos tropicais voltados à exportação, através dos senhores de engenhos utilizando o trabalho escravo para tanto, vindos dos países africanos. Apenas no início do século XVIII que se formaram os novos grupos sociais.
Foi a partir dos jesuítas, nos primeiros séculos da conquista e colonização brasileira, que o desenvolvimento educacional e artístico “cria” uma identidade nacional, até então, inexistente. Houve diversos períodos de exploração de produtos brasileiros (Barbeiro, 2004, p. 233), luta pelo ouro (meados de 1690), descoberta de diamantes (1714), dentre outros, contudo vale lembrar que no período açucareiro as vilas e cidades eram pobres, já que as mercadorias circulavam apenas no porto, não havendo vida urbana significativa, diferente do período de exploração de minérios, quando a população começou a se instalar nos núcleos urbanos, desenvolvendo o comércio local.
Neste ínterim, na Europa, os pensadores iniciaram um novo movimento intelectual conhecido por Iluminismo, que negava os valores do absolutismo e pregava os ideais racionalistas. Além disso, de acordo com Adam Smith apud Barbeiro (2004, p. 239) “a fase mercantilista parecia ultrapassada e o novo capitalismo, com base na indústria, pressupunha liberdade de produção e principalmente de trocas”. E com a chegada destes “novos tempos”, marcam a fundição, a fabricação de armas e a serralheria.
Entre 1741 e 1760, Souto Maior (1975, p. 345) ainda menciona que foi o período de maior extração de ouro nas terras brasileiras, porém após determinado tempo as jazidas começaram a produzir menos, de modo que a segunda metade do século XVIII, a economia portuguesa encontrava-se em crise, não só em razão da escassez de minérios na colônia brasileira, mas principalmente pelos primeiros movimentos que desejavam a independência do Brasil, iniciados em Minas Gerais, com Tiradentes, bem como em 1798, em Salvador por meio da loja maçônica Cavaleiros da Luz.

Na Idade Contemporânea todo o esforço humano em acumular conhecimentos e riquezas concentrou-se em algumas regiões do mundo. As reações contra as desigualdades levaram a revoluções e tentativas de libertar os trabalhadores, que pouco tinham a perder. Os trabalhadores tomaram o centro das disputas políticas, econômicas e sociais e passaram a exigir sua parte na riqueza produzida. Homens e mulheres conscientizaram-se, promoveram revoltas, lutaram pela liberdade e foram alcançados pela globalização da informação. O advento da informática promete uma nova organização do trabalho no mundo e melhores condições de vida para todos. Será? (Barbeiro, 2004, p. 263)

No ano de 1774 (SENAI. 2002. p. 13), o mestre forjador inglês John Wilkinson constrói a primeira broca para polir o interior de canhões fundidos da marinha, criando assim a máquina de trabalhar metais mais antiga que se tem conhecimento.
Uma das revoluções mais significativas deste período foi a Revolução Francesa, que provocou diversas mudanças políticas e sociais, principalmente quanto à passagem da burguesia à dominância social junto aos reis, luta esta entre duas sociedades antagônicas: absolutista versus liberal. Entre 20 e 26 de agosto de 1789 (Siqueira, 2009) discutiu-se e aprovou-se a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, na qual estabeleceu a igualdade civil, pondo um fim aos privilégios reais e clérigos, até então seguidos. Era a consagração dos princípios dos filósofos iluministas burgueses. O “fim” do absolutismo! E por conseguinte, as notícias vindas da Europa sobre o fim do absolutismo se difundiram pelos centros urbanos brasileiros por meio dos maçons, começando a amadurecer os ideais de independência de Portugal, que veio a ocorrer somente em 1822.

A dialética da história parece resumir-se numa oposição – ou num diálogo – passado-presente e ou presente-passado. Em geral, essa oposição não é neutra, mas subentende, ou exprime um sistema de atribuição de valores, como por exemplo, nos pares antigo–moderno, progresso–reação. Da Antiguidade ao século XVIII desenvolveu-se ao redor do conceito de decadência uma visão pessimista da história, que voltou a apresentar-se em algumas ideologias da história do século XX. Já com o Iluminismo, afirmou-se uma visão otimista da história a partir da ideia de progresso, que agora, na segunda metade do século XX, experimenta uma crise. Tem, pois a história um sentido? (Le Goff, 2003, p. 8)

Em seguida a estes acontecimentos, no Brasil, em 1808 (Fernandes, 2009) Dom João promulga o Alvará de Liberdade Industrial, documento que tinha o objetivo de implantar as primeiras manufaturas têxteis, de alimentos e de objetos de metal no Brasil, em razão da abertura dos portos, porém mesmo com abundante matéria prima, não havia maquinários, nem mão de obra especializada, deste modo, a maioria dos intentos fabris fechou por causa da concorrência externa.
Na segunda metade do século XVIII (Barbeiro, 2004, p. 281) a Inglaterra já possuía aspectos de industrialização bem definidos, sendo a primeira nação a passar por este processo, financiado pelo acúmulo de riquezas durante a Idade Moderna, bem como pela ruína dos camponeses em razão das leis de cercamento e consequentemente do êxodo rural gerando mão de obra abundante e barata, a futura massa de operários.
É necessário, contudo lembrar que este processo vinha ocorrendo em diversos lugares da Europa, ao longo de 500 anos, entre os séculos XIII ao XIX, conforme bem expõe Singer (1988, pp. 20-21).
Havia a necessidade de máquinas que aumentassem a produção, em função da grande demanda da população, e que reduzisse o custo, aumentando, assim os lucros. “No início do processo industrial, foram utilizadas energias humana, animal, eólica e hidráulica. O desenvolvimento da máquina a vapor por James Watt (1765) possibilitou superar o obstáculo da força motriz” (Barbeiro, 2004, p. 282). Sobre isso Barbeiro (2004, p. 284) explica:

O desenvolvimento industrial e a mecanização dos campos arrastaram as populações rurais para os centros urbanos em busca de trabalho nas fábricas. As condições de trabalho eram desumanas. Não existia uma legislação trabalhista, e os sindicatos eram proibidos. Os operários cumpriam jornadas de até 16 horas por dia em ambientes úmidos e insalubres. Os salários mal garantiam a sobrevivência [...] As moradias operárias era desprovidas de rede de água e esgoto. A tuberculose e as epidemias dizimavam muitas pessoas. Para baratear ainda mais a mão de obra, os industriais empregavam mulheres e crianças. Muitas crianças morriam de fome, frio ou exaustão. Os acidentes com máquinas eram frequentes. Os primeiros sindicatos apenas surgiram no final do século XIX.

A partir do século XVIII, na Inglaterra (Wagner, 2003), o carvão vegetal começou a escassear e tornar-se caro, iniciando-se a utilização do coque, um combustível fóssil, como alternativa. Mesmo assim, o coque só foi empregado como fonte de energia na Revolução industrial. Neste período a procura foi se tornando cada vez maior devido a sua utilização, como por exemplo, em estradas de ferro. Os altos fornos foram evoluindo ao longo dos anos, até que Henry Cort, em 1784, aplicou novas técnicas que melhoraram a produção.  Em finais do século XVIII e início do século XIX começou-se a empregar o ferro como parte da estrutura em pontes e edifícios.
No segundo período da Revolução Industrial (Barbeiro, 2004, p. 284), a partir de 1860 o processo já atingia outros países europeus, além da Holanda, Bélgica, França, Alemanha, Itália, e claro, Inglaterra, bem como os Estados Unidos e Japão. A navegação a vapor trazia matérias prima de todo o mundo, fazendo com que os centros urbanos europeus crescessem exponencialmente, dispondo já de iluminação a gás, esgoto, jornais, telégrafo e outras invenções do período. E ainda, adverte Singer (1988, p. 29):

com o advento do capitalismo industrial generaliza-se portanto, para toda sociedade a relação capitalista de produção: os meios de produção são propriedade de não-produtores, os produtores são não-proprietários quer de seus meios de trabalho, quer de seu produto, a produção é dirigida com o objetivo de gerar o maior lucro possível em relação ao montante de capital investido.

Em 1856 (Senai, 2002, p. 13), dois norte-americanos juntaram oito ferramentas num pequeno torno e graças a isso, um único funcionário podia trabalhar em uma única máquina, mas que equivalia a oito tornos separados, sendo este o primeiro torno automático.
O ferro é historicamente muito importante, tanto que existe um período da história sob o título de Idade do ferro. Aos poucos veio sendo utilizado para a produção de aço, ferramentas, veículos de transporte, máquinas, e também como estrutura para pontes, edifícios, e outras aplicações.
Na primeira metade do século XIX (Barbeiro, 2004, p. 308) a sociedade brasileira continuava com as exportações dos produtos primários e mantinham as características da época colonial: senhorial, escravista e predominantemente rural. E foi apenas a partir de 1820 que a produção e exportação do café avolumaram-se, constituindo o principal produto econômico do Império já na segunda metade do século XIX, especialmente com a chegada dos primeiros emigrantes europeus vindos da Alemanha e Suíça. Porém, o trabalho escravo ainda continuava a ser maioria.
As transformações provocadas pela Revolução Industrial trouxeram mudanças sociais, primeiramente por toda a riqueza gerada de um lado, e do outro, a miséria completa dos operários. E segundo, pela não-interferência estatal nestas condições desproporcionais numa mesma sociedade. E foi, assim, que os pensadores socialistas trouxeram as primeiras contradições ao ideal capitalista. Beatriz V. Thiesen (2006, p. 1; LEQUIN, 1982; THOMPSON, 1987; HOBSBAWN, 1987) confirma tal pensamento, pois: “desde Marx e Engels e depois com Lequín (1982), Thompson (1987) e Hobsbawn (1987), inúmeras análises foram feitas sobre os processos e mecanismos de dominação e resistência na nova ordem, tomando a fábrica como locus privilegiado para esses estudos”.
Por meio destes novos pensamentos, conforme Dias (2007, p. 13), houve violentos conflitos entre o capital e o trabalho e a miséria dos trabalhadores, na qual a igreja católica não podia ficar alheia, preocupando-se sobremaneira, ou talvez por interesses particulares, para alcançar uma justiça social e assim, a solução dos conflitos, de maneira a motivar finalmente o movimento liberal em toda a Europa, pondo fim a qualquer resquício absolutista.


Considerações Finais

Com certeza, a Revolução Industrial não trouxe aos países nela inseridos somente tristezas, conflitos e miséria, embora muitos autores assim a identificam, entretanto a Revolução foi o objeto propulsor de uma nova sociedade ocidental, mais desenvolvida, consciente do poder de mudança e influenciando não só os meios de produção europeus e norte-americanos, mas também a produção brasileira, que veio sentir os seus reflexos tardiamente, porém não menos significativos na utilização do ferro nos processos de produção.
Alguns destes reflexos mais importantes referem-se às primeiras indústrias com seus parques fabris em estágio inicial, na qual deixaram tais exemplares de patrimônio industrial para a eternidade, ou melhor, caso seja preservado em sua imaterialidade, pois o material vem sendo abandonado, modificado sem critérios, o que de certa forma prejudica a manutenção destes prédios. Porém tais questões e problemas para serem melhor compreendidas, necessitariam de um aprofundamento que aqui não há mais espaço.

Referências

ALTAVILLA, Jayme de. Origem dos direitos dos povos. São Paulo: Melhoramentos, [2001].

BARBEIRO, Heródoto. História: volume único para o ensino médio – coleção de olho no mundo do trabalho. São Paulo: Scipione, 2004.

DIAS, Agemir de Carvalho. O movimento ecumênico no Brasil (1954-1994): a serviço da igreja e dos movimentos populares. 2007. 293 f. tese (Doutorado em História). UFPR, Curitiba, 2007.

FERNANDES, Aníbal de Almeida. A Corte Portuguesa no Brasil: 1808 a corte portuguesa no Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=444 . Acesso em: jul 2011.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio – Dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Ed. Positivo, 2008.

FOME, Peste e Guerra: triste trilogia entre os séculos XIV-XV. Infopédia. Porto/Portugal: Porto Editora, 2003-2011.

HOBSBAWN, Eric. Mundos do trabalho. São Paulo: Paz e Terra, 1987.

LE GOFF, Jacques. História e memória. (trad.) Bernardo Leitão. Campinas: Ed. da Unicamp, 2003.

LEQUIN, Yves. Os debates e as tensões da sociedade industrial. In: LEON, Pierre (org.) A dominação do capitalismo: 1840 –1914. História econômica e social do novo mundo. v. 4. Lisboa: Sade Costa, 1982.

REZENDE, Joffre M. de. Europa: a peste negra na idade média. 2008. Disponível em: http://www.passeiweb.com/saiba_mais/fatos_historicos/geral/peste_negra_na_im  Acesso em: 18 maio 2011.

RIBEIRO, G. M.; CHAGAS, R. L.; PINTO, S. L. O renascimento cultural a partir da imprensa: o livro e sua nova dimensão no contexto social do século XV. Akropólis. Umuarama, v. 15, n. 1 e 2, pp. 29-36, jan/jun 2007.

SENAI. A família ocupacional de ferramenteiros e afins.  Brasília: DN, 2002.

SINGER, Paul. A formação da classe operária. São Paulo: Atual, 1988.

SIQUEIRA, Dirceu Pereira; PICCIRILLO, Miguel Belinati. Direitos fundamentais: a evolução histórica dos direitos humanos, um longo caminho. In: Âmbito jurídico, Rio Grande, n. 61, 2009. Disponível em http://www.ambito-juridico.com.br . Acesso em: jun 2012.

SOUTO MAIOR, A. História geral. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975.

THIESEN, Beatriz Valladão. Arqueologia industrial ou arqueologia da industrialização? Mais que uma questão de abrangência. Revista eletrônica do Iphan. São Paulo, 2006.

THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. São Paulo: Paz e Terra, 1987.

Wagner, Donald B. Chinese blast furnaces from the 10th to the 14th century. Historical Metallurgy 37 (1): 25–37. West Asian Science, Technology, and Medicine n. 18, pp. 41–74, 2003.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2007.



[1] Conjunto de fornalha, fole, bigorna, que usam no seu ofício os que trabalham em metal. Oficina de ferreiro. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio – Dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Ed. Positivo, 2008. p. 413.
 

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