O Porquê disso tudo...

Um dia ouvi de uma professora que existe um campo verde que representa o conhecimento. Nesse campo existem diversas árvores, cada uma poderíamos chamar de grandes áreas do conhecimento. "Dentro" dessas árvores há galhos e ramos que nos levam a pequenas folhas. Eu me aprofundei em algumas dessas folhas de algumas árvores do conhecimento, por isso quero dividir esses estudos com quem tiver interesse em conhecer alguma "nova" ou "velha" folha. Sem intenção de gerar a priori novos frutos, porém apenas semear, agora sim, ideias e esclarecimentos.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

AS CLASSIFICAÇÕES E OS TRATAMENTOS DOS RESÍDUOS DE SERVIÇOS DE SAÚDE (RSS): DISCUSSÕES SOBRE AS SOLUÇÕES BRASILEIRAS E INTERNACIONAIS



 Esse artigo já fez parte da minha pesquisa de Doutorado, quando ainda era orientanda da Querida Prof. Julia Guivant. No início de 2013, quando eu ingressei no curso, estava pesquisando "lixo" hospitalar (falando de forma bem simples), porém a temática dos resíduos não me satisfez por completo e procurei navegar em outros oceanos teóricos. [O filme Wall E é citado com carinho para lembrar o planeta-lixo que é criado no filme].

Christiane Kalb 



 
Resumo
A gestão dos resíduos de serviços de saúde (RSS) compreende mais do que uma classificação e um tratamento e a discussão dessas variantes é o objetivo desse artigo. A partir da análise do conceito de lixo (ou resíduo) e mais especificamente, de lixo hospitalar discutiremos as classificações brasileiras e internacionais que abarcam o tema. Assim como, as formas de tratamento aplicadas para gerir esse resíduo. Após a apresentação desses tratamentos, traremos as discussões sobre a melhor solução de tratamento do lixo hospitalar, envolvendo não só o meio ambiente, no sentido estrito do termo, como as possíveis consequências e riscos que possam atingir pacientes, catadores de lixões e profissionais da área da saúde. Espera-se com esse artigo alcançar um entendimento prévio sobre as formas de gestão do lixo hospitalar, bem como, os possíveis soluções para esse problema ambiental e social.

Palavras-chave: Lixo hospitalar, tratamento, saúde.


1. Introdução
É importante esclarecer, em primeiro lugar que “o lixo é matéria prima fora do lugar. A forma com que uma sociedade trata de seu lixo, dos seus velhos, dos meninos de rua e dos doentes mentais atesta o seu grau de civilização. O tratamento do lixo doméstico, além de ser uma questão com implicações tecnológicas, é antes de tudo uma questão cultural”. (GRIPPI, 2001, p.XIII)
Com esta citação inicia-se ess estudo, que nos traz parâmetros para analisar as classificações, os conceitos e os tratamentos dados a esses resíduos, bem como, verificar o arcabouço normativo sobre a temática.
Sissino (2000, p. 41) lembra que enquanto o homem vivia em condições nômades, os restos de suas atividades não eram uma preocupação, porém após o início das cidades, ou melhor, a fixação da população em grupos maiores, a quantidade e a variedade de resíduos e a convivência com esses fatos se tornaram inevitáveis. Hannigan (1995, p.28) aduz que durante os últimos anos, verificou-se nos países desenvolvidos e em desenvolvimento uma acumulação irresponsável dos seus resíduos – urbanos, hospitalares, industriais, dentre outros – sem que houvesse preocupações sérias com o respectivo tratamento.
Godecke (2012, p.1432) lembra que a produção de resíduos acelerou-se a partir do advento da Revolução Industrial, a partir da segunda metade do século XIX, que por fatores ligados ao crescimento e migrações das populações, e aos modelos econômicos socialistas e capitalistas, predominantemente adotados, a população saltou de aproximadamente 1,6 bilhões de habitantes em 1900 para sete bilhões no ano de 2011, mais do que quadruplicando em cem anos. E aos poucos foi se concentrando em áreas predominantemente urbanas, a exemplo da América Latina, que alcançou 76,5% da população total vivendo nas cidades em 2005, num crescimento de 60% em apenas vinte anos.
O crescimento populacional e econômico, predominantemente capitalista, focou na acumulação de lucros e no consumismo, e vem desprezando os danos sociais e ambientais decorrentes dessa atividade, nisso incluindo, conforme Romeiro (2010) a despreocupação como o descarte inadequado dos resíduos, pela crença de que o progresso científico e o dinheiro, impulsionados pelas forças de mercado, substituíram integralmente o capital natural. “O modelo capitalista é impulsionado mediante pesados investimentos em marketing visando o estímulo ao consumismo, numa dinâmica geradora de crescentes descartes que desafia a capacidade de carga do planeta” (SANSON, 2005).
Os aspectos relacionados ao crescimento populacional e os modelos capitalistas, juntamente com as novas tecnologias e formas de produção de certos produtos levaram os países, principalmente ocidentais, a certos patamares de produção, incrementando sobremaneira a geração de resíduos, primordialmente sem possibilidade de reciclagem ou reuso, ou seja, lixo, a partir desse pensamento consumista desenfreado.

2. O que é o lixo hospitalar
Mas o que seria o Lixo? Lixo é uma palavra que se origina do latim Lix, que significa cinzas ou lixívia. Hoje ele é identificado como basura, em espanhol, refuse, garbage, solid waste, em inglês (BIDONE, 1999, p. 1). Embora o lixo seja a marca de nossa história, que é muito bem ilustrado no filme WallE[1] (2008), da Pixar, ele também é o sinal de nossa presença, signo de nossa passagem pela Terra. E assim, definir lixo é uma pretensão, pois conforme Bertussi (1988), o que é lixo para alguns, é alimento para outros.
Os resíduos sólidos, então, segundo a ABNT n. 10.004 (2004, p.1), podem ser, assim, definidos, em seu estado: "sólido [e] semi-sólido que resultam de atividades de origem industrial, doméstica, hospitalar, agrícola e de serviços de varrição.”[2] Sendo que essa mesma norma ainda os classifica em cinco critérios de periculosidade: inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade, patogenicidade.
Apesar das classificações e definições que ainda veremos adiante, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2000) referentes ao lixo são do início dos anos 2000, o que dificulta o planejamento de políticas públicas.
Além, claro, da insuficiente divulgação de dados para a população, informações essas que podem ser chocantes, como a de que cada brasileiro em 2001 gerava, em média, 500 gramas de lixo por dia, ou seja, 100.000 toneladas por dia de lixo gerado em todo o país. Em 2012, o Ministério do Meio Ambiente (MMA, 2012) publicou esse dado atualizando para 230 mil toneladas por dia.
E aí vem a dúvida: O que fazer com todo esse lixo? Os métodos de disposição final dos resíduos sólidos variam significativamente. O primeiro deles seria o lançamento a céu aberto, onde apenas os resíduos são descarregados sobre o solo, sem qualquer medida de proteção ao meio ambiente ou à saúde humana. Essa seria a pior maneira de dispor os resíduos, mas conforme Bidone (1999, p. 18), 70% das comunidades brasileiras ainda a utilizam. Há também a compostagem, que normalmente se aplica em materiais que podem se decompor com mais facilidade, podendo utilizar vermes nesse processo ou não. Outro meio seria o aterro controlado, onde se impermeabiliza o solo com argila, e logo após se dispõe o lixo, sem qualquer tratamento.
Tem-se ainda o método dos aterros sanitários, proporcionando um confinamento “seguro” aos resíduos, recobrindo com argila e compactando o material, minimizando assim, os impactos. Normalmente nesses projetos de aterros há sistemas de drenagem de água da chuva e do material lixiviado, para que não se misturem.
Os resíduos sólidos são resultantes das mais diversas variantes das atividades dos seres humanos e dos seus ambientes urbanos, constituindo
massa de materiais reunidos, julgadas sem utilidade e posta fora, restos de frutas, legumes, alimentos em geral, plásticos e metais diversos, vidros, papéis, embalagens em geral, materiais provenientes de limpeza de vias públicas, praças e jardins, materiais cerâmicos, ossos, couro, trapos, terra, pedra, material séptico ou contaminado, animais mortos, restos de carros, restos mobiliários, caliça de obras, etc (BIDONE, 1999, p. 5).

Bidone (1999, p. 9) explica que a geração de resíduos depende de fatores culturais, hábitos de consumo, renda e padrão de vida dos consumidores, bem como, fatores climáticos e outras características, como sexo, idade e localidade dos habitantes, pois está ligada intimamente com a origem dos resíduos e as suas atividades básicas de manutenção de vida.
Percebe-se grande diferença quanto à questão da separação do lixo descartável ao reciclável quando analisamos os casos europeus e dos EUA, onde a maior parte da população separa seu lixo em casa, diferente da realidade latina-americana, onde o material é selecionado pelos catadores, conforme diz Sisinno (2000, p. 29).
Mas o problema vai muito além da separação adequada, já que muitas pessoas vivem e consomem o lixo, de forma que o descaso e a falta de políticas públicas para essas populações contribuem muito para a manutenção tanto da pobreza como da continuidade da inadequação da destinação do lixo, ocorrendo, assim, uma perpetuação desses dois fenômenos, como argumenta Pinheiro (1993).
Os resíduos hospitalares, por sua vez, é considerado um dos tipos de resíduos sólidos, tendo uma categoria própria que merece um estudo individualizado.
Dados do IBGE apontam para um descaso com a saúde pública e com o meio ambiente, pois uma estimativa atual considera que apenas 20% dos resíduos hospitalares sejam coletados, tratados e incinerados, enquanto os 80% restantes sejam incinerados através de fogueiras artesanais a céu-aberto, jogados em aterros, lixões, valas sépticas, como se fossem lixo comum (IBGE, 2000). Rabelo (2008, p. 9) entende que embora haja instrumentos legais, os resíduos de serviços de saúde constituem um sério e atual problema ambiental, uma vez que não recebendo o tratamento adequado antes do descarte final, pode ocorre a contaminação dos corpos d’águas e do solo.
Rabelo (2008, p.22) continua:
Observa-se que na maioria dos casos, os resíduos domésticos, industriais e, sobretudo, os hospitalares, não obedecem aos critérios legais estabelecidos para um descarte final adequado, de acordo com suas particularidades, de acordo com suas origens. A maior parte dos resíduos hospitalares é constituída por materiais sólidos e líquidos e o destino dos resíduos líquidos difere dos sólidos no descarte final. Os resíduos sólidos devem ser separados de acordo com o material que os constituem, coletados e direcionados ao abrigo externo para aguardarem o descarte final. Os resíduos líquidos constituídos de secreções, restos de medicações diluídas ou líquidas, vencidas ou desprezadas quando o paciente não as toma, são destinadas ao esgoto sanitário da cidade. Embora esse procedimento seja o mais utilizado nos estabelecimentos de saúde, esse descarte pode trazer sérias consequências para os ambientes naturais. (grifo nosso)

O resíduo (ou lixo[3]) hospitalar, conforme Prata (2011, p. 41) pode conter parcelas infecto-contagiantes e pérfuro-cortantes, de forma que exigem atenção especial, quanto à alta potencialidade de perigo em virtude dos riscos sanitários relativos à sua natureza contaminada, capazes de disseminar doenças comuns e inserir no meio ambiente vírus e bactérias multirresistentes fortalecidos pelo uso de medicações restritas às unidades de saúde para o combate de infecções de alta periculosidade. Não é por outro motivo que o Ministério da Saúde, através das orientações da Organização Mundial de Saúde – OMS, regulamentou, por meio da ANVISA, a Portaria nº 618/2009 referente aos Resíduos de Serviço de Saúde – RSS.
Prata (2011, p. 43) informa que os processos de tratamento do lixo hospitalar em geral coletados até 2011 no Brasil tem sofrido melhoras segundo dados fornecidos pelo IBGE. No fim da década de 80 estima-se que 55% dos municípios realizavam a coleta seletiva dos resíduos hospitalares, dos quais apenas 5,4% recebiam o tratamento, dito pelo autor, adequado, a incineração. Já, dados colhidos em 2000, apontam um crescimento no tratamento dos resíduos hospitalares, passando para 14% o total coletado e tratado dentro dos parâmetros estabelecidos pela OMS. Os 86% restantes não recebiam qualquer tratamento, sendo descartados em locais inadequados, diretamente no solo, por exemplo, e com risco epidemiológico e ambiental.
Já segundo Magalhães (2009, p.19), os levantamentos de 2007 realizados pela Associação Brasileira de Limpeza Pública e Resíduos Especiais - ABRELPE, apresentam a quantidade gerada de resíduos de serviços de saúde, no Brasil de 1.058,90 toneladas/dia. Quanto ao tratamento desses resíduos no mesmo período, o Brasil tratou 31,77% toneladas/dia. Diante dessas estatísticas, conclui-se que restam ser tratados 70% dos RSS no país.
E ainda, Prata (2011, p.45) continua
Países com grau de desenvolvimento maior que o Brasil têm direcionado melhor a destinação correta dos resíduos, aplicando severas multas e sanções àqueles que não cumprem a legislação imposta. Fedorak e Rogers (1991) ressaltam que a aplicação de punições de revogação de licenças de funcionamento e penalidades aos profissionais responsáveis pelo setor têm gerado efeitos positivos no tratamento de resíduos, estimulando uma reformulação do processamento do lixo, desde a sua geração à destinação.

Nesse diapasão, os standards levantados e publicados por alguns hospitais nem sempre condizem com um ideal sustentável e legal, mas sim, voltado a evitar multas. Ou seja, muitas entidades publicam oficialmente que estão tratando adequadamente os seus resíduos, mas não necessariamente isso vem ocorrendo na realidade.
Menezes, Gerlach & Menezes (2000) explicam que a Suíça, o Japão e a Dinamarca são exemplos de países de primeiro mundo, que possuem determinações fixadas para catalogação e tratamento do lixo, seja ele hospitalar, domiciliar ou qualquer origem, e têm se munido de mecanismos que possibilitem a redução do material descartado, bem como, têm o encaminhamento adequado a partir do próprio hospital, por meio de queima através da incineração que gera energia, podendo ser utilizada para aquecimento do ambiente e da água, ou na utilização responsável dos materiais descartáveis, repercutindo na redução do lixo produzido, sem, no entanto, sofrer com quedas na qualidade de atendimento.
Esses países tornam-se modelos a se seguir pelas estratégias de gestão que vem sendo desempenhadas junto aos resíduos. Prata (2011, p.46) considera que 
mesmo que o poder público tenha transformado em lei os acordos e tratados internacionais que objetivam lidar com a questão do lixo e, mais precisamente, do lixo hospitalar, as políticas ambientais das cidades não têm priorizado a destinação adequada e a coleta nas instituições de saúde, gerando mais do que um problema ambiental, e afetando diretamente os indicadores de saúde pública.

Ao lado da questão ambiental e de saúde pública estão as diversas classificações e conceituações advindas dos resíduos hospitalares, onde há certa dissonância entre os conceitos utilizadas pelas agências e os descritos nas normas.

3. Classificações
Os resíduos hospitalares já receberam várias classificações, vejamos algumas delas.
Um dos diversos conceitos e classificações dos resíduos de serviços de saúde é proveniente da Resolução nº 306, de 7 de dezembro de 2004 (que já tinha por base a Norma da ABNT n. 12808, 1993), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que "são materiais provenientes de hospitais, laboratórios, clínicas, necrotérios, funerárias, drogarias, farmácias, distribuidores de produtos farmacêuticos, unidades móveis de atendimento à saúde; serviços de acupuntura; serviços de tatuagem dentre outros, que podem conter microrganismos patogênicos".
Outra classificação é advinda do artigo 2º combinado com o artigo 1º da Resolução nº 358, de 29 de abril de 2005, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), que dispõe: "os resíduos de serviços de saúde são definidos como todos aqueles resultantes de atividades relacionadas com o atendimento à saúde humana ou animal, inclusive os serviços de assistência domiciliar e de trabalhos de campo; laboratórios analíticos de produtos para saúde; necrotérios, funerárias e serviços onde se realizem atividades de embalsamamento; serviços de medicina legal; drogarias e farmácias inclusive as de manipulação; estabelecimentos de ensino e pesquisa na área de saúde; centros de controle de zoonoses; distribuidores de produtos farmacêuticos; importadores, distribuidores e produtores de materiais e controles para diagnóstico in vitro; unidades móveis de atendimento à saúde; serviços de acupuntura; serviços de tatuagem, entre outros similares. Estes resíduos, por suas características, necessitam de processos diferenciados em seu manejo, exigindo ou não tratamento prévio à sua disposição final".
Já o Manual de Saneamento da Fundação Nacional de Saúde (1999 apud MAGALHÃES 2009, p.22), define os resíduos sólidos de serviços de saúde como os "restos provenientes de todo o tipo de operações e atividades, oriundas da prestação de assistência médica, sanitária, farmacêutica, de enfermagem, odontológica, análises clínicas e áreas de atuação congêneres, no desenvolvimento normal de seus profissionais. E vale ressaltar que os resíduos sólidos dos serviços de saúde não se referem somente aos chamados resíduos hospitalares, mas àqueles resultantes das atividades relacionadas, como por exemplo, atividades em ambulatórios; farmácias; clínicas médicas, odontológicas e veterinárias; enfermarias, consultórios e qualquer outro estabelecimento que gere resíduos similares".
Magalhães (2009, p. 23) elenca a principal classificação dos resíduos de serviços de saúde, conforme Quadro 1 abaixo, conforme dados publicados pela OMS.

Quadro 1 – RSS de acordo com Organização Mundial de Saúde (OMS).
a) Resíduos gerais
Resíduos não perigosos similares, por sua natureza, aos resíduos domésticos.
b) Resíduos patológicos
Tecidos, órgãos, partes do corpo, fetos humanos e carcaças de animais, assim como sangue e fluidos corporais.
c) Resíduos radioativos
Sólidos, líquidos e gases de procedimentos de análises radiológicas, como os testes para a localização de tumores.
d) Resíduos químicos
Incluem os resíduos perigosos (tóxicos, corrosivos, inflamáveis, reativos ou genotóxicos) e não perigosos.
e) Resíduos infecciosos
Dejetos que contêm agentes patogênicos em quantidade suficiente para representar uma ameaça séria, como culturas de laboratórios, resíduos de cirurgia e autópsias de pacientes com doenças infecciosas, dejetos de pacientes de salas de isolamento ou da unidade de diálise e resíduos associados a animais infectados.
f) Objetos pérfuro-cortantes
Qualquer artigo que poderia causar corte ou punção (especialmente agulhas ou navalhas).
g) Resíduos farmacêuticos
(Resíduos da indústria farmacêutica): incluem medicamentos com vazamento, vencidos ou contaminados. Recipientes para substâncias mantidas sob pressão (tubos de aerossol).

Fonte: Magalhães (2009, p. 23)

4. Os tratamentos para o lixo hospitalar

Os tratamentos dos resíduos de serviços de saúde, de acordo com Gandolla (2007), podem ser de dois tipos: parcial ou completo. O tratamento parcial ou também chamado de esterilizante é aquele realizado antes do encaminhamento dos resíduos para outra instalação de tratamento, em que a massa e as propriedades físicoquímicas não são modificadas. O segundo tipo que é considerado completo, ou nomeado de inertização físico-química é aquele realizado com o objetivo de permitir a disposição final segura no meio ambiente.
Magalhães (2009, p.66) exemplifica os tratamentos parciais existentes no mercado que são: autoclavagem, tratamentos químicos, irradiação e microondas. Os tratamentos completos são térmicos e atingem temperaturas entre 800°C e 1.200°C, como o incinerador, o queimador elétrico e a tocha de plasma. Segundo o autor, somente os tratamentos completos são eficazes para a realização dos objetivos: esterilização do fluxo de saída (sangue, restos da sala de cirurgia, etc.); destruição de moléculas altamente tóxicas e estabilização de elementos críticos (medicamentos vencidos ou parcialmente utilizados, materiais contaminados com tais medicamentos) e destruição das moléculas responsáveis pelo efeito curativo dos medicamentos (antibióticos podem perder sua eficácia pelo aparecimento de microrganismos resistentes).
Novi (2013, p. 194) esclarece ainda que novas tecnologias vem sendo desenvolvidas com intenção de reduzir os resíduos, diversificando a matriz energética, como a processo de gaseificação e combustão combinadas, chamados de GCC. Esse processo além de tratar o lixo, ainda possibilita a recuperação energética (a partir da geração de energia) a ser utilizada no processo, dentro do hospital. Embora a gaseificação ser uma das etapas da incineração, este processo custa em média, quando instalado dentro de um hospital, um milhão e quinhentos mil reais. Um investimento caro, dependendo das condições desse hospital, o que de certo modo, inviabiliza a sua gestão.
Ressaltam Machado & Moraes (2004), que não existe alternativa única de tratamento para os resíduos de serviços de saúde, mas sim alternativas que podem resultar em composições mais ou menos adaptadas a uma situação.
Portanto, para um país com as características do Brasil, a escolha do tipo de tratamento deve privilegiar as tecnologias que possuam menor custo de implantação e operação, como também de controle operacional mais fácil, admitindo-se até que exista menor garantia em relação à preservação ambiental desde que as soluções possam ser exequíveis. Caso contrário, se não houver recursos para ser executado, o que poderá ocorrer é a sua disposição direta no solo, o que seria muito pior que o mínimo de medidas aplicáveis ao lixo.
           Há uma grande diversificação de tipos de resíduos gerados, como também a possibilidade de separação de vários deles como resíduos não-perigosos, tais como os resíduos produzidos pelo setor administrativo e pela área de apoio. Em tal quadro Magalhães (2009, p.48) considerou como recicláveis aqueles resíduos possíveis de serem reciclados e que não entraram em contato com o paciente. Restos alimentares de pacientes foram considerados como infectantes e resíduos comuns que não necessitariam de tratamento, também estão incluídos nesse grupo, já que não se tem a certeza se estão contaminados ou não.
Munhoz e Ferreira (2012, p. 203) esclarecem que o estudo das diferentes estratégias adotadas, principalmente pelas Prefeituras e empresas fabricantes de produtos que necessitem ser eliminados ou transformados na cadeia reversa da produção, quando se trata do caso dos hospitais, quando existe uma luta entre eles para se tornarem referência e modelo no tratamento de doenças e obtenção dos melhores resultados de saúde, também existem as necessidades de troca de informações sobre as experiências e práticas médicas voltadas não somente para os resultados de seus clientes / pacientes, mas para a sociedade como um todo, principalmente com relação à gestão e ao gerenciamento dos resíduos sólidos hospitalares.
Cabe neste momento analisarmos alguns dos principais meios de tratamento dos resíduos de serviços de saúde realizados hoje no Brasil, lembrando que conforme Nori (2013, p. 200) nem todos os resíduos de classe A, por exemplo, podem ser processados no mesmo sistema dos de classe A3 ou A5, pois poderia aquecer o resíduo e emitir vapores tóxicos sem tratamento para a atmosfera.

4.1. A incineração


O processo de incineração convencional é aquele que utiliza óleo e/ou gás combustível para obtenção do calor necessário para iniciar a combustão, de acordo com Magalhães (2009, p. 87). A incineração, citada na NBR (NORI, 2013, p. 196), é um processo de oxidação à alta temperatura que destrói ou reduz o volume ou recupera materiais ou substâncias e um incinerador é qualquer equipamento usado para executar esse processo. Já o processo de co-incineração é a ação de reduzir as cinzas de diversos materiais em simultâneo, eliminando resíduos, utilizando como combustível, os fornos industriais (Nóbrega, 2003).
Na figura 1 mostra um exemplo de incinerador.

Figura 1: Incinerador, 2008.

Fonte: Disponível em: <www.colatina.es.gov.br> Acesso em: maio, 2013.

Silva et al (2012) esclarece que os resíduos sólidos a serem incinerados são acondicionados em bombonas de polietileno ou cartolas de papelão e introduzidos no forno rotativo através de elevador e pistões. Os resíduos líquidos a serem incinerados são estocados em um tanque fixo ou em containeres móveis e são transferidos para os queimadores através de pressão de nitrogênio, sendo atomizados com ar. O incinerador de resíduos possui um sistema de combustão composto de um forno rotativo, uma câmara de pós-combustão e três queimadores. O forno rotativo trabalha a uma temperatura de 800 a 1000º C que é mantida através de uma alimentação de resíduos líquidos e sólidos e utilizando-se gás natural como combustível auxiliar. Após o forno rotativo, as escórias são retiradas pelo fundo da câmara de pós-combustão e enviadas ao aterro industrial. Os gases são incinerados a uma temperatura de 1050 a 12500º C na câmara de pós-combustão. Na câmara existem dois queimadores para resíduos líquidos e gás natural, que são responsáveis pela manutenção da temperatura na faixa desejada. As vantagens da incineração são: redução do volume do lixo (cerca de 95% do volume original), diminuição do peso (as cinzas apresentam 10% do peso original), possibilita a incineração de resíduos organoclorados e organofosforados, possui um efetivo controle dos gases emitidos e as cinzas são de fácil manuseio e transporte. As desvantagens desse processo é praticamente o elevado preço do serviço. Em virtude desse fato, muitos hospitais fazem coleta seletiva e triagem dos materiais a serem incinerados para evitar desperdício de dinheiro.
Mas nem todos os resíduos podem ser incinerados em fornos convencionais e assim, para a correta destruição desses, necessário se faz a sua colocação em fornos de cimentos antes de serem levados aos aterros.
Prata (2011, p.53) constata que a incineração no Brasil começou em 1896 em Manaus, com o objetivo de queimar o lixo doméstico, possuindo na época a capacidade de queima de 60 toneladas por dia. Esse primeiro equipamento funcionou até 1958, quando apresentou problemas de manutenção. Em 1913, foi instalado pela primeira vez um incinerador na cidade de São Paulo, com capacidade de 40 toneladas por dia de processamento de lixo, tendo sido desativado 40 anos depois, em 1953.
Segundo Menezes, Gerlach e Menezes (2000), essa forma de processamento do lixo existe desdes as primeiras assertivas humanas para o controle do lixo produzido nas comunidades. Os primeiros equipamentos para a incineração de grande porte foram criados na Inglaterra em meados de 1870, sendo aos poucos desenvolvidas outras máquinas, com o mesmo propósito, nos Estados Unidos e em outros países europeus. O processo de incineração sofreu grandes modificações desde a sua concepção até a normatização. Os equipamentos utilizados até 1950 não tinham qualquer padronização, tendo por objetivo apenas a redução do volume de lixo. A concentração de poeira aérea chegava a 1000mg/m3. Os valores atuais com os sistemas de filtragem não ultrapassam 3mg/m3.
Entre 1965 e 1975, Prata (2011, p. 54) aduz que as preocupações ambientais começaram a influenciar na confecção dos incineradores, sendo verificada a questão das emissões de gases[4] e do aquecimento, bem como, a destinação e o acondicionamento dos resíduos finais. Em 1975 até 1990, foram enfocados princípios para o aproveitamento energético originado pela queima, além da preocupação com a emissão de gases e a filtragem deles, através da retenção de metais pesados e neutralizadores de gases ácidos. Depois da década de 90, equipamentos sofisticados foram produzidos no sentido de evitar a propagação dos gases do efeito estufa e reaproveitar a energia gerada na queima dos resíduos, promovendo uma utilização sustentável dos materiais descartados, além da utilização da energia gerada na queima para integração de cadeias produtivas. Desta forma, os resíduos pós-incineração, que eram desprovidos de potencial biológico, eram encaminhados para descarte nos aterros e lixões, uma vez que tinha recebido o tratamento para se tornarem inertes e, assim, não se apresentarem como nocivos à saúde ou ao meio ambiente.
A ação de incinerar todo e qualquer material utilizado nos hospitais é devida ao desconhecimento que os profissionais da saúde têm a respeito dos tipos de destinação disponíveis para os resíduos e do preconceito estabelecido quando da descoberta de doenças como a AIDS que impulsionaram o uso de materiais descartáveis. Dessa forma, equipamentos antes reutilizáveis perderam espaço no mercado hospitalar, ampliando de forma considerável a produção de lixo e de gastos no setor da saúde.
Prata (2011, p.56 citando BIDONE & POVINELLI, 1999; DEMPSEY & OPPELT, 1987) esclarece que o processo de incineração, normalmente, é realizado em uma central que capta o lixo hospitalar gerado na unidade de saúde. Antes da incineração, o hospital deve fazer a entrega do lixo separando os orgânicos dos pérfuro-cortantes. Esse processo acontece durante a utilização dos materiais ou quando são desprezados, existindo local determinado por diferentes formas de armazenagem. O que já reduz sobremaneira a quantidade de lixo a ser incinerado. Os resíduos pérfuro-cortantes, identificados em caixas amarelas e sinalizados com a informação de contaminação, necessitam ser incinerados separadamente dos orgânicos, uma vez que o tempo de permanência é diferente para cada tipo de material. Após serem queimados, as cinzas do material hospitalar são acondicionadas em recipientes específicos e encaminhadas aos lixões e aterros sanitários.
O problema é que a incineradora é uma máquina que além de queimar o lixo, produz resíduos altamente tóxicos (Nóbrega, 2003, p. 10). Assim, a OMS (1999) vem criticando o processo de incineração por ser um procedimento caro e muito poluidor, especialmente quando esse não é atrelado ao sistema produtivo como combustível/energia. Visando reverter esse quadro, países como a Holanda[5], têm utilizado a incineração como combustível de fornos e caldeiras, associando filtros especiais que barram um percentual grande de resíduos. Um exemplo de atitude que preze pela sustentabilidade é o caso dos Equipamentos de proteção individual, chamados, EPI´s que por serem mais duráveis, como a máscara N95, que custa 10 vezes mais que uma máscara comum e tem resistência de 30 dias, têm sido priorizados na hora de serem comprados pelos hospitais.
Contrapondo tal afirmação, da OMS, Prata (2011, p.58) reflete sobre os motivos da não-associação do método de incineração à utilização de energia no processo produtivo, dizendo que talvez estejam associados às irregularidades técnicas ou por preconceito relativo ao desconhecimento sobre a queima e os resíduos hospitalares. Uma vez que os equipamentos de incineração estejam dentro das conformidades ambientais e operacionais, não deveriam existir riscos de escape de qualquer partícula, que gere contaminação. A incineração, percebida como alternativa menos impactante para processar o lixo hospitalar, seguem as determinações legais, sendo a opção com menor violência para a saúde humana, de acordo com os estudos exaustivos sobre essa ferramenta. Mesmo que exista outras ações que possam ser associadas à queima desses materiais, as regulamentações específicas construídas pelos órgãos competentes para o tratamento do lixo são taxativas sobre a necessidade de incinerar, ficando a cargo dos incineradores a cisão e o comprometimento ambiental de atrelar a queima desse lixo às atividades produtivas.
Existem alguns países que não aceitam esse tipo de tratamento para os RSS, é o caso de Portugal. Já Áustria, Alemanha, Reino Unido, França e Itália o utilizam há muito tempo (NORI, 2013, p. 196).

4.2. Newster 10

Outro método de processamento do lixo hospitalar que surgiu com as inovações tecnológicas foi a Newster 10 que Prata (2011, pp. 58-9) nos esclarece. Tal técnica promete a desinfecção dos materiais hospitalares sem a geração de resíduos nocivos à saúde, como é o caso da incineração. A busca por uma tecnologia que permitisse a retirada dos elementos patogênicos dos resíduos de serviço de saúde contribuiu para a junção de várias funções em um aparelho que pode ser amplamente utilizado em hospitais, já que possui capacidade de desinfecção e redução de resíduos perigosos de até 40kg/h.  Ainda considerado caro, pelos padrões brasileiros de investimentos nessa área, porém sem valores expressos pelo fabricante e pelos compradores, com eficácia comprovada por estudos científicos relatados pelo fabricante, o processador de resíduos Newster 10, de fabricação italiana, foi implantado em hospitais de vários países. No Brasil, só recebeu licença para funcionamento no Paraná, onde as leis ambientais e a preparação das unidades de saúde são adequadas para o recebimento do equipamento.
O gasto mensal com os insumos, energia elétrica e água para o processamento do lixo, considerando a descontaminação e redução de 35kg/dia, é de R$1.390,88, em 2011 conforme informação de Prata (ibidem). O equipamento utiliza filtros especiais, calor, trituradores e produtos químicos que desinfetam o lixo e reduz seu tamanho e peso em cerca de 70%. Os resíduos finais podem ser despejados, de acordo com a divulgação do fabricante, como lixo comum nos aterros sanitários, sem causar prejuízos à saúde da população.
O Newster 10 ainda está em análise pela comunidade científica, pois ainda não se evidenciam estudos exaustivos que apontem as vantagens e desvantagens do equipamento. Os dados apresentados são originados do fabricante e dos distribuidores do Brasil e de outros países. Selos de qualidade também aparecem no website do fabricante, apontando que instituições respeitadas, como o Instituto Giordano e o Vincotte Luxembourg, reconhecidas na área da saúde como fidedignas, certificam a eficácia do equipamento.
Aliado a esse processo, a polimerização reversa é outro meio de destruir e esterilizar todos os resíduos biológicos infectantes e anatômicos, conforme expõe Lima (2000, p. 129).
A figura 2 mostra um exemplo de Newster e do seu sistema de funcionamento.



Figura 2: Newster 10  2009.

Fonte: Disponível em: www.newstergroup.com. Acesso em: jun, 2013.

4.2 A Disposição final

A disposição final dos resíduos, de acordo com Magalhães (2009, p.71) é o estágio onde o lixo é depositado, após ser previamente segregado e tratado. Mas, na maioria das vezes não ocorre segregação e tratamento, podendo haver a possibilidade de transmissão de doenças às pessoas pelo contato direto ou pelo contato indireto.
Os dois tipos de disposição são o aterro sanitário e os aterros ilegais, também conhecidos por lixões.

4.2.1.O Aterro sanitário

O aterro sanitário pode ser conceituado conforme a norma da ABNT NBR 8.419/1984, como uma técnica de disposição de resíduos sólidos urbanos no solo sem causar danos à saúde pública e à sua segurança, minimizando os impactos ambientais.
Esse método utiliza princípios de engenharia para confinar os resíduos sólidos à menor área possível e reduzí-los ao menor volume permissível, cobrindo-os com uma camada de terra na conclusão de cada jornada de trabalho, ou a intervalos menores, se for necessário. Essa técnica consiste na compactação dos resíduos no solo, dispondo-os em camadas que são periodicamente cobertas com terra ou outro material inerte, formando células, de modo a se ter alternância entre os resíduos e o material de cobertura. O aterro sanitário exige cuidados e técnicas específicas, que visam inclusive ao uso futuro da área, e que incluem a seleção e o preparo da área, sua operação e monitoramento. A NBR 8.419/1984 fixa todos os procedimentos necessários a uma correta elaboração do projeto.
Os aterros sanitários possuem diferentes métodos de operação, que traz Bidone (1999, p. 22-30). O primeiro seria o método de trincheira, que se pode observar na Figura 3. Bem como, os outros dois, que seriam o método de rampa (também conhecido por meia encosta / escavação progressiva) e o método da área (ou também chamado de aterro tipo superficial).
Figura 4: métodos de operação de aterros sanitários, 2012.

Fonte: Disponível em: <www.ebah.com.br> Acesso em: maio 2013.

Vale lembrar que por meio desses métodos pode-se chegar ao “ideal ambiental” desses aterros, os transformando e revigorando em áreas verdes, como “jardins, parques, praças esportivas e áreas de lazer” exemplificado por Bidone (1999, p. 49), conforme vê-se na Figura 5, adiante.

Figura 5: Montanha de Lixo, 2009.




Fonte: Disponível em: < http://1faterrosanitario.blogspot.com.br/> Acesso em: maio 2013.

Os aterros sanitários, explica Silva et al (2012) são áreas especiais em que o lixo é estocado. Essa área deve ser preparada e licenciada pelo órgão ambiental local, devendo possuir determinadas características como: Baixo potencial de contaminação do aquífero, baixo índice de precipitação pluviométrica, alto índice de evapotranspiração, camada insaturada de pelo menos 1,5m entre o fundo do aterro e o nível mais alto do lençol freático, área não sujeita a inundação, pouca declividade e ausência de depressões naturais, distância mínima de 300 m de qualquer corpo d'água, distância mínima de 1000 m das áreas urbanas próximas, distância mínima de 50 m das rodovias e ferrovias e período mínimo de utilização da área de 20 anos.
Após certo período de acomodação do lixo, esse produz uma substância conhecida por chorume, que é na realidade o material percolado que é tratado em quatro etapas de tratamento que são o tratamento primário, secundário, terciário e do lodo, de acordo com explanação de Silva et al (2012).
O tratamento primário consiste em duas etapas que são: tanque de homogeneização e calhas eletrolíticas. O tanque de homogeneização do percolado destina-se a armazenar temporariamente as lamas espessadas e a promover a sua mistura antes da desidratação. Trata-se de um órgão de secção circular, de corpo cilíndrico e no fundo possui um agitador de velocidade lenta. As calhas eletrolíticas têm como objetivo a estabilização química do percolado que tem como principal finalidade a redução ou a eliminação da sua capacidade de fermentação, sendo feita nesta instalação com cal viva em pó (A cal viva é armazenada num silo metálico de 30 m3 de capacidade).
O tratamento secundário possui três etapas básicas que são: decantador primário, tanque de aeração e decantador secundário. O decantador primário tem como objetivo remover por decantação (gravidade) as partículas suspensas mais densas do percolado que são removidas do tanque e levadas para o sistema de tratamento do lodo. O tanque de aeração promove a insuflação de ar fornecido por compressores e distribuído em profundidade através de difusores, sendo dividido interiormente em 5 câmaras interligadas na forma de chicana vertical. O ar insuflado destina-se não só a manter perfeita mistura de água residual e lamas ativadas, mas também a fornecer o oxigênio necessário para a biomassa oxidar a matéria orgânica. O decantador secundário visa à separação do percolado biológico (resíduo do tratamento do tanque de aeração) do efluente tratado que são definitivamente separados nas lagoas de polimento (tratamento terciário).
O tratamento terciário consiste de quatro etapas: lagoas de polimento, filtro de areia, pré-filtro (nano), unidades de nanofiltração. As lagoas de polimento têm como principal objetivo a remoção de organismos patogênicos. Com a profundidade reduzida à penetração de a luz solar na massa líquida é facilitado e a atividade fotossintética acentuada. Bactérias e vírus são inativados pela irradiação solar – Raio UV – sendo letal para esses microrganismos, havendo uma elevada concentração de oxigênio dissolvido e elevação do pH. O filtro de areia objetiva reter as partículas em suspensão de grande diâmetro que assim como o pré-filtro (nano) visam preparar o percolado a passar pelas membranas de nanofiltração.

4.2.2. O Lixão

O lixão é conceituado pelo IPT/CEMPRE (2000, apud MAGALHÃES, 2009, p.70) como uma forma inadequada de disposição final de resíduos sólidos, que se caracteriza pela simples descarga do lixo sobre o solo e/ou a céu aberto, sem medidas de proteção ao meio ambiente ou à saúde pública. No lixão não existe nenhum controle quanto aos tipos de resíduos depositados e quanto ao local de disposição dos mesmos.
Sendo que os vazadouros a céu aberto também são considerados lixões, já que conforme Costa (2013, p. 113) é o meio mais precário de destinação dos resíduos sólidos, com potencial de contaminação do lençol freático.
Nesses casos, resíduos domiciliares e comerciais de baixa periculosidade são depositados juntamente com os industriais e os hospitalares, de possível poder poluidor. Nos lixões pode haver outros problemas, como a presença de animais e de catadores, além de riscos de incêndios causados pelos gases gerados pela decomposição dos resíduos, bem como, o risco de escorregamentos, quando há a formação de pilhas muito íngremes, sem critérios técnicos.
Segundo Ferreira e Anjos (2011, p. 69) os catadores de lixo estão em risco constante, já que estão expostos a riscos físicos: como ruído, vibração, calor, frio, umidade, químicos: gases, névoa, neblina, poeira, substâncias tóxicas, mecânicos: atropelamento, quedas, esmagamentos pelo compactador de lixo, fraturas, sobrecarga da função ortomuscular e da coluna vertebral, com consequente comprometimento patológico e adoção de posturas forçadas incômodas, biológicos: contato com agentes biológicos patogênicos – principalmente quando em contato com materiais pérfuro-cortantes, e sociais: falta de treinamento e condições adequadas de trabalho.

5. Considerações Finais: Qual a solução? Tem solução? E quem “convive” com o lixo?

Após analisarmos as principais formas de tratamento dos resíduos hospitalares utilizados no Brasil e em alguns países cabe discutirmos qual seria a melhor forma de se tratar esse resíduo, dito por alguns autores como especial, em razão das partes pérfuro-cortantes e com culturas microrgânicas.
Rabelo (2008, p.24) esclarece algumas questões sobre as formas de destinação final dos RSS, dizendo que o custo da disposição dos resíduos em aterros sanitários é menor do que a incineração do material. Porém, o lixão (também chamado de lixeiras) é o método de descarte mais utilizado no Brasil e nos países periféricos, onde o sistema de limpeza urbana prioriza a coleta e a limpeza pública. 
A maior preocupação com os resíduos, sobretudo os RSS, é o chorume gerado nas células de descarte dos aterros sanitários ou nas lixeiras. Vale ainda mencionar a esterilização, que é um processo que promove completa eliminação ou destruição de todas as formas de microrganismos presentes: vírus, bactérias, fungos, protozoários, esporos, para um aceitável nível de segurança. O processo de esterilização pode ser físico - vapor saturado e calor seco (10 a 30 min), químico - glutaraldeído e formaldeído (baixa temperatura, rápido), físico-químico - Esterilizadoras a Óxido de Etileno (ETO), Plasma de Peróxido de Hidrogênio, Vapor de Formaldeído (baixa temperatura, rápido), conforme esclarece Silva et al (2012).
Seidel (2010, p.5) mostra o caminho encontrado por diversos municípios, inclusive do Estado de São Paulo, que recomendam como forma de reduzir o impacto nas mudanças ambientais globais do setor de resíduos aplicando os conceitos de gerenciamento integrado de resíduos sólidos. Este consiste na escolha de alternativas para a redução da quantidade de resíduos gerados, para a separação dos materiais em recicláveis, que podem ser reincorporados na cadeia produtiva através das indústrias recicladoras, e não-recicláveis, e quando fossem somente matéria orgânica poderiam seguir para atividades de compostagem e o restante seria então encaminhado, como última alternativa, para aterros sanitários. Com essas atividades, a quantidade de resíduos encaminhada para aterros sanitários deve diminuir, contribuindo assim para redução dos impactos ambientais desse tipo de disposição.
As medidas propostas no item anterior, principalmente às anteriores ao lixão, diminuiriam em muito a quantidade de resíduos hospitalares, além da redução dos possíveis riscos relacionados aos RSS. Quanto aos riscos, interessante balizar alguns pontos que se referem aos catadores.
Afinal, Rabelo (2008, p.97) conclui de acordo com a sua pesquisa, que os frequentadores do aterro sanitário que vão à busca de materiais recicláveis mesmo conscientes dos perigos que lhes rodeiam e por falta de opção, não deixam de catar o lixo por ser seu único meio de sobrevivência.
Esse quadro retrata as condições precárias da vida de muitos cidadãos brasileiros que vivem em extrema pobreza. Sem perspectiva de sair dessa situação, se submetem aos riscos de contaminação com os resíduos sépticos descartados nas células de resíduos domésticos e de contrair doenças causadas por microrganismos patogênicos. Os pacientes quando internados em hospitais, sendo os mais imunodeficientes os idosos, bebês prematuros, doentes crônico-degenerativos, doentes com deficiência cardíaca e/ou respiratória, leucêmicos, portadores de HIV / hepatite B / tuberculose, entre outros pacientes complexos, que costumam sofrer procedimentos invasivos para diagnóstico e tratamento que contribuem, conforme Silva et al (2012), para aumentar ainda mais o risco de infecções.
Porém, não são somente os catadores dos lixões que correm riscos, afinal os pacientes debilitados, quando necessitam, por exemplo, de respiradores mecânicos (entubação), catéter vascular, sondas naso-gástricas para nutrição parenteral, sondas vesicais urológicas ou ginecológicas, medicamentos quimioterápicos e antimicrobianos de amplo espectro, etc, são todos mecanismos invasivos que passam a ser possíveis vias de acesso direto dos microrganismos presentes no ambiente hospitalar para os órgãos e sistemas humanos, normalmente já debilitados, favorecendo e incrementando o processo microbiológico da infecção hospitalar. Soma-se, ainda, o risco de infecção pelos microrganismos presentes em resíduos hospitalares mal gerenciados, que podem infectar especialmente os profissionais das instituições hospitalares e os pacientes (infecção hospitalar), diariamente expostos ao perigo de infecção cruzada.



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[1]              WALL·E é um filme de animação americano de 2008 produzido pela Pixar Animation Studios e dirigido por Andrew Stanton. A história segue um robô chamado WALL·E, criado para limpar a Terra coberta por lixo em um futuro distante. (web: Wikipédia)
[2]              Ficando incluídos nesta definição os lodos provenientes dos sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos, cujas particularidades tornem inviável seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos de água, ou exijam, para isso, soluções técnicas e economicamente viáveis, em face da melhor tecnologia disponível.
[3]              Lixo normalmente é tudo que se varre da casa, jardim, rua e se joga fora. E os resíduos sólidos são os restos da atividade humana, consideradas inúteis, indesejáveis ou descartáveis. (Eigenheer, 2000, p. 97).
[4]              Nori (2013, p. 206) explica que o processo de incineração pode gerar gases poluentes, do tipo dioxinas e furanos, quando não controlados, podendo provocar impactos na saúde e no meio ambiente.
[5]              Apesar de Nobrega (2003) esclarecer que naquele ano a União Europeia produzia em média 3 milhões de toneladas de resíduos.
 

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