O Porquê disso tudo...

Um dia ouvi de uma professora que existe um campo verde que representa o conhecimento. Nesse campo existem diversas árvores, cada uma poderíamos chamar de grandes áreas do conhecimento. "Dentro" dessas árvores há galhos e ramos que nos levam a pequenas folhas. Eu me aprofundei em algumas dessas folhas de algumas árvores do conhecimento, por isso quero dividir esses estudos com quem tiver interesse em conhecer alguma "nova" ou "velha" folha. Sem intenção de gerar a priori novos frutos, porém apenas semear, agora sim, ideias e esclarecimentos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A CONSTRUÇÃO DE UM LUGAR DE MEMÓRIA: A ESCOLA GERMANO TIMM, JOINVILLE-SC



Artigo publicado nos Anais do XII Encontro Nacional de História Oral : Política, Ética e Conhecimento

Teresina, 06 a 09 de maio de 2014 Universidade Federal do Piauí (UFPI)
Campus Senador Ministro Petrônio Portella 


Anais Encontro - web 

Christiane Heloisa Kalb*
Maria Bernadete Ramos Flores*


Este artigo tenta refletir sobre o impacto que a urbanização contemporânea produz sobre as edificações antigas. Usa-se aqui como exemplo heurístico a Escola Germano Timm, tombada como patrimônio histórico-cultural, pela Fundação Cultural do município de Joinville, cidade do litoral norte de Santa Catarina, em 2009. O edifício desta escola, construído em 1935, seguiu o modelo arquitetônico implantado no Brasil, pelo governo de Getúlio Vargas, na década de 1930. O formato em U permitia ao diretor da escola, sentado em sua cadeira, observar as duas alas paralelas onde ficavam os alunos, sem necessidade de percorrer os corredores para manter a ordem.
Esta forma de arquitetura traz ressonâncias do Panopticon, construção institucional desenhada pelo filósofo inglês e teórico social Jeremy Benthan, no final do século 18, aplicável a hospitais, escolas, sanatórios, creches e asilos e, especialmente, à prisão. O conceito do projeto é para permitir que um único vigia possa observar todos os reclusos de uma instituição sem que estes saibam que estão sendo observados. Michel Foucault toma este modelo de arquitetura como princípio da modernidade com seu problema de visibilidade dos corpos, dos indivíduos e das coisas para um olhar centralizador. (FOUCAULT, 1986:209-227).
O olhar do vigia, aqui diretor da escola, é onipresente, até o ponto máximo em que o olhar passa a ser do próprio vigiado, no caso, os alunos, até mesmo os professores. Assim, cada um vigia a si mesmo já que não sabe se está sendo vigiado.




Figura n. 1 - Escola Germano Timm, 2013.


Fonte: Leo Munhoz (Herbst, 2013)

Contudo, o interesse em preservar uma edificação antiga, como patrimônio cultural, nem sempre e nem somente se dá pelo seu valor arquitetônico. Bens culturais, tangíveis ou intangíveis, muitas vezes, transformam-se em lugares de memória, na perspectiva de Pierre Nora. A escola, ao ser preservada, é transformada; cria-se aí um lugar de memória. Antes desta criação, desta transformação em patrimônio histórico, ela não era propriamente “um lugar de memória”, na perspectiva de Nora (1993). Um “lugar de memória é toda unidade significativa, de ordem matéria ou ideal, da qual a vontade dos homens ou o trabalho do tempo fez um elemento simbólico do patrimônio da memória de uma comunidade qualquer”. (Nora, 1993). Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento de que a memória viva está se esvaindo. Por isso, é preciso criar arquivos, organizar celebrações, levantar monumentos, preservar edificações. São estes lugares de memória que se transformam em abrigo para as memórias portadas pelos grupos vivos, abertas ao esquecimento e às ressignificações.
É nesta perspectiva que abordaremos o debate que se insurgiu para impedir a demolição da Escola Germano Timm.  Parte-se da hipótese de que há “um desejo” pela manutenção da Escola Germano Timm, ainda que na forma de “lugar de memória”, construído em meio à resistências, disputas, negociações, ressignificações, perdas de funções e invenção de outras. Afinal, o ideário de preservação total não existe, pois não se pode engessar um bem cultural, nem mesmo essencializar a partir de discussões teóricas. Assim, as sociedades escolhem e selecionam certos objetos com a pretensão de mantê-los intactos no tempo e no espaço. Porém, o que vem ocorrendo em Joinville[1] é que certos bens tombados no centro da cidade, ainda assim, estão sendo engolidos, obscurecidos, em seus pequenos espaços, sofrendo um abafamento pelo grandes empreendimentos, desrespeito muitas vezes, à sua “beleza estética” em detrimento de uma sociedade de consumo, que vem convivendo com a urbanização contemporânea.
O caso da Escola Básica Germano Timm

A Escola Germano Timm foi fundada no dia 30 de maio de 1935, já iniciando com 280 alunos. O nome dado à escola, Germano Timm, foi em homenagem a um antigo professor, ainda vivo à época, em reconhecimento a uma vida dedicada à educação. Por ocasião do centenário de nascimento de Germano Timm, em 1972, o Jornal ANotícia fez uma referência a este “ilustre joinvillense”, fato que talvez possa ser tomado como o primeiro indício do processo de significação histórica da antiga escola. Nascido em 1872, na Vila Joinville, Germano Timm frequentara a Escola Padre Carlos onde aprendeu o português, uma vez que, como tantas outras crianças da Vila de Joinville, falava apenas a língua germânica de seus pais, primeira geração de imigrantes europeus. Já adulto, em 1895, começou a lecionar, trabalhando por 33 anos ininterruptos. Em homenagem a seus anos de trabalho, o Governador do Estado de Santa Catarina, em 1935, concedeu seu nome à segunda escola mais antiga de Joinville[2], sendo a mais antiga a Escola Conselheiro Mafra, também conhecida como Escola Prof. Padre Carlos. Em seguida, em 1975, foram festejados os 40 anos de fundação da escola, com muito preparativos e embelezamento do prédio. Uma reportagem, publicada no Jornal ANotícia de 22 de maio, enaltecia o evento comemorativo, ressaltava os nomes dos ex-alunos que se tornaram homens importantes na vida pública da cidade, por suas atividades comerciais, industriais ou memoriais, alimentando o processo de significação histórica do edifício hoje tombado.
Passaram-se 30 anos, desde a reportagem sobre a vida de Germano Timm, quando, em 2003, correu a notícia de que a Escola Germano Timm, situada à rua Orestes Guimarães, 406, e a escola Conselheiro Mafra, situada à rua Conselheiro Mafra, 70, seriam demolidas para dar lugar a edifícios residenciais, conforme notícias veiculadas no Jornal ANotícia (2003). Imediatamente, houve reação. A resistência à demolição e a defesa da preservação não se fizeram esperar. Queria-se a manutenção das duas escolas mais antigas de Joinville, ameaçadas de virem a baixo. O grupo que defendia a manutenção era formado por ex-alunos, professores e integrantes do Patrimônio Cultural de Joinville que se organizaram para que o Poder Público não aprovasse a tal demolição sem consultar a população interessada.
As informações das possíveis demolições provocou reação dos professores que alertaram os pais, enviando um bilhete nos cadernos dos alunos, diante do risco da perda de um espaço de memória. No bilhete dizia: “Povo sem memória, não terá história”. Após essa reação, os grupos de defensores das escolas começaram a se organizar em reuniões periódicas, chamando ao debate os representantes do poder público. “Na quinta-feira à noite, um encontro agitado no Conselheiro [Mafra] mostrou que a comunidade está pronta para resistir. Na noite de sexta-feira, na Germano Timm, ocorreria uma reunião para oficializar a resistência” (ALBERT, 2003).
Após reuniões entre os grupos de defensores da manutenção da Escola e de defensores da demolição (representantes do Poder Público), no dia 29 de maio daquele mesmo ano, foi publicado no mesmo jornal (ANotícia, 2003), que a 23ª Gerência Regional da Educação e Inovação – GEREI decidiu transformar o prédio da Escola em patrimônio cultural do Estado, se o tombamento fosse aprovado.
Diante do debate, que se arrastou por alguns dias, finalmente as pessoas que defendiam a manutenção do edifício saíram vitoriosas. Os pais, os professores e os integrantes do Patrimônio Cultural de Joinville, “Recebemos [ram] a confirmação de que elas [as escolas] não serão destruídas. Além disso, há uma solicitação da Assembleia Legislativa em transformá-los em patrimônio” (ANotícia, 2003).
O tombamento efetivo aconteceu apenas em 2009. Antes disso, em 2006, a escola foi fechada, já apresentando problemas de infraestrutura, e os alunos foram transferidos para uma nova sede.  Tapumes foram colocados nas janelas e portas para impedir a entrada de alunos e curiosos. “Porém, por cima deles e pelas aberturas das janelas, era possível presenciar o triste cenário: vigas apodrecidas, mato alto no pátio, portas e forros enegrecidos, teto no chão em determinados pontos, restos de fiação dependurados...” (HERBST, 2013), conforme se percebe pela fig.2.

Fig. 2 - Antigo prédio da Escola de Educação Básica Germano Timm,
 em Joinville, abandonado desde 2006, 2012.

Fonte: Salmo Duarte, Agencia RBS, 2012.

 O edifício fechado por três teve tempo suficiente para a deterioração provocada pelas intempéries e por “vândalos”, como se pode observar na imagem abaixo (Fig.3).
Fig. 3 - Deterioração na Escola Germano Timm, 2011.

Fonte: Johannes Halter, Nossa Pauta Blogspot, 2011.

Recentemente, foi noticiado que um “Novo espaço cultural de Joinville será erguido dos restos da Escola Germano Timm”, notícia que foi veiculada em setembro de 2013 no Jornal ANotícia (2013), informando que haverá uma restauração do prédio, construído em 1935, para ali abrigar o curso superior de Dança, da UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina.

Nos anos 30, foi importado para Joinville o modelo físico de grupo escolar que vigorava em São Paulo, no qual o formato de "U" permitia ao diretor observar, de sua cadeira, as duas alas paralelas onde ficavam os alunos. Décadas mais tarde, tal vigilância provavelmente percebeu a deterioração que devorava a Escola Germano Timm, uma das mais tradicionais de Joinville, bem como o perigo que o prédio corria sem a devida manutenção. Mas o poder público fechou os olhos, e nem o tombamento histórico impediu que o local ficasse impróprio para qualquer atividade que não o das portas sendo lacradas. Quem diria que a arte seria a salvação da Germano Timm? (HERBST, 2013).

A notícia informa que durante muito tempo o edifício tombado ficou sem qualquer manutenção pelo Poder Público e que outra instituição de ensino, a Udesc, veio trazer a salvação para a segunda escola mais antiga da cidade.
A fig. 4 a seguir demonstra o projeto/desenho de restauração da antiga Escola, que de acordo com o projeto de restauração, as características da construção datada de 1935 serão respeitadas, e se possível, haverá manutenção do que ainda tiver condições de uso. Mas a arquiteta-restauradora calcula, “que apenas 30% do piso poderão ser reaproveitados e paredes exigirão escoramento” (HERBST, 2013).
A imagem real da escola hoje do mesmo ângulo está ao lado do projeto à direita, para se fazer comparação, entre o possível futuro e o presente.

Fig. 4 – Projeto da Escola Livre de Artes, UDESC, 2012. E Escola Germano Timm.


Fonte: João Batista da Silva (NDonline, 2012), Fabricio Motta (Diário catarinense, 2009)

Após a obra haverá um compartilhamento de espaço entre o ensino médio da própria escola, que hoje está totalmente alocada na nova sede, e o curso de Dança da UDESC. O diretor atual da Escola entrevistado pelo ANotícia expõe “Não vamos deixar de existir. Vamos ser referência no Centro em termos de ensino médio e voltados para as questões das artes, [é] positiva a reposição da Germano Timm sob as asas da Udesc, uma garantia de que a estrutura da escola receberá cuidados mais constantes” (HERBST, 2013).
Percebe-se aqui, neste processo de tombamento e de uso do bem histórico-cultural algo bastante positivo nos processos de preservação do patrimônio, já que a Escola, após restaurada já terá função social e educacional pré-estabelecida, já que será a sede do curso de Dança da UDESC. Pode-se dizer que o processo aproxima-se daquilo que propõe Meneguello (2000:1), historiadora que se dedica ao estudo da preservação no Brasil:
A preservação dos antigos centros ou de partes da cidade, seja no Brasil ou no exterior, exige a revisão de conceitos fundamentais como a preservação do patrimônio, o novo uso conferido às áreas preservadas e, especialmente, as diferentes interpretações do passado histórico urbano. Seja pelo fato de estas áreas terem admitido diferentes utilizações em função do crescimento das cidades, seja pelos usos que edifícios tombados assumem dentro da trama urbana hoje, é difícil tratar a questão em toda sua complexidade se optarmos por um olhar nostálgico que valorize apenas a preservação per si.


Patrimônio, um lugar de memória.

Um texto publicado em 2012 no website da Secretaria de Educação conta um pouco sobre a história da escola.
Nossa história - 16 de maio de 2012
ESCOLA DE EDUCAÇÃO BÁSICA PROFESSOR GERMANO TIMM
Nossa escola foi fundada no dia 30 de maio de 1935, onde o primeiro diretor foi o Sr. Hercílio Zimermann. No decorrer dos anos vários diretores assumiram a direção do colégio. Atualmente nossos diretores são o Sr. Carlos Castilho Wolff e Sra. Cristina Souza.
O patrono de nossa escola Sr. Germano Timm foi um estimado professor alfabetizador de nossa cidade, e por ser tão dedicado a educação foi lhe dado esta homenagem ainda em vida pelo então governador do estado.
Neste ano a escola completou 75 anos de fundação e é a segunda escola estadual mais antiga de Joinville.
Hoje a escola possui mais de 630 alunos matriculados nos turnos matutino e vespertino.
No dia de 22/09/2007 foi inaugurada a nova sede da escola, ao lado da escola antiga, onde até hoje permanece tombada pelo patrimônio histórico, porém não recuperada.
Mas continuamos lutando para que sua restauração seja concluída pois nela está a lembrança de uma linda história de amor e dedicação. (Disponível em: < http://www.escola.sed.sc.gov.br/eebgermanotimm/nossa-historia-2/> 2012) (grifamos)

Avaliando tal publicação, percebe-se o saudosismo, o sentimento de dor pelo descuido com a estrutura da escola, ou o que dela sobrou, a lamentação pela não restauração, pelo completo abandono por parte das autoridades e da própria sociedade. Esses sentimentos são discretos, porém vem à tona quando lemos as reportagens[3] que falam sobre o descaso para com a escola.
No mesmo sentido uma professora da escola desabafa: “A mudança de endereço [da escola] sem consulta não é justa” (ANotícia, 2003), lembrando que haveria a possibilidade de mudar o endereço da escola para outro local, sem que a população fosse questionada sobre tal decisão.
Enfim, o próprio sentimento de perda da antiga escola tornou-se ethos da identidade da cidade de Joinville. Fazendo-se referência a Marcio Sant´Anna (2009:49), “o monumento trabalha e mobiliza a memória coletiva por meio da emoção e da afetividade, fazendo virar um passado selecionado”.  Halbwachs (1990) caracterizaria a memória como “o que ainda é vivo na consciência do grupo para o indivíduo e para a comunidade”. Pensamento totalmente coadjuvante com o que ocorre com o bem tombado, objeto desse estudo. Na mesma linha Lewis Mumford (1998) traz a ideia de cidades invisíveis que contendo uma teia invisível conecta seus habitantes num espaço metafísico, ou seja, considerando o imaginário urbano, alguns lugares de memória joinvillenses estão carregados de afetividades e contribuem para que haja estados de sociabilidades e de identidades entre certos grupos específicos. Vejamos as sociedades tradicionais germânicas e italianas, ou os clubes de tiro, de bocha, as praças, onde se encontram vários grupos. Estudar, então o Imaginário Social de uma determinada sociedade é “dialogar com seu mistério, com suas crenças mais profundas” (Ibidem), uma vez que é o local onde se “escondem” as representações sociais daquele povo, chamados também de “lugares de memória”, conforme vimos acima (Nora, 1993).
Pierre Nora (1993) expõe que a memória coletiva pode ser definida como “o que fica no passado no vivido dos grupos, ou o que os grupos fazem do passado”. Justamente, essa memória coletiva não é a materialização do “lugar-de-memória”, mas a memória que traz a comunidade no corpo, nos afetos, nas recordações.  Nora lamenta que o mundo contemporâneo esteja criando, produzindo, inventando, tantos lugares de memória, o que empobrece a verdadeira memória, portada por grupos vivo e não em monumentos, ou casas de memória, museus, etc.
Sobre esse conceito, proposto por Nora, Decca (1992:31) explica o sentimento de preservação que vem nos afetando, fazendo referência às raízes do passado, ocasionado pelo processo de individualização, na medida em que se rompe os laços com a memória coletiva. Assim, diante dessa perda, a sociedade recria os lugares de memória. “A própria cidade é a memória coletiva dos povos, e como a memória está ligada a fatos e a lugares, a cidade é o lócus da memória coletiva. Essa relação entre o lócus e os citadinos torna-se, pois, a imagem predominante, a arquitetura, a paisagem” conforme Rossi (1995:198 apud Lopes 2011:41).
De acordo com Halbwachs (1990) ainda, “o lugar de memória é um lugar onde a memória trabalha”. E o patrimônio funciona como um aparelho ideológico da memória, conforme Candau (2011:158). O patrimônio é menos um conteúdo que uma prática da memória obedecendo a um projeto de afirmação de si mesma. E se pergunta: Como imaginar poder conservar todos os traços quando se sabe que todo traço advém de algum acontecimento, inclusive a esperança mesma dessa conservação?
Duartes (2009:306) complementa com algumas conceituações, dizendo que a memória:
coletiva é a memória da sociedade, da totalidade significativa em que se inscrevem e transcorrem as micromemórias pessoais, elos de uma cadeia maior. É esse caráter “encompassador” da memória coletiva que reveste de sacralidade as rememorações míticas e as reencenações rituais, frequentemente associadas à identidade tribal ou clânica (Bateson, 1967), apanágio de um gênero, de uma classe de idade, de uma fraternidade.

Junto com as discussões referentes à memória coletiva e a criação de lugares de memória numa relação de conflito, de escolha e de invenções, encontra-se a noção de bem cultural. Um edifício, como é o caso da Escola Germano Timm, na sua constituição memorialística, denomina-se como um bem material, tangível, do Patrimônio Histórico Cultural.  A Escola Germano Timm transforma-se uma representação visual, como um bem material, da história e da cultura da Joinville erguida e construída a partir da emigração alemã para a região. Funari (2009) diz que “a valorização do patrimônio cultural e a necessidade de reabilitar os centros históricos, na atualidade, constituem premissas básicas dos debates sobre o desenvolvimento sustentável nas cidades latino-americanas, pois esses centros representam a síntese da diversidade que caracteriza a própria cidade”, reabilitando e potencializando os conceitos de identidade coletiva e conservação do patrimônio cultural daquela sociedade, sob os auspícios da representação da cidadania.

O patrimônio cultural de um país, estado ou cidade “está constituido por todos aquellos elementos y manifestaciones tangibles o intangibles producidas por las sociedades, resultado de um proceso histórico em donde la reproducción de las ideas y del material se constituyen em factores que identifican y diferencian a esse país o region” (FERNANDEZ e GUZMAN RAMOS, 2004:102).


O art. 216 da Constituição Federal (1988) definiu o que constitui o patrimônio cultural brasileiro, na qual seriam: “os bens de natureza material e imaterial que tomados individualmente ou em conjunto são portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. Os bens culturalmente considerados materiais são os que possuem “valor e significado incorporados ao valor simbólico do bem tal como uma imagem, uma igreja, uma cidade, uma serra, um jardim, um sítio arqueológico, etc” (MACHADO, 2009:50).
Um das formas de preservação dos bens considerados patrimônio é, portanto, o tombamento, que por sua vez é um procedimento jurídico no qual protege o bem móvel ou imóvel por meio de sua inscrição no Livro do Tombo. Além disso, o tombamento é um ato administrativo quanto à operação de inscrição do objeto em um dos livros: arqueológico, etnográfico e paisagístico, histórico, das belas-artes e das artes aplicadas (SILVA, 2003).
Outra forma de se preservar um patrimônio é por meio da restauração desses bens, contudo existem discussões a respeito dessa temática, pois nem sempre o restauro é adequado e mantem as características identitárias daquele imóvel. Kühl (2006:2) explica que a restauração de bens culturais, isto é, os modos de interferir num bem para que transmita suas principais características para as gerações futuras, é um campo disciplinar que começa a adquirir autonomia, mas o desejável é que “não se trata de conservar tudo, nem, tampouco, de demolir ou transformar radicalmente tudo. É inviável e mesmo indesejável conservar tudo indiscriminadamente, e é necessário fazer escolhas conscientes”. Essas escolhas perpassam não só por vieses disciplinares, mas também se espera que por uma equipe interdisciplinar, adquirindo novos olhares.

Considerações Finais
Apesar das palavras de muitos autores aqui mencionados referirem-se quase que exclusivamente a realidade eurocêntrica, não podemos nos esquivar dessa ansiedade social que também sentimos na cidade de Joinville. Afinal, não só os jornalistas que publicaram notícias sobre a Escola Germano Timm detém esse sentimento, essa sensação, mas a própria população anseia por uma solução ao patrimônio cultural material – edificado da escola.
Sobre a sensação de saudosismo ou de nostalgia Féher (1989:9) analisa o termo pós, de pós-moderno, dizendo que “não estamos vivendo no presente, não estamos donde estamos senão depois.”. E esse estar depois ou mais além causa um sentimento ambíguo de orgulho e melancolia ou nostalgia daquilo que se foi e já não é mais.
Considerando então as premissas da contemporaneidade em comunhão com os ideais de preservação e conservação desse patrimônio tombado que é nosso objeto de estudo, entendemos que a opção adotada pelo Poder Público em disponibilizar a Escola, hoje abandonada à UDESC foi uma opção acertada. Primeiro porque dará a esse patrimônio um uso social e de cunho educativo, ou seja, não perderá seu caráter, continuará a ser uma escola. E também abrandará os sentimentos nostálgicos entristecidos da população, que até então não tinha motivos para se alegrar com aquele bem, e logo voltará a sorrir.
Alguns teóricos da contemporaneidade podem vir a responder algumas das questões que envolvam o entorno desse bem correlacionado ao desenvolvimento da cidade como um todo e as novas discussões que surgem a partir da urbanização, como a paisagem urbana destinada ao turismo, a necessidade de se formar (ou criar) uma identidade e ainda, não menos importante, a discussão do meio ambiente urbano são todos temas a se debater, mas que aqui não se encontra mais espaço, porém com certeza serão analisados mais a frente, durante a escrita da tese de doutorado.

Referências

ALBERT, Oliver F. Estado planeja tombar duas escolas: prédios da Conselheiro Mafra e Germano Timm devem ser beneficiados. Jornal ANotícia. 29 maio 2003.
ANotícia, Jornal. A história de vida de Germano Timm. 1972.
ANotícia, Jornal. ALBERT, Oliver F. Polêmica na demolição de escolas. 08 maio 2003. ________. Comunidade se mobiliza contra demolições. 10 maio 2003.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1998.
CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2011.
DECCA, Edgar S. de. Memória e cidadania. In: O direito à memória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura – DPH, 1992, p. 129-135.
DUARTE, Luiz Fernando Dias. Memória e reflexividade na cultura ocidental. In: ABREU, Regina e CHAGAS, Mario (org) Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. 2. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2009.
FÉHER, Ferenc. La condición de la postmodernidad. In: HELLER, Ágnes e FÉHER, Ferenc. Políticas de la postmodernidad. Ensayos de crítica cultural.  Barcelona, Ediciones Península, 1989, p. 09-23.
FERNANDEZ, Guillhermina e GUZMAN RAMOS, Aldo. El patrimonio industrial-minero como recurso turístico cultural: el caso de un pueblo-fábrica em Argentina. PASOS / Revista de turismo y patrimonio cultural, Buenos Aires, Argentina, v.2, p. 101-109, 2004.
FOUCAULT. Michel. O olho do poder. In: _______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
FUNARI, Pedro Paulo A. e PELEGRINI, Sandra C. A. Patrimônio histórico e cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2009.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1990.
HERBST, Rubens. Novo espaço cultural de Joinville será erguido dos restos da Escola Germano Timm. Jornal ANoticia/Agencia RBS. 09 set 2013.
KUHL, Beatriz Mugayar. Algumas questões relativas ao patrimônio industrial e à sua preservação. Revista eletrônica do Iphan. São Paulo: IPHAN, 2006.
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MACHADO, Jurema. A Unesco e o Brasil: Trajetória de convergências na proteção do patrimônio cultural. In: FUNARI, Pedro Paulo A; RAMBELLI, Gilson. Patrimônio cultural e ambiental: questões legais e conceituais. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2009.
MENEGUELLO, Cristina. A preservação do patrimônio e o tecido urbano. Arquitextos, Texto Especial nº 008. São Paulo, Portal Vitruvius, ago. 2000 Disponível em: <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp008.asp>. Acesso em: set 2013.
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Website do IELUSC – Colégio Bom Jesus. Disponível em: <http://www.ielusc.br/portal/?INST>  Acesso em: fev 2014.



* Doutoranda do Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, da UFSC. Mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade, pela Univille, Joinville. Advogada atuante em Santa Catarina. Bolsista da CAPES.
* Professora Titular do Departamento de História, da UFSC. Graduada em História pela Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em História – UFSC. Doutora em História - PUC/SP. Pós-Doutorado - Universidade Nova de Lisboa/University of Maryland, Pós-Doutorado - IDAES - Universidad de San Martín.
[1] E também em outras cidades brasileiras em processo de urbanização.
[2] Já no início da colonização da cidade de Joinville foi instalada a Deutsch Schule (Escola Alemã), hoje conhecida como Colégio Bom Jesus, fundado em 1866. (Website Ielusc, 2014)
[3] Reportagens que acompanhavam as figuras anexas acima.

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