O Porquê disso tudo...

Um dia ouvi de uma professora que existe um campo verde que representa o conhecimento. Nesse campo existem diversas árvores, cada uma poderíamos chamar de grandes áreas do conhecimento. "Dentro" dessas árvores há galhos e ramos que nos levam a pequenas folhas. Eu me aprofundei em algumas dessas folhas de algumas árvores do conhecimento, por isso quero dividir esses estudos com quem tiver interesse em conhecer alguma "nova" ou "velha" folha. Sem intenção de gerar a priori novos frutos, porém apenas semear, agora sim, ideias e esclarecimentos.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O PATRIMÔNIO INDUSTRIAL COMO PROCESSO CULTURAL



Autoria: Christiane Kalb e Prof. Dra. Mariluci Carelli
Apresentação de Trabalho Oral no

I ENCONTRO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM PATRIMÔNIO CULTURAL – ENIPAC - Univille
jun / 2012

http://geipac.blogspot.com.br/2012/05/convite-i-enipac.html
http://www.youblisher.com/p/702313-Anais-do-ENIPAC/ (Anais do evento)

Trabalho resultante da pesquisa de Mestrado sob orientação da Prof. Mariluci N. Carelli.



RESUMO

A cultura possui diversas vertentes passíveis de estudos científicos, sendo a indústria, uma delas. Contudo, este artigo trata do estudo da indústria não só pelo viés econômico, empresarial, o que normalmente é relacionado, mas pelo fim cultural que a ele se dispõe. A indústria seria uma das formas de se qualificar o patrimônio industrial como um todo, a partir de conceituações que se realizarão neste artigo. Num segundo momento, apresenta-se um breve estudo sobre o que ocorreu e o que vem ocorrendo no que concerne à preservação do patrimônio industrial, bem como, cultural no Brasil, nomeadamente, assim como na seara internacional. Assim, a noção de patrimônio material que remete a bens culturais sólidos como igrejas e monumentos, perde importância nas políticas culturais para a de patrimônio imaterial, feito da linguagem, da dança, comportamento, modos de fazer, fabricar, todas essas entidades voláteis e cambiantes. De modo que algumas mudanças que ocorreram dentro de alguns processos de produção, onde o produto era primeiramente produzido dentro da mesma fábrica, saindo direto para o consumo; é hoje, em sua maioria, produzido por processos terceirizados, subdivididos em outras fábricas menores, tema que também pode ser considerado parte do patrimônio cultural, que merece o seu estudo mais aprofundado.


Palavras chave: Patrimônio, cultura, patrimônio industrial



1 CONCEITUAÇÃO DE PATRIMÔNIO CULTURAL INDUSTRIAL



O patrimônio industrial é considerado um dos leques do gigantesco mundo do patrimônio cultural. Interessante analisar a epistemologia de algumas palavras, consideradas chaves, para o estudo em comento.
“Patrimônio é uma palavra de origem latina, patrimonium, que se referia, entre os antigos romanos, tudo o que pertencia ao pai, pater ou pater famílias, pai de família” (FUNARI, 2009, p.10). As línguas românticas[1] usam tal termo para fazer referência aos monumentos herdados de gerações passadas, vale lembrar que em todas estas expressões, há sempre uma referência à “lembrança, moneo (em latim, “levar a pensar”, presente tanto em patrimonium como em monumentum), [...] os alemães usam Denkmalpflege, ou seja, o cuidado dos monumentos, daquilo que nos faz pensar, enquanto o inglês adotou heritage [...]” (FUNARI, 2009, p. 31), que possui o mesmo significado das línguas românticas.
Vale conceituar, conforme entende Claudia Carvalho, et al (2008, p. 36), que:
a noção de patrimônio envolve, em primeiro lugar, um conjunto de posses que cumpre identificar como transmissíveis, em seguida, um grupo humano, uma sociedade, capaz ou suscetível de reconhecê-las como suas, de demonstrar a sua coerência e de organizar a sua recepção, e por fim, um conjunto de valores, políticos no sentido mais geral do termo, que permite articular os legados do passado à espera ou à configuração de um futuro, como o objetivo de promover algumas mutações e, ao mesmo tempo, afirmar uma continuidade.

Cultura, por sua vez, de acordo com Geertz (2008, p. 15) é um termo “essencialmente semiótico”. O autor acredita, assim como Max Weber, que o “homem é um animal amarrado à teia de significado que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo estas teias e sua análise, portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mais como ciência interpretativa, a procura do significado” (Ibid).
Este novo significado, do termo ou sentido de cultura na sociedade contemporânea obteve sua “reascensão [...] como instrumento forte de luta ideológica ou, em todo caso social, correspondeu aquilo cuja existência alguns insistem em negar: o choque de culturas ou civilizações, embora envolto quando não provocado pelos conflitos de interesse econômico.”( COELHO, 2008. p.9)
Hoje, de acordo com Teixeira Coelho (2008, p.52), a cultura é livre, móvel, flutuante, não mais dispondo de nenhuma base sólida para se tornar importante. Deste modo, o patrimônio cultural de uma sociedade tem sua importância arraigada no sentido de questionar de onde viemos e para onde vamos, questões estas precípuas para a sobrevivência da humanidade. “Pensar a identidade cultural como o passado de uma etnia é uma maneira estética de demonstrar o reconhecimento à ideia comunitária quando esta é desprovida de seu sentido vivo” (JEUDY, 1990. p. 91).
O patrimônio cultural de um país, Estado ou cidade “está constituido por todos aquellos [...] manifestaciones tangibles o intangibles producidas por las sociedades, resultado de un proceso histórico en donde la reproducción de las ideas y del material se constituyen en factores que identifican y diferencian a esse país o region” (FERNANDES, 2004. p. 102). O art. 216 da Constituição Federal de 1988 definiu o que constitui o patrimônio cultural brasileiro, na qual seriam: “os bens de natureza material e imaterial que tomados individualmente ou em conjunto são portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (PINTO, 2009. p. 68). Os bens culturalmente considerados materiais são os que possuem “valor e significado incorporados ao valor simbólico do bem tal como uma imagem, uma igreja, uma cidade, uma serra, um jardim, um sítio arqueológico, etc” (MACHADO, 2009. p. 50). Já os
bens culturais imateriais são aqueles cujo valor não está especificamente na sua materialidade, na sua matéria prima ou no seu suporte, mas na evocação ou representação que sugerem, caracterizando-se como ritos processuais. São exemplos [...] os saberes enraizados no cotidiano das comunidades, as celebrações como rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social, as formas de expressão tais como as manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas, os lugares tais como os mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas (Ibid).

A questão de um bem cultural ser ou não imaterial, ou seja, ser caracterizado por uma matéria é considerada controversa, trazendo então uma estabilidade maior no que concerne à expressão dita ‘intangível’, i.e. que “remete ao transitório, fugaz, que não se materializa em produtos duráveis. Trata-se, portanto, de uma prática ritual, cujo valor simbólico só tem sentido num determinado contexto. [...] esses valores precisam ser aceitos e constantemente reiterados pela sociedade” (Ibid, p. 68).
Jeudy (1990, p. 48), por sua vez analisa os problemas relativos à gestão e preservação de patrimônios culturais, em seu livro Memórias do Social, que tomou conta do mundo ocidental, a grande onda retro, que vem valorizando a preservação cultural dos objetos e costumes no ocidente, não sendo mais suficiente somente o monumento, agora é imperioso também preservar os traços de um passado recente, tudo que se relacione com a memória coletiva, ou à identidade social. Primeiramente, “havia castelos, igrejas, obras de arte..., e, doravante, há também prédios industriais, fundições, curtumes, cafés e lavatórios e uma quantidade infinita de objetos artesanais, industriais e agrícolas” (JEUDY, 1990, p. 7). Os modos de vida, as formas de pensar, de se comunicar vêm complementar as novas representações sociais do patrimônio cultural. O patrimônio imaterial no Brasil, por si só, já pode ser considerado como possuidor de um ato de reconhecimento, por força da Constituição de 1988.
Teixeira Coelho, com a citação do art. 13 da Declaração Universal da UNESCO, de 2002 sobre diversidade cultural diz que: “A identidade de todo indivíduo é dinâmica” (COELHO, 2008, p.76); ou seja, o único modo de preservar algo dinâmico – pois não se sabe para onde vai este patrimônio imaterial, em razão de sua intangibilidade – é apoiar e preservar ao acaso todas as formas de diversidade, assim, o rótulo de patrimônio histórico e cultural é aquela que expede o ‘certificado de origem e de validade’ do produto cultural. O monumento histórico, por sua vez, vale ressaltar que é uma obra que possui valor histórico, tendo sido feita com intenções memoriais ou não, assim, os monumentos intencionais são os que possuem vontade do seu autor de se perpetuarem e os involuntários são os que não foram construídos para tal fim, mais que representam algo em um dado momento, assim conclui Pauleto (2006, p. 209). Deste modo, a relevância dos estudos do patrimônio cultural material e/ou imaterial (uma vez que ambos não se dissociam, assim inseparáveis) atinge não só os bens culturais de ênfase arquitetônica ou escultural, abrangidos pela significância da beleza, entretanto se acresce a estes, os bens do patrimônio industrial.
O entendimento de que determinadas áreas industriais possuem valor histórico, artístico/estético e principalmente cultural para determinada sociedade e por óbvio, para o mundo hoje globalizado, pressupõe análises mais apuradas da integralidade destas áreas, enquanto símbolo de uma localidade, bem como a sua interação social, seu entorno, suas memórias, que neste instante torna-se cogente de maiores explicações.

2 O PASSADO E O PRESENTE DOS PROCESSOS DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO INDUSTRIAL


O melhor conceito que se entende por preservação[2] são “todos os esforços e procedimentos necessários para garantir a um monumento histórico, o tanto quanto possível, a sua perenidade e transmissão para o futuro” (KUHL apud LIMA, 2006, p. 206), ou seja, as intervenções – manutenção, conservação e restauração, formas de tutela – tombamento e políticas de proteção - perpetuação da memória, educação patrimonial (KUHL, 2008, p. 73) que asseguram o direito à memória e à história, de forma a suprimir a necessidade humana e social de preservar os testemunhos do fazer humano, atuais e pretéritos, existam ou não mais no presente e no futuro, conforme citação de Kühl (2008, p. 282).
A definição de preservação hoje utilizada não mais se refere apenas às obras de arte ou monumentos vultuosos, como ocorria antigamente, tanto é verdade que a importante Carta de Veneza, de 1964, define o significado dos monumentos que merecem ser preservados, de acordo com entendimento cultural, ou seja:
art.1º - A noção de monumento histórico compreende a criação arquitetônica isolada, bem como o sítio urbano ou rural que dá testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significante ou de um acontecimento histórico, [além das] obras modestas que tenham adquirido, com o tempo, uma significação cultural (FUNARI, 2005, p. 29).

Portanto, não se considera qualquer bem como um patrimônio histórico e cultural, somente o que possua uma importância relevante na história da humanidade ou de determinada parcela da sociedade, que configure elementos de atuação na memória e identidade deste povo, contudo ao mesmo tempo não podemos generalizar e tudo querer manter intacto. Sabemos que a ação do tempo existe e é categórica quando atingem os objetos de patrimônio material.
Choay (2001, p. 11) mostra que, durante o século XIX e mesmo posteriormente, o monumento histórico era considerado “objeto de saber” ou “obra de arte dirigida”, ou seja, era entendido como transmissor da possibilidade de conhecimento ou concebido para tocar a sensibilidade humana. Percebe-se, desta forma, que com o passar das décadas, os monumentos históricos tiveram a sua acuidade voltada ao saber histórico, voltando-se à memória dos acontecimentos que o sucederam. Os motivos que levam a crer tal hipótese são as novas tecnologias na fotografia e a internet.
Quanto às formas de restauração destes monumentos ditos históricos e consequentemente tombados ou registrados pelos órgãos competentes, cabe salientar da necessidade de se somar à restauração do bem em si, aos seus acessórios, como ocorre, por exemplo, em fábricas e seus equipamentos de trabalho, como ferramentas, fornos, materiais diversos que tenham relação direta ou indireta à memória do trabalho.  Sobre isso, Kühl (2008, p. 269) complementa que:
As intervenções em bens culturais tem de ser feitas com discernimento, pois a responsabilidade cultural, e, portanto, social, envolvida em projetos de transformação de áreas urbanas, conjuntos arquitetônicos e edifícios de interesse histórico é enorme. São sempre testemunhos únicos, não-repetíveis, que tem de ser analisados com a máxima diligência, fundamentando as propostas em rigorosos critérios.

A Carta de Veneza de 1964 (FUNARI, 2005) coaduna com tal entendimento quando prediz as seguintes citações: “O propósito do restauro é de conservar e de revelar os valores formais e históricos dos documentos, isso se fundamenta sobre o respeito da substância antiga e da documentação autêntica [...]”. E ainda: “nenhuma restauração poderá somente revelar o estado atual das matérias originais, a intervenção se faz então do ponto de vista crítico, a busca do equilíbrio atualmente realizável que seja o mais fiel à unidade original”, porém, de tal forma que não se restabelece a unidade perdida, mais que considere os traços originais e a passagem real do tempo (envelhecimento natural e/ou sujeira) na obra ou monumento, surgindo daí uma nova identidade, conforme o pensamento de Kühl (2008, p. 12) que vai ao encontro de nossa crítica aos “restauradores de plantão”.
Até porque, conforme esclarece, Pauleto citando Kühl (2006, p. 222), o processo de restauração é um ato histórico-crítico, tratando não apenas de “pele de um órgão de primordial importância, mais também de local-testemunho da passagem da história, que não pode ser dissociado do restauro arquitetônico como um todo [...] passível de ser mudado ao bel-prazer”. Desta forma, Pauleto (2006, p. 408) continua: uma vez que tais edifícios e obras foram construídos com métodos e matérias diferentes das atuais, deve-se considerar que tais bens são vinculados ao tempo histórico e o seu transcurso ao longo dele, contendo parte da história e da memória deste determinado período, assim os projetos de restauro devem ser fundamentados nestes profundos estudos de suas características não só arquitetônicas, mas realmente históricas-memoriais, para que não se cometa um falso histórico ou um falso artístico.
Este processo de alargamento de entendimento do que se faz cogente proteger e consequentemente, quando necessário restaurar, Choay (2001, p.11) considera que o patrimônio industrial passou a considerar não apenas as grandes obras isoladas de qualidade excepcional, mas centros urbanos ou rurais inteiros dando-se maior importância ao tecido urbano e à “arquitetura vernacular”, passando a abranger também construções recentes, como aquelas incluídas ao patrimônio industrial. Assim:
A cultura do trabalho, os padrões éticos de sobrevivência, a consciência dos quadros de produção e da sua inserção no mercado, a apreensão dos modelos tecnológicos dominantes, as formas de mobilização das pessoas e dos espaços, eis alguns pólos para esse diálogo, que se podem traduzir tanto em intervenções letivas breves e monodisciplinares, como em projetos de escola mais abrangentes de natureza inter e transdisciplinar (ALVES, 2004, p.252).

A memória do patrimônio industrial, por sua vez também é considerada um bem intangível pelo Decreto antes mencionado, na qual abarca tudo que se refere ao saber fabricar, desde a constituição da fábrica até o seu produto final, ou seja, considera o engenho humano uma habilidade e uma representação a ser preservada na memória coletiva, mesmo que de forma apenas a ser registrada e não mantida, em razão da notória tecnologia hoje desenvolvida e aplicada às indústrias e invenções, contudo, poucas são as referências científicas que tratam do assunto.
Luiz Fernando Dias Duartes (2009, p. 306)[3] complementa dizendo que:
A memória coletiva é a memória da sociedade, da totalidade significativa em que se inscrevem e transcorrem as micromemórias pessoais, elos de uma cadeia maior. É esse caráter “encompassador” da memória coletiva que reveste de sacralidade as rememorações míticas e as reencenações rituais, frequentemente associadas à identidade tribal ou clânica (Bateson, 1967), apanágio de um gênero, de uma classe de idade, de uma fraternidade[4].

Desta forma, ainda se está longe do ideal esperado pelos profissionais da área do patrimônio cultural, embora entende-se que com a união das linhas de estudos, como “da História, do Direito, da Antropologia, da Arqueologia, da Geografia e da Ecologia, nos possibilitaram explicitar as articulações entre os bens culturais e naturais das mais distintas comunidade, suas histórias, memórias, identidades e as maneiras dessa população se relacionar com o meio” (FUNARI. 2009, p. 11).
Até porque, o patrimônio intangível não se restringe aos atos de folclore e/ou de cultura popular, como em certas ocasiões é conceituado equivocadamente, porém, a UNESCO o “entende como conhecimentos e modos de vida tradicionais”[5], conceito bastante subjetivo e generalista se comparado com os demais já apresentados, na qual principalmente entendem que devem ser preservados para a humanidade.
O patrimônio industrial, então, vem sendo reconhecido por seu valor cultural nos espaços onde antes apenas era considerado pela sua importância histórica-artística, mais principalmente no campo do restauro destes bens, através de Cesare Brandi[6], autor italiano-romano, diversas vezes citado pela renomada professora Beatriz M. Kühl, em suas obras.
Embora desde o final do século XVIII, se observa as principais mudanças em seu entorno e a necessidade de se resguardar os bens culturais relacionados ao patrimônio industrial, a partir das inovações na utilização da energia elétrica, fotografia e internet, contudo o tema especificamente de proteção ao patrimônio industrial iniciou-se na Inglaterra, próximo ao ano de 1950, quando surgiu a expressão ‘arqueologia industrial’, inicialmente com os estudos do professor Donald Dudley, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, “embora já em 1896 o termo arqueologia industrial houvesse sido usado em Portugal, em artigo de Francisco de Souza Viterbo, foram [então] os britânicos que ganharam notoriedade como desbravadores das questões relativas ao patrimônio industrial” (CAMPAGNOL, 2008, p. 421).
Em 1930, por sua vez, conforme denota Ruy Gama (1979 apud CAMPAGNOL, 2008, p. 412) “talvez motivado pelo impacto do grande desenvolvimento da técnica, [após 2ª Guerra], nota-se um crescente interesse pela história da técnica e da ciência, o que levaria com o fim da II Guerra, ao campo de estudo abordado pela arqueologia industrial”.
A partir destas iniciativas veio “ganhando maior vigor e atraindo a atenção pública a partir dos anos de 1960, quando importantes testemunhos da arquitetura industrial foram demolidos. O movimento se consolidou [...] realizando inventários sistemáticos de sua herança do processo de industrialização” (KUHL, 2006). O pioneirismo britânico em relação ao patrimônio industrial também se motivou principalmente pela publicação do período organizado por Kenneth Hudson, na década de 60, chamado de “Journal of industrial archaelogy” (CAMPAGNOL, 2008, p.414), conhecido mais tarde somente por “Industrial Archaeology”. Assim, “o pioneirismo britânico na grande industrialização iniciada séculos atrás, converteu-se, portanto, em análogo pioneirismo com relação à conservação dos testemunhos dessa indústria” (RUFINONI, 2004, p. 117).
Vale lembrar que no Brasil, desde a década de 30, o assunto já vinha se consolidando, principalmente após a Revolução de 30. Um dos exemplos clássicos dos primeiros atos de preservação brasileiro foi o Decreto de 1933 que elevou a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, à categoria de Monumento nacional, além disso, neste mesmo ínterim, houve a criação do SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sob base do projeto de lei de Mário de Andrade e do Decreto-Lei n. 25/37 que trata da preservação dos bens de interesse histórico, artístico ou etnográfico e paisagístico, conforme bem expôs Kühl (2008, p.103).
Aos poucos, então, o conceito e entendimento de patrimônio industrial e de certa forma o reconhecimento da arqueologia industrial como disciplina a ser estudada foram sendo incorporadas às noções de valorização dentro do conceito amplo e genérico de patrimônio histórico e, assim, “estes passaram a ser considerados um bem cultural que devia ter reconhecimento jurídico, uma estrutura administrativa e uma política nacional e regional de proteção” (SOLER, 1992, p.15 apud CAMPAGNOL, 2008, p. 414).
Além das iniciativas vindas de diversas nações, Campagnon (2008, p. 417) ainda lembra que houve em 1973, a 1ª Conferência Internacional para a preservação do patrimônio industrial, realizada na Grã-Bretanha. Em sua 3ª edição foi oficialmente criado o “TICCIH – The Internacional Comiittee for the Conservation of the Industrial Heritage, com a finalidade de promover a cooperação internacional” no que se refere ao patrimônio industrial, no campo da preservação, conservação, localização, pesquisa, documentação, valorização e formação em todos os aspectos.
Na XII Conferência do TICCIH realizada em Nizhny Tagil, (Rússia - 2003), foi aprovada a Carta de Nizhny Tagil, que traz conceito bastante abrangente de patrimônio industrial, na qual integra a fala de Thiesen:
os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas, minas e locais de processamento e de refinação, entrepostos e armazéns, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as suas estruturas e infra-estruturas, assim como os locais onde se desenvolveram atividades sociais relacionadas com a indústria, tais como habitações, locais de culto ou de educação (CARTA NIZHNY TAGIL, 2003).

Os espaços industriais, que normalmente ocupavam vastas áreas, geralmente próximas dos centros das cidades, foram aos poucos sendo desocupados, e consequentemente, demolidos, pela falta de análises mais apurada de sua significância, e pelo desinteresse destes complexos sem produção para novas instalações industriais. Entretanto, “o gradativo entendimento dos remanescentes das atividades produtivas como documento histórico surge atrelado à [...] uma herança cultural, [com] análises mais precisas desses artefatos, possibilitando a evidenciação de atributos [...] até então negligenciados” (RUFINONI, 2004, p.116).
Portanto, conforme entende Leonardo Mello e Silva (2006):
Quando pensamos imediatamente em patrimônio industrial pensamos logo em prédios vetustos, máquinas ultrapassadas sem valor comercial, e relíquias materiais e arquitetônicas, algumas com valor artístico de época. Um aspecto menos convencional, mas nem por isso menos evidente, é a possibilidade de, através desse verdadeiro arquivo a céu aberto (se não pensarmos aqui nos achados arqueológicos), estabelecer uma conexão com o tipo de industrialização de um período histórico e do modo de vida da classe trabalhadora correspondente a ele.

O valor histórico-cultural dos estudos destes sítios (locais de fábricas ou indústrias) é representado pela sua importância na esfera mundial, em razão de suas consequências históricas e sociais nos registros do cotidiano de muitos operários e operárias, bem como dos empresários que detinham um mesmo sentimento, além é claro de ser parte integrante da identidade do povo e da herança cultural. Assim, “as investigações históricas e sociológicas no campo possuem, porém, longa genealogia, através de estudos de diversos autores sobre história das ciências, da técnica, econômica e social, voltados aos processos de industrialização, produção de energia e meios de transporte” (KUHL, 2006).
A partir da década de 60, o interesse pelo estudo e conservação de edifícios industriais ganha amplitude, pois o Ancient Monuments Board (GAZANEO, 1983, p.6 apud RUFINONI, 2004, p. 116) decide reconhecer a tipologia industrial ser digna de proteção, da mesma forma que outros sítios monumentais e arqueológicos tradicionais. Neste período definiu-se o termo de monumento industrial como sendo “qualquer edifício ou outra estrutura, em especial do período da Revolução Industrial, que, sozinho ou associado a equipamentos, ilustra o início e desenvolvimento de processos industriais e técnicos, incluindo meios de comunicação” (RAISTRICK, 1973, p. 2 apud KUHL, 2008, p. 39).
A ampliação dos estudos sobre o patrimônio industrial e a sua abrangência evidencia as primeiras conceituações a respeito, conforme bem propôs Kenneth Hudson sobre a imprecisão do termo ´Revolução Industrial´, que traz diversas discussões sobre delimitação de tempo e local, vez que além da Grã-Bretanha, o processo de industrialização também ocorreu em outros diversos países, porém em momentos e locais diferentes, inviabilizando a utilização deste conceito genérico e tão abrangente, chamado de Revolução, apresentando-se de uma forma melhor e assim mundialmente conhecida pelo termo de industrialização.
Hudson ainda cita a restrição quanto a expressão ´edifício ou estrutura permanente´, na qual designa um determinado monumento industrial, o que estaria excluindo por completo as ruínas, vestígios arqueológicos ou artefatos móveis, considerados, então como provisórios ou suscetíveis à destruição natural. O autor entende pela aplicação de um termo menos rígido e excludente, incluindo por sorte quaisquer indústrias do passado e seus remanescentes, no estado que estiver: “Industrial Archaelogy, if a personal definition may be allowed, is the organised, disciplined study of the phisycal remains of yesterday´s industries, and it would be a great pity and a great handicap if its boundaries were too rigid”[7].
Deste modo, interessa a arqueologia industrial não só os remanescentes a partir da Revolução Industrial, mais desde os primeiros vestígios de atividades vinculadas ao trabalho, não importando a época. Assim, a delimitação a partir da Revolução seria um momento determinado na história da Grã-Bretanha e não uma época definida e regular da História Mundial. Porém, como bem se sabe a maior parte dos remanescentes físicos de fábricas ou atividades relacionadas a elas são datados dos últimos dois séculos. E os vestígios físicos (processos de produção, espaços de trabalho, tipo de energia utilizada) da industrialização transcendem à condição histórica, assumindo uma importância cultural muito mais relevante, integrando ao patrimônio cultural industrial desta localidade.
De igual modo ocorre em nosso país, onde “muitos desses patrimônios possuem importante valor arquitetônico, representando diversas fases do desenvolvimento industrial brasileiro, e também profundas relações históricas, culturais e afetivas com as comunidades que os circundam” (FONTES, 2006). E vale lembrar ainda que “a restauração de bens culturais, [...] é um campo disciplinar que começa a adquirir autonomia há pelo menos um século, com dois séculos de experiências práticas e formulações teóricas sistemáticas já acumuladas” (KUHL, 2006, p.3), desta forma “não se trata de conservar tudo, nem, tampouco, de demolir ou transformar radicalmente tudo, [...] é necessário fazer escolhas conscientes, baseadas em conhecimento aprofundado, para que os bens mais significativos possam ser preservados e valorizados” (Ibid), assim Souza (2010, p.143) coaduna com a entendimento de Kühl quando discorre que:
é necessário reconhecer que exemplares de todas as épocas e as várias fases de produção humana são merecedores de estudos. Isso não quer dizer que devemos preservar todo e qualquer testemunho do passado, por isso a importância desses estudos e análises, para que se possa reconhecer e selecionar os exemplares dignos de serem preservados por seus valores históricos, estéticos, afetivos ou memoriais.

Além disso, conforme bem expõe Kühl (2008, p. 32), a restauração não tem como princípio o retorno ao status quo ante, nem mesmo a um estágio anterior à história do monumento em si, ou imitá-lo de estilos ou arquiteturas de tal ou qual época, seus objetivos principais são a crítica-histórica, o projeto e a criatividade do restaurador frente ao monumento, considerando os seus aspectos materiais, formais e documentais. Da mesma maneira, pode-se tratar das memórias relacionadas às fábricas, ou seja, a transmissão do saber-fazer, que permite transcender as formas usuais de produção industrial, que envolve os operários e operárias com as máquinas, para um verdadeiro conceito de cultura. Envolvendo não somente os agentes diretos (empregados e empregadores) mais a sociedade em torno das fábricas, formando o que se chama de memória coletiva do patrimônio industrial.
Os núcleos fabris, de quaisquer que sejam os locais de trabalho, são considerados “lugares de memória”, conforme explica Pierre Nora (1984), através da relação entre memória e história decorrente de uma ruptura de equilíbrio identificada como “aceleração da história”. O interesse pelos lugares de memória está intimamente ligado a certos momentos na história, mas que contenham um sentimento de continuidade, pois os lugares constituídos de memória são ao mesmo tempo materiais, simbólicos e funcionais. Assim, muitos lugares de memória são apenas lembrados pelos registros fotográficos que estão em alguma fundação, instituto, num livro ou até mesmo num museu, ou então em suas próprias ruínas. “Porque se o lugar não existe mais, ele vai ficar refletido somente na memória daqueles que ali habitaram ou nos registros fotográficos e imagéticos daquele lugar”(CAMPAGNOL, 2008, p.25).
Pois, além do valor referencial histórico e estético que os edifícios possuem, eles também denotam valores afetivos e memoriais, vinculados ao cotidiano dos habitantes que os vivenciam na paisagem, conhecem suas histórias, identificam-se com sua trajetória no tempo. Este envolvimento com o patrimônio pode e deve ser explorado em sua preservação e evidencia, inclusive, a legitimidade social do ato (KUHL, 2002, p.36). Para se manter vivo, então, o patrimônio industrial intangível, ou seja, mais especificamente as memórias dos trabalhadores nas fábricas e os seus depoimentos ou seus descendentes que o vivenciaram deve ser preservada por meio dos registros/inventários, “não só por razões de preservacionismo, mas também porque eles podem ser úteis para resolver problemas do presente” (SILVA, 2006), quiçá do futuro.
Alves (2004, p. 254) ainda completa o pensamento dizendo que: “o patrimônio industrial é a expressão da tecnologia usada num período e num espaço circunscritos, com base em oficinas e fábricas, enquanto soluções organizacionais construídas para responderem a situações imediatistas de resposta ao mercado”.
Nesse sentido, acompanhar as transformações tecnológicas dentro de uma fábrica e também de seu ambiente físico é, realmente, seguir o caminho de uma determinada cultura material, portanto preservar este patrimônio é uma tarefa cogente dos profissionais de patrimônio industrial, estudiosos e acadêmicos, vez que a destruição do bem imóvel é irreversível. A identidade, por sua vez, tornou-se também patrimônio industrial de relevante interesse de muitos autores, na qual instigou e ainda instiga o estudo mais aprofundado do tema, devendo o restauro e a preservação, conforme completa Lima (2006, p. 220) “seguir princípios gerais por meio da unidade de metodologia e conceitos consistentes para as várias formas de manifestação artística, mesmo na diversidade dos meios a serem empregados para se enfrentar os problemas particulares de cada obra”, por uma equipe interdisciplinar, formada precipuamente de arquitetos, arqueólogos, engenheiros, bem como historiadores.
Sem pretender nos aprofundar nas questões aqui descritas, pode-se “indagar se a gênese dos questionamentos que reavaliam o conceito de patrimônio não reside na própria reavaliação de valores que sucede grandes conflitos mundiais” (Ibid), a partir dos abalos conseguintes à Segunda Guerra Mundial e a grande dificuldade na reconstrução e reestruturação de diversos países, ampliou-se, sobremaneira o conceito de patrimônio cultural e principalmente os conceitos de preservação e restauração.
Por outro lado, os bens culturais relacionados à indústria e ao parque fabril em si não são os únicos que vem se alterando com o decorrer das consequências da modernidade e pós-modernidade, mais da mesma forma:
muitos dos termos industriais utilizados na literatura concernente ao tema também mudam com o tempo. No século XIX, engenhos tornaram-se fábricas, ferrarias tornaram-se fundições com alto-fornos, e negócios de construção de barcos e navios tornaram-se estaleiros. No século XX, para novas indústrias, alguns aspectos dessa mudança podem ser literalmente vistos como complexos. O petróleo começou a ser transformado em fábricas que se tornaram refinarias. Em seguida, muitas fábricas químicas e refinarias de petróleo progrediram para se tornar complexos petroquímicos. Centrais elétricas às vezes transferiram-se da posição de funcionamento junto a fábricas ou a linhas ferroviárias para se tornar localmente associadas com energia nuclear (CORREIA, 2005, p.44).


Cabe lembrar, portanto que muitas indústrias, por causa da inovação da tecnologia, substituíram os equipamentos antigos e arcaicos pelos atualizados, descartando indevidamente estes equipamentos que fazem parte da memória industrial local, fato que vem ocorrendo desde a passagem da energia humana, animal e/ou hidráulica pela energia do vapor e enfim, pela energia elétrica.
A Carta de Campinas dá também às pequenas indústrias proteção, e aos seus bens culturais, como os fatores de produção que não possuem um grau de “beleza”, nos termos arquitetônicos, gerando por fim outra frustração aos profissionais da área de proteção deste patrimônio, vez que tais edificações não serão tão protegidas quanto aqueles que são símbolos da riqueza, ou seja, persistirá na memória industrial a história de uma elite que não representa os artesãos, oficiais e seus fazeres.
Assim, “as raras edificações utilitárias conservadas terão destinação totalmente diversa da original e do meio em que surgiram, descaracterizadas e desvirtuadas” (Ibid). A Carta recomenda ainda que novas funções sociais para a conservação do patrimônio desde que compatíveis com as suas especificidades, devem ser assumidas por estes edifícios, de modo a não sobrepor a necessidade de um novo uso à preservação em si, motivo inicial da intervenção. Sendo, então, “o juízo histórico-crítico, a partir da relação dialética entre a historicidade e a ´artisticidade´ do bem, que orientará a adaptação ao novo uso, sua harmonização com o entorno e os projetos integradores” (RUFINONI, 2004, p. 164).



CONSIDERAÇÕES



Tal tema é bastante complexo e multidisciplinar, e deve sempre tal fato ser levado em consideração no que concerne a restauração, vez que após o reconhecimento de um bem pela sua significância cultural, a preservação é medida precípua para “as próximas gerações, para que continuem a ser documentos fidedignos e efetivos suportes do conhecimento e da memória coletiva”(Ibid, p. 58)
De tal modo que a identificação dos bens considerados culturais sob a ótica industrial carece de um estudo aprofundado do próprio processo de industrialização, das áreas envolvidas e as suas estruturas físicas, bem como do valor simbólico destas construções para uma determinada sociedade para que possam ser preservados de acordo com sua especificidade.



REFERÊNCIAS

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[1] “Também conhecidas como línguas latinas, originaram do latim, hoje são representadas principalmente pelas seguintes línguas: o português, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno”. De acordo com OLIVEIRA, Ernesto Ferreira de. As línguas românticas. Akrópolis. Umuarama, v.9, n.1, 4 p. jan/mar, 2001. p. 1.
[2] A autora trata da “confusão” dos termos: recuperação, reestruturação, reutilização, reciclagem dos bens arquitetônicos com o fulcro na preservação, bem como as razões prática culturais, turísticas, econômicas e de especulação. KUHL, Beatriz Mugayar. Preservação do patrimônio arquitetônico da industrialização: problemas teóricos de restauro. Cotia/SP: Atelie Editorial, 2008.
[3]  Cita o depoimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade ao Conselho Federal de Cultura. DUARTES, Luiz Fernando Dias. Memória e reflexividade na cultura ocidental. In: ABREU, Regina e CHAGAS, Mario (org), 2009, p. 306.
[4] ou quem sabe, de uma fábrica.
[5] Podemos exemplificar a cultura indígena, ou de pescadores ou o modo de vida do trabalhador, mas ainda bastante genérico. FONSECA, Maria Cecília Londres. Para além da pedra e cal..., In: ABREU, Regina e CHAGAS, Mario (org), Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p. 72.
[6] A autora entende que as intervenções que se façam nos bens culturais industriais devem ser feitos na matéria da obra de arte e não na imagem como concebida pelo artista, ou seja, tentando voltar ao status quo do bem, antes de sua deterioração. KUHL, Beatriz Mugayar, 2008, p.72.
[7] “Arqueologia Industrial, se uma pessoa pode definir é o estudo organizado e disciplinado dos remanescentes físicos das indústrias do passado, e seria uma pena e um ótimo obstáculo se as fronteiras (regras) fossem muito rígidas” – tradução livre realizada por Christiane H. Kalb. HUDSON, Kenneth. Industrial archaeology: an introduction. London: Baker, 1966. p. 21.
 

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