Esse é o primeiro artigo que publicarei no Blog, não por ser o mais importante nem por ser menos interessante. Contudo foi uma das pesquisas que realizei quando no Mestrado. Minha pesquisa no Mestrado discorreu sobre Ferramentarias e fiquei curiosa sobre os aspectos que o ferro apresentava no que se refere ao processo de industrialização no mundo Ocidental e especialmente no Brasil.
Christiane Kalb
RESUMO
O presente artigo analisa
sucintamente as principais condições históricas que auxiliaram para a formação
do patrimônio industrial no mundo Ocidental e no Brasil a partir do ferro,
desde a caracterização rural e muito incipiente, até as transformações com
ideais industriais em alguns determinados países. Além disso, busca-se descrever as primeiras
tentativas de desenvolvimento de atividades industriais a partir do ferro, após
o sistema de colonização portuguesa no Brasil até meados da Revolução
industrial. Fato que influenciou pensadores, as formas de trabalho, os próprios
trabalhadores, gerando uma nova fase na época, chamada de modernidade.
PALAVRAS-CHAVE: Trabalho, Revolução Industrial, indústrias, ferro,
Brasil.
As
primeiras formas de trabalho, mesmo que voluntário, ou melhor, para a
sobrevivência do ser humano ocorreu no Período Neolítico, também conhecido de
Idade da Pedra Polida, que por meio das atividades de domesticação de animais e
da descoberta da agricultura, “a oferta de alimentos cresceu, [...] grupos
humanos começaram a se sedentarizar, dando origem às comunidades e às primeiras
aldeias. As atividades se diversificaram, especialmente o artesanato, a
tecelagem, a cerâmica e a fabricação de farinhas, pão e bebidas” (Barbeiro,
2004, p.13).
Já
neste período, conforme Le Roi-Gourhan (1953, p. 200 apud SENAI, 2002, p. 11) entre os anos 6000 e 3000 a.C. aparecem
objetos de ferro pelo Egito à Mesopotâmia e Índia, quando o resto do mundo
lascava e polia pedra, o Mediterrâneo Oriental e a Ásia Ocidental já possuíam
utensilagem da fundição e da forja[1].
Com
o tempo, a divisão dos trabalhos da aldeia / comunidade foi se delineando, aos
homens normalmente cabia a caça de animais e a fabricação dos artefatos de defesa
e ataque, o trabalho na terra e a construção das habitações. Já, às mulheres
cabia o cuidado da lavoura e a preparação dos alimentos, quando já arado, bem
como o cuidado e educação das crianças.
Barbeiro
(2004, p. 27) complementa:
A
descoberta da agricultura provocou uma verdadeira revolução na sociedade
humana, que até então caçava, e ao mesmo tempo, era a caça de outros
predadores. O trabalho de muitos homens e mulheres foi responsável por uma vida
mais estável, com maior segurança, sem tantas mudanças (nomadismo) em busca de
comida. O início da agricultura e da criação de animais domésticos proporcionou
condições para que a sociedade se tornassem mais complexas, organizadas e
criativas. As civilizações descobriram suas potencialidades e teve início um
pluralismo que deixou marcas indeléveis em obras como as pirâmides do Egito, os
palácios da Mesopotâmia, os templos indianos e a muralha da China. Todo esse
trabalho foi fruto da cultura e da arte acumuladas por esses povos, que legaram
à nossa civilização uma herança imensa.
Como
se bem sabe (Altavilla, 2001, p.1 e Souto, 1975, p. 15), as primeiras
civilizações do mundo “surgiram” no Oriente há aproximadamente cinco mil anos,
criando as primeiras pequenas cidades e consequentemente desenvolvendo técnicas
de organização social, ou seja, algumas delas inventaram uma escrita, e por
conseguinte, leis e normas de conduta, além é claro do estabelecimento de
regras econômicas, hierarquias dentro daquelas cidades.
Normalmente
elas se desenvolviam ao redor de algum rio ou mar, pelo fácil acesso à fonte de
água e alimento. Exemplo disso era a civilização egípcia, na qual se ampliou às
margens do Rio Nilo, tendo como principais atividades: arar, semear, abrir
canais, bombear água, dentre outras, que se pode verificar pela simples análise
destas atividades na escrita egípcia, chamada de hieróglifos.
Vale
ainda ressaltar que nesta civilização também havia uma hierarquia, estando no
topo dela os faraós, donos das terras cultivadas pelos camponeses. Além dos
camponeses, havia também artesãos e comerciantes. Estes artesãos produziam
tijolos e vasilhas de argila úmida que vinha do Rio Nilo, além disso, investiam
na “fabricação de pão e de cerveja de cereais, produção de vinho de uva e de
tâmara, fiação e tecelagem do linho, indústrias de couro, utilização do papiro
e da madeira para produções diversas (material para escrever, cordas, redes,
embarcações, móveis, portas etc)” (Barbeiro, 2004, p. 37).
Na
Europa, por volta do século IX a.C. (Wagner, 2003) se desenvolveu a "cultura
de Hallstatt" substituindo a "cultura dos campos de urnas", que
se denominou "Primeira Idade do Ferro", pois coincide com a
introdução do uso deste metal. O ferro, pois, era usado em ferramentas, armas e
jóias, embora também nesta época ainda haviam objetos de bronze.
Aos
poucos as cidades, principalmente romanas e gregas, foram se urbanizando com a
ajuda da mão de obra escrava e o desenvolvimento comercial. “O Direito também
se modificou, com atenção maior à proteção dos órfãos e idosos, humanização dos
processos judiciais e a garantia da integridade física do cidadão” (Barbeiro,
2004, p. 37), deixando para trás as regras de processo criminal bastante
conhecidas e, às vezes, violentas, da Lei de Talião ‘olho por olho, dente por
dente’.
Durante
a Idade Média ocorreu uma nova organização estrutural, baseada em sociedades
fundadas “na posse das terras, onde os servos trabalhavam duro e ganhavam
apenas parte da produção que arrancavam dos campos. [...] No Oriente houve um
grande progresso técnico e cultural que se espalhou também pelo Ocidente”
(Barbeiro, 2004, p. 103). O comércio neste período consistia na troca de
produtos (conhecido como escambo) sem grandes transformações, assim como
ocorria a troca de escravos por armas, ou outros produtos. Além disso, as
cidades começaram a se unir estrategicamente formando os primeiros Estados,
tendo um governo centralizado, o que antes apenas ocorria quando em período de
guerras.
Nos feudos havia ainda a divisão de ordens,
clero, nobreza e o povo, este consistia nos trabalhadores camponeses que
sustentavam toda a sociedade com o seu trabalho. Os camponeses produziam
“trigo, centeio, [...] cuidavam das oliveiras e vinhas. Usavam o sistema de
rotatividade no plantio a cada dois anos, reservando um campo para o cultivo de
cereais enquanto o outro campo descansava e era usado para a pastagem dos
animais, cujo esterco fertilizava o solo” (Barbeiro, 2004, p. 121).
Neste
período e até finais do século XIX, toda a europa empregava como método
siderúrgico a "farga catalana" (Wagner, 2003), na qual se obtinha o
ferro e o aço de baixo carbono empregando-se carvão vegetal e o minério de
ferro. Este procedimento foi substituído pelo emprego de altos fornos.
A
partir do século XII, Maior (1975, p. 34) acrescenta que os primeiros burgos
são criados, junto às corporações de ofícios e às ligas de mercadores, nas
quais buscavam proteger os interesses de um determinado ofício, garantindo o
monopólio da produção e comercialização do produto artesanal para seus membros. Durante o período medieval, aperfeiçoa-se a
metalurgia e as utilidades com o ferro, assim como os trabalhos nas minas. “Os
fornos são ainda fracos e o trabalho faz-se grande parte à mão, mas as pequenas
forjas multiplicam-se por toda parte onde encontra a madeira, o minério e as
quedas de água” (Souto, 1975, p. 34). Após as Cruzadas, o impulso econômico nas
cidades do Ocidente mobilizou a expansão de bancos (uso de moedas) e dos
instrumentos comerciais.
Com
este crescimento econômico dos burgos, os donos de comércio tinham um novo
sentimento de libertação das regras da monarquia e do sistema feudal, por meio
do título de burguesia, tomando corpo a ponto de ser considerada uma camada
superior no sistema urbano. Neste mesmo ínterim iniciou-se o êxodo rural, mesmo
que incipiente, tornando as cidades o principal centro de vivência, tornando
este renascimento urbano e comercial uma nova Era na Europa Ocidental, chamada
de Idade Moderna, que no seu início foi marcado pela “guerra, peste e fome”
(Infopédia, 2003-2011, web).
As
guerras prejudicaram sobremaneira o comércio terrestre, fazendo com que os
mercadores dessem preferência à via marítima, vez que a Peste Negra devastou o
território europeu matando um terço de sua população (Rezende, 2008, web). A pobreza atingiu todas as camadas
sociais, trazendo revolta e descontentamento de toda a população, “as péssimas
condições de trabalho e o monopólio dos mestres de oficinas provocaram a
sublevação dos artesões. [...] os artífices conseguiram maior participação nas
corporações e os camponeses, o afrouxamento das relações servis” (Barbeiro,
2004, p. 146). Singer (1988, p.18) complementa descrevendo que:
Na
Inglaterra, os senhores reagiram à emancipação de seus servos, realizando as
chamadas “enclosures” – cercamento – que consistiam na expulsão em massa dos
arrendatários e a transformação das terras de cultivo em pastagens para
ovelhas. Os camponeses expulsos entre 1455 e 1637 constituíram uma parte
importante do proletariado manufatureiro.
Vale
lembrar ainda que o trabalho escravo (Barbeiro, 2004, p. 155) existiu durante
muitos períodos da história da humanidade. Foi por meio do serviço dessas
pessoas que se ergueram monumentos ou se alimentaram adultos e crianças que
ocupavam o topo do poder social. Na Antiguidade a escravidão estava relacionada
a prisioneiros de guerra ou a povos conquistados. Com o desenvolvimento do
capitalismo (Idade Moderna), foi entre negros e índios que os europeus
conseguiram maiores contingentes de escravos. Nas regiões da África houve
despovoamentos pelo tráfico negreiro e civilizações inteiras da América foram
levadas para as minas de prata do continente. A exploração do trabalho
compulsório foi ampliada graças às descobertas tecnológicas, a princípio
monopolizados pelos europeus em busca de riquezas utilizadas para medir o poder
dos Estados modernos e, mais tarde, na industrialização de países como a
Inglaterra.
No
período conhecido por Renascimento, ou Renascença, Barbeiro prediz que, “a
burguesia lutava pelos seus interesses econômicos [...] a sociedade renascentista
comportava novos segmentos sociais, como profissionais liberais e assalariados.
Os servos libertados deslocavam-se para os centros urbanos e tentavam se
integrar na nova sociedade” (Barbeiro, 2004, p. 166).
Possuidores
de habilidades técnicas necessárias estavam à disposição dos ex-mestres,
transformados em empregados, para se inserir em nova divisão técnica de
trabalho, que alocava a cada grupo de trabalhadores especializados uma única
operação produtiva da série que constitui o ciclo completo de produção.
Transformavam-se em produtos parcelados, despojados de sua antiga qualificação
profissional, que os habilitava a confeccionar o objeto inteiro, para se
tornarem parte integrante de um trabalhador coletivo, subordinado ao
proprietário dos meios de produção. Tendo-lhes sido roubada a oportunidade de
exercer autonomamente seu ofício, tornaram-se dependentes de quem se dispunha a
lhes comprar a força de trabalho (Singer, 1988, p. 20).
A
sociedade modifica-se culturalmente por meio das transformações econômicas,
políticas e tecnologias ambientais, com a abertura das universidades aos
leigos, assim, a burguesia passa a ter acesso a conhecimentos antes exclusivos
ao clero, bem como com o aperfeiçoamento da imprensa por Gutemberg (Ribeiro,
Chagas e pinto, 2007, p. 29), possibilitando a divulgação de livros que antes
eram manuscritos em número extremamente reduzidos. Deste modo, o Renascimento ficou conhecido
por desmitificar muitos dogmas e mitos da Idade Média, em razão, principalmente
da liberdade de pesquisas em todas as áreas.
Outro
fato importante neste período da história ocidental foi a Reforma protestante,
idealizada por Martin Lutero, que influenciou o pensamento europeu, causando
entusiasmo popular suficiente para encarar os dogmas católicos até então
seguidos cegamente. Max Weber, em sua obra que trata do capitalismo e
pensamento protestante, lembra que com o processo de industrialização que aos
poucos também ocorreu nos países de tradição protestante, fez com que o
trabalho fosse “um fim absoluto em si mesmo, como uma vocação [contudo] não
pode ser estimulado por baixos ou altos salários, mas só pode ser produzido por
um longo e árduo processo de educação” (Weber, 2007, p. 57).
Na
continuidade do movimento marítimo, em meados do século XVI, intensificavam-se
a exploração econômica nas Américas e as transações comerciais com a Ásia,
favorecendo a colonização (concentração de riquezas nas mãos dos colonizados em
detrimento das colônias) pelos países europeus banhados pelo oceano Atlântico.
“Esta revolução comercial assumiu um caráter global e teve uma importância
fundamental para a futura Revolução Industrial” (Barbeiro, 2004, p. 181). Além
disso:
As
conquistas espanholas na América tornaram a Coroa espanhola a proprietária da
maior parte das terras americanas, com um império que se estendia desde a
Califórnia, a desembocadura do Rio Mississipi e a Flórida, ao norte, até a
Terra do Fogo, na América do Sul, com exceção dos territórios portugueses que
vieram a formar o Brasil. Os espanhóis montaram um sistema colonial que
sobreviveu, no seu conjunto, até o início do século XIX (Barbeiro, 2004, p.
185).
Obviamente,
os portugueses não deixaram por menos, colonizando parte do Brasil, utilizando
a mão de obra indígena (Souto, 1975, p. 320) para extrair pau-brasil em troca
de pequenos objetos e utensílios. Além da exploração da madeira do pau-brasil,
os portugueses passaram também a cultivar cana de açúcar logo no início do
processo de colonização. A madeira foi explorada muito intensamente até meados
de 1800, quando a indústria têxtil a substituiu.
A
sociedade brasileira colonial era a expressão do capitalismo comercial europeu,
sob o alvo principal dos investimentos destinados ao cultivo de produtos
tropicais voltados à exportação, através dos senhores de engenhos utilizando o
trabalho escravo para tanto, vindos dos países africanos. Apenas no início do
século XVIII que se formaram os novos grupos sociais.
Foi
a partir dos jesuítas, nos primeiros séculos da conquista e colonização
brasileira, que o desenvolvimento educacional e artístico “cria” uma identidade
nacional, até então, inexistente. Houve diversos períodos de exploração de
produtos brasileiros (Barbeiro, 2004, p. 233), luta pelo ouro (meados de 1690),
descoberta de diamantes (1714), dentre outros, contudo vale lembrar que no
período açucareiro as vilas e cidades eram pobres, já que as mercadorias
circulavam apenas no porto, não havendo vida urbana significativa, diferente do
período de exploração de minérios, quando a população começou a se instalar nos
núcleos urbanos, desenvolvendo o comércio local.
Neste
ínterim, na Europa, os pensadores iniciaram um novo movimento intelectual
conhecido por Iluminismo, que negava os valores do absolutismo e pregava os
ideais racionalistas. Além disso, de acordo com Adam Smith apud Barbeiro (2004, p. 239) “a fase mercantilista parecia
ultrapassada e o novo capitalismo, com base na indústria, pressupunha liberdade
de produção e principalmente de trocas”. E com a chegada destes “novos tempos”,
marcam a fundição, a fabricação de armas e a serralheria.
Entre
1741 e 1760, Souto Maior (1975, p. 345) ainda menciona que foi o período de
maior extração de ouro nas terras brasileiras, porém após determinado tempo as
jazidas começaram a produzir menos, de modo que a segunda metade do século
XVIII, a economia portuguesa encontrava-se em crise, não só em razão da
escassez de minérios na colônia brasileira, mas principalmente pelos primeiros
movimentos que desejavam a independência do Brasil, iniciados em Minas Gerais,
com Tiradentes, bem como em 1798, em Salvador por meio da loja maçônica
Cavaleiros da Luz.
Na
Idade Contemporânea todo o esforço humano em acumular conhecimentos e riquezas
concentrou-se em algumas regiões do mundo. As reações contra as desigualdades
levaram a revoluções e tentativas de libertar os trabalhadores, que pouco
tinham a perder. Os trabalhadores tomaram o centro das disputas políticas,
econômicas e sociais e passaram a exigir sua parte na riqueza produzida. Homens
e mulheres conscientizaram-se, promoveram revoltas, lutaram pela liberdade e
foram alcançados pela globalização da informação. O advento da informática
promete uma nova organização do trabalho no mundo e melhores condições de vida
para todos. Será? (Barbeiro, 2004, p. 263)
No
ano de 1774 (SENAI. 2002. p. 13), o mestre forjador inglês John Wilkinson
constrói a primeira broca para polir o interior de canhões fundidos da marinha,
criando assim a máquina de trabalhar metais mais antiga que se tem
conhecimento.
Uma
das revoluções mais significativas deste período foi a Revolução Francesa, que
provocou diversas mudanças políticas e sociais, principalmente quanto à
passagem da burguesia à dominância social junto aos reis, luta esta entre duas
sociedades antagônicas: absolutista versus
liberal. Entre 20 e 26 de agosto de 1789 (Siqueira, 2009) discutiu-se e
aprovou-se a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, na qual estabeleceu
a igualdade civil, pondo um fim aos privilégios reais e clérigos, até então
seguidos. Era a consagração dos princípios dos filósofos iluministas burgueses.
O “fim” do absolutismo! E por conseguinte, as notícias vindas da Europa sobre o
fim do absolutismo se difundiram pelos centros urbanos brasileiros por meio dos
maçons, começando a amadurecer os ideais de independência de Portugal, que veio
a ocorrer somente em 1822.
A dialética da história
parece resumir-se numa oposição – ou num diálogo – passado-presente e ou
presente-passado. Em geral, essa oposição não é neutra, mas subentende, ou
exprime um sistema de atribuição de valores, como por exemplo, nos pares
antigo–moderno, progresso–reação. Da Antiguidade ao século XVIII desenvolveu-se
ao redor do conceito de decadência uma visão pessimista da história, que voltou
a apresentar-se em algumas ideologias da história do século XX. Já com o
Iluminismo, afirmou-se uma visão otimista da história a partir da ideia de
progresso, que agora, na segunda metade do século XX, experimenta uma crise.
Tem, pois a história um sentido? (Le Goff, 2003, p. 8)
Em
seguida a estes acontecimentos, no Brasil, em 1808 (Fernandes, 2009) Dom João
promulga o Alvará de Liberdade Industrial, documento que tinha o objetivo de
implantar as primeiras manufaturas têxteis, de alimentos e de objetos de metal
no Brasil, em razão da abertura dos portos, porém mesmo com abundante matéria prima,
não havia maquinários, nem mão de obra especializada, deste modo, a maioria dos
intentos fabris fechou por causa da concorrência externa.
Na
segunda metade do século XVIII (Barbeiro, 2004, p. 281) a Inglaterra já possuía
aspectos de industrialização bem definidos, sendo a primeira nação a passar por
este processo, financiado pelo acúmulo de riquezas durante a Idade Moderna, bem
como pela ruína dos camponeses em razão das leis de cercamento e
consequentemente do êxodo rural gerando mão de obra abundante e barata, a
futura massa de operários.
É
necessário, contudo lembrar que este processo vinha ocorrendo em diversos
lugares da Europa, ao longo de 500 anos, entre os séculos XIII ao XIX, conforme
bem expõe Singer (1988, pp. 20-21).
Havia
a necessidade de máquinas que aumentassem a produção, em função da grande
demanda da população, e que reduzisse o custo, aumentando, assim os lucros. “No
início do processo industrial, foram utilizadas energias humana, animal, eólica
e hidráulica. O desenvolvimento da máquina a vapor por James Watt (1765)
possibilitou superar o obstáculo da força motriz” (Barbeiro, 2004, p. 282).
Sobre isso Barbeiro (2004, p. 284) explica:
O
desenvolvimento industrial e a mecanização dos campos arrastaram as populações
rurais para os centros urbanos em busca de trabalho nas fábricas. As condições
de trabalho eram desumanas. Não existia uma legislação trabalhista, e os
sindicatos eram proibidos. Os operários cumpriam jornadas de até 16 horas por
dia em ambientes úmidos e insalubres. Os salários mal garantiam a sobrevivência
[...] As moradias operárias era desprovidas de rede de água e esgoto. A
tuberculose e as epidemias dizimavam muitas pessoas. Para baratear ainda mais a
mão de obra, os industriais empregavam mulheres e crianças. Muitas crianças
morriam de fome, frio ou exaustão. Os acidentes com máquinas eram frequentes. Os
primeiros sindicatos apenas surgiram no final do século XIX.
A
partir do século XVIII, na Inglaterra (Wagner, 2003), o carvão vegetal começou
a escassear e tornar-se caro, iniciando-se a utilização do coque, um
combustível fóssil, como alternativa. Mesmo assim, o coque só foi empregado
como fonte de energia na Revolução industrial. Neste período a procura foi se
tornando cada vez maior devido a sua utilização, como por exemplo, em estradas
de ferro. Os altos fornos foram evoluindo ao longo dos anos, até que Henry
Cort, em 1784, aplicou novas técnicas que melhoraram a produção. Em finais do século XVIII e início do século
XIX começou-se a empregar o ferro como parte da estrutura em pontes e edifícios.
No
segundo período da Revolução Industrial (Barbeiro, 2004, p. 284), a partir de
1860 o processo já atingia outros países europeus, além da Holanda, Bélgica,
França, Alemanha, Itália, e claro, Inglaterra, bem como os Estados Unidos e
Japão. A navegação a vapor trazia matérias prima de todo o mundo, fazendo com
que os centros urbanos europeus crescessem exponencialmente, dispondo já de
iluminação a gás, esgoto, jornais, telégrafo e outras invenções do período. E
ainda, adverte Singer (1988, p. 29):
com
o advento do capitalismo industrial generaliza-se portanto, para toda sociedade
a relação capitalista de produção: os meios de produção são propriedade de
não-produtores, os produtores são não-proprietários quer de seus meios de
trabalho, quer de seu produto, a produção é dirigida com o objetivo de gerar o
maior lucro possível em relação ao montante de capital investido.
Em
1856 (Senai, 2002, p. 13), dois norte-americanos juntaram oito ferramentas num
pequeno torno e graças a isso, um único funcionário podia trabalhar em uma
única máquina, mas que equivalia a oito tornos separados, sendo este o primeiro
torno automático.
O
ferro é historicamente muito importante, tanto que existe um período da
história sob o título de Idade do ferro. Aos poucos veio sendo utilizado para a
produção de aço, ferramentas, veículos de transporte, máquinas, e também como estrutura
para pontes, edifícios, e outras aplicações.
Na
primeira metade do século XIX (Barbeiro, 2004, p. 308) a sociedade brasileira
continuava com as exportações dos produtos primários e mantinham as
características da época colonial: senhorial, escravista e predominantemente
rural. E foi apenas a partir de 1820 que a produção e exportação do café
avolumaram-se, constituindo o principal produto econômico do Império já na
segunda metade do século XIX, especialmente com a chegada dos primeiros
emigrantes europeus vindos da Alemanha e Suíça. Porém, o trabalho escravo ainda
continuava a ser maioria.
As
transformações provocadas pela Revolução Industrial trouxeram mudanças sociais,
primeiramente por toda a riqueza gerada de um lado, e do outro, a miséria
completa dos operários. E segundo, pela não-interferência estatal nestas
condições desproporcionais numa mesma sociedade. E foi, assim, que os
pensadores socialistas trouxeram as primeiras contradições ao ideal
capitalista. Beatriz V. Thiesen (2006, p. 1; LEQUIN, 1982; THOMPSON, 1987;
HOBSBAWN, 1987) confirma tal pensamento, pois: “desde Marx e Engels e depois
com Lequín (1982), Thompson (1987) e Hobsbawn (1987), inúmeras análises foram
feitas sobre os processos e mecanismos de dominação e resistência na nova
ordem, tomando a fábrica como locus
privilegiado para esses estudos”.
Por
meio destes novos pensamentos, conforme Dias (2007, p. 13), houve violentos
conflitos entre o capital e o trabalho e a miséria dos trabalhadores, na qual a
igreja católica não podia ficar alheia, preocupando-se sobremaneira, ou talvez
por interesses particulares, para alcançar uma justiça social e assim, a
solução dos conflitos, de maneira a motivar finalmente o movimento liberal em
toda a Europa, pondo fim a qualquer resquício absolutista.
Considerações
Finais
Com certeza, a Revolução Industrial não trouxe aos
países nela inseridos somente tristezas, conflitos e miséria, embora muitos
autores assim a identificam, entretanto a Revolução foi o objeto propulsor de
uma nova sociedade ocidental, mais desenvolvida, consciente do poder de mudança
e influenciando não só os meios de produção europeus e norte-americanos, mas
também a produção brasileira, que veio sentir os seus reflexos tardiamente,
porém não menos significativos na utilização do ferro nos processos de produção.
Alguns destes reflexos mais importantes referem-se
às primeiras indústrias com seus parques fabris em estágio inicial, na qual
deixaram tais exemplares de patrimônio industrial para a eternidade, ou melhor,
caso seja preservado em sua imaterialidade, pois o material vem sendo
abandonado, modificado sem critérios, o que de certa forma prejudica a
manutenção destes prédios. Porém tais questões e problemas para serem melhor
compreendidas, necessitariam de um aprofundamento que aqui não há mais espaço.
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