Artigo publicado nos Anais do XII Encontro Nacional de História Oral : Política, Ética e Conhecimento
Teresina, 06 a 09 de maio de 2014 Universidade Federal do Piauí (UFPI)
Campus Senador Ministro Petrônio Portella
Anais Encontro - web
Christiane Heloisa Kalb*
Maria Bernadete Ramos Flores*
Este
artigo tenta refletir sobre o impacto que a urbanização contemporânea produz
sobre as edificações antigas. Usa-se aqui como exemplo heurístico a Escola
Germano Timm, tombada como patrimônio histórico-cultural, pela Fundação
Cultural do município de Joinville, cidade do litoral norte de Santa Catarina,
em 2009. O edifício desta escola, construído em 1935, seguiu o modelo
arquitetônico implantado no Brasil, pelo governo de Getúlio Vargas, na década
de 1930. O formato em U permitia ao diretor da escola, sentado em sua cadeira,
observar as duas alas paralelas onde ficavam os
alunos, sem necessidade de percorrer os corredores para manter a ordem.
Esta forma de
arquitetura traz ressonâncias do Panopticon,
construção institucional desenhada pelo filósofo inglês e teórico social Jeremy
Benthan, no final do século 18, aplicável a hospitais, escolas, sanatórios,
creches e asilos e, especialmente, à prisão. O conceito do projeto é para
permitir que um único vigia possa observar todos os reclusos de uma instituição
sem que estes saibam que estão sendo observados. Michel Foucault toma este
modelo de arquitetura como princípio da modernidade com seu problema de
visibilidade dos corpos, dos indivíduos e das coisas para um olhar
centralizador. (FOUCAULT, 1986:209-227).
O
olhar do vigia, aqui diretor da escola, é onipresente, até o ponto máximo em
que o olhar passa a ser do próprio vigiado, no caso, os alunos, até mesmo os
professores. Assim, cada um vigia a si mesmo já que não sabe se está sendo
vigiado.
Figura n. 1 - Escola Germano
Timm, 2013.
Fonte: Leo Munhoz (Herbst,
2013)
Contudo, o interesse em preservar uma edificação antiga, como
patrimônio cultural, nem sempre e nem somente se dá pelo seu valor arquitetônico.
Bens culturais, tangíveis ou intangíveis, muitas vezes, transformam-se em
lugares de memória, na perspectiva de Pierre Nora. A escola, ao ser
preservada, é transformada; cria-se aí um lugar de memória. Antes desta criação,
desta transformação em patrimônio histórico, ela não era propriamente “um lugar
de memória”, na perspectiva de Nora (1993). Um “lugar de memória é toda unidade
significativa, de ordem matéria ou ideal, da qual a vontade dos homens ou o
trabalho do tempo fez um elemento simbólico do patrimônio da memória de uma
comunidade qualquer”. (Nora, 1993). Os lugares de memória nascem e vivem do
sentimento de que a memória viva está se esvaindo. Por isso, é preciso criar
arquivos, organizar celebrações, levantar monumentos, preservar edificações.
São estes lugares de memória que se transformam em abrigo para as memórias
portadas pelos grupos vivos, abertas ao esquecimento e às ressignificações.
É nesta perspectiva que abordaremos o debate que se insurgiu
para impedir a demolição da Escola Germano Timm. Parte-se da hipótese de que há “um desejo”
pela manutenção da Escola Germano Timm, ainda que na forma de “lugar de
memória”, construído em meio à resistências, disputas, negociações,
ressignificações, perdas de funções e invenção de outras. Afinal, o ideário de
preservação total não existe, pois não se pode engessar um bem cultural, nem
mesmo essencializar a partir de discussões teóricas. Assim, as sociedades
escolhem e selecionam certos objetos com a pretensão de mantê-los intactos no tempo e no espaço. Porém, o
que vem ocorrendo em Joinville[1] é que certos bens tombados no centro da cidade, ainda assim,
estão sendo engolidos, obscurecidos,
em seus pequenos espaços, sofrendo um abafamento pelo grandes empreendimentos, desrespeito
muitas vezes, à sua “beleza estética” em detrimento de uma sociedade de
consumo, que vem convivendo com a urbanização contemporânea.
O caso da
Escola Básica Germano Timm
A Escola Germano Timm foi fundada no dia 30 de maio de
1935, já iniciando com 280 alunos. O nome dado à escola, Germano Timm, foi em
homenagem a um antigo professor, ainda vivo à época, em reconhecimento a uma
vida dedicada à educação. Por ocasião do centenário de nascimento de Germano
Timm, em 1972, o Jornal ANotícia fez uma referência a este “ilustre
joinvillense”, fato que talvez possa ser tomado como o primeiro indício do
processo de significação histórica da antiga escola. Nascido em 1872, na Vila
Joinville, Germano Timm frequentara a Escola Padre Carlos onde aprendeu o português,
uma vez que, como tantas outras crianças da Vila de Joinville, falava apenas a língua
germânica de seus pais, primeira geração de imigrantes europeus. Já adulto, em
1895, começou a lecionar, trabalhando por 33 anos ininterruptos. Em homenagem a
seus anos de trabalho, o Governador do Estado de Santa Catarina, em 1935, concedeu
seu nome à segunda escola mais antiga de Joinville[2],
sendo a mais antiga a Escola Conselheiro Mafra, também conhecida como Escola
Prof. Padre Carlos. Em seguida, em 1975, foram festejados os 40 anos de
fundação da escola, com muito preparativos e embelezamento do prédio. Uma
reportagem, publicada no Jornal ANotícia de 22 de maio, enaltecia o evento
comemorativo, ressaltava os nomes dos ex-alunos que se tornaram homens
importantes na vida pública da cidade, por suas atividades comerciais,
industriais ou memoriais, alimentando o processo
de significação histórica do edifício hoje tombado.
Passaram-se 30 anos, desde a reportagem sobre a vida de
Germano Timm, quando, em 2003, correu a notícia
de que a Escola Germano Timm, situada à rua Orestes Guimarães, 406, e a escola
Conselheiro Mafra, situada à rua Conselheiro Mafra, 70, seriam demolidas para
dar lugar a edifícios residenciais, conforme notícias veiculadas no Jornal
ANotícia (2003). Imediatamente, houve reação. A resistência à demolição e a
defesa da preservação não se fizeram esperar. Queria-se a manutenção das duas
escolas mais antigas de Joinville, ameaçadas de virem a baixo. O grupo que
defendia a manutenção era formado por ex-alunos, professores e integrantes do
Patrimônio Cultural de Joinville que se organizaram para que o Poder Público
não aprovasse a tal demolição sem consultar a população interessada.
As informações das possíveis demolições provocou reação
dos professores que alertaram os pais, enviando um bilhete nos cadernos dos
alunos, diante do risco da perda de um espaço de memória. No bilhete dizia:
“Povo sem memória, não terá história”. Após essa reação, os grupos de
defensores das escolas começaram a se organizar em reuniões periódicas,
chamando ao debate os representantes do poder público. “Na quinta-feira à
noite, um encontro agitado no Conselheiro [Mafra] mostrou que a comunidade está
pronta para resistir. Na noite de sexta-feira, na Germano Timm, ocorreria uma
reunião para oficializar a resistência” (ALBERT, 2003).
Após reuniões entre os grupos de defensores
da manutenção da Escola e de defensores da demolição (representantes do Poder
Público), no dia 29 de maio daquele mesmo ano, foi publicado no mesmo jornal (ANotícia, 2003), que
a 23ª Gerência Regional da Educação e Inovação – GEREI decidiu transformar o prédio da Escola em
patrimônio cultural do Estado, se o tombamento fosse aprovado.
Diante do debate, que se arrastou por alguns dias,
finalmente as pessoas que defendiam a manutenção do edifício saíram vitoriosas.
Os pais, os professores e os integrantes do Patrimônio Cultural de Joinville, “Recebemos
[ram] a confirmação de que elas [as escolas] não serão destruídas. Além disso,
há uma solicitação da Assembleia Legislativa em transformá-los em patrimônio”
(ANotícia, 2003).
O tombamento efetivo aconteceu apenas em 2009. Antes
disso, em 2006, a escola foi fechada, já apresentando problemas de
infraestrutura, e os alunos foram transferidos para uma nova sede. Tapumes foram colocados nas janelas e portas
para impedir a entrada de alunos e curiosos. “Porém, por cima deles e pelas
aberturas das janelas, era possível presenciar o triste cenário: vigas
apodrecidas, mato alto no pátio, portas e forros enegrecidos, teto no chão em
determinados pontos, restos de fiação dependurados...” (HERBST, 2013), conforme
se percebe pela fig.2.
Fig. 2 -
Antigo prédio da Escola de Educação Básica Germano Timm,
em Joinville, abandonado desde 2006, 2012.
Fonte: Salmo Duarte, Agencia
RBS, 2012.
O edifício fechado
por três teve tempo suficiente para a deterioração provocada pelas intempéries
e por “vândalos”, como se pode observar na imagem abaixo (Fig.3).
Fig.
3 - Deterioração na Escola Germano Timm, 2011.
Fonte:
Johannes Halter, Nossa Pauta Blogspot, 2011.
Recentemente, foi noticiado que um “Novo espaço cultural
de Joinville será erguido dos restos da Escola Germano Timm”, notícia que foi
veiculada em setembro de 2013 no Jornal ANotícia (2013), informando que haverá
uma restauração do prédio, construído em 1935, para ali abrigar o curso
superior de Dança, da UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina.
Nos anos 30, foi importado para
Joinville o modelo físico de grupo escolar que vigorava em São Paulo, no qual o
formato de "U" permitia ao diretor observar, de sua cadeira, as duas
alas paralelas onde ficavam os alunos. Décadas mais tarde, tal vigilância
provavelmente percebeu a deterioração que devorava a Escola Germano Timm, uma
das mais tradicionais de Joinville, bem como o perigo que o prédio corria sem a
devida manutenção. Mas o poder público fechou os olhos, e nem o tombamento
histórico impediu que o local ficasse impróprio para qualquer atividade que não
o das portas sendo lacradas. Quem diria que a arte seria a salvação da Germano
Timm? (HERBST, 2013).
A notícia informa que durante muito tempo o edifício
tombado ficou sem qualquer manutenção pelo Poder Público e que outra
instituição de ensino, a Udesc, veio trazer a salvação para a segunda escola
mais antiga da cidade.
A fig. 4 a seguir demonstra o projeto/desenho de
restauração da antiga Escola, que de acordo com o projeto de restauração, as
características da construção datada de 1935 serão respeitadas, e se possível,
haverá manutenção do que ainda tiver condições de uso. Mas a
arquiteta-restauradora calcula, “que apenas 30% do piso poderão ser
reaproveitados e paredes exigirão escoramento” (HERBST, 2013).
A imagem real da escola
hoje do mesmo ângulo está ao lado do projeto à direita, para se fazer
comparação, entre o possível futuro e o presente.
Fig. 4 – Projeto da Escola
Livre de Artes, UDESC, 2012. E Escola Germano Timm.
Fonte: João Batista da Silva
(NDonline, 2012), Fabricio Motta (Diário catarinense, 2009)
Após a obra haverá um compartilhamento de espaço entre o
ensino médio da própria escola, que hoje está totalmente alocada na nova sede,
e o curso de Dança da UDESC. O diretor atual da Escola entrevistado pelo ANotícia
expõe “Não vamos deixar de existir. Vamos ser referência no Centro em termos de
ensino médio e voltados para as questões das artes, [é] positiva a reposição da
Germano Timm sob as asas da Udesc, uma garantia de que a estrutura da escola
receberá cuidados mais constantes” (HERBST, 2013).
Percebe-se aqui, neste processo de tombamento e de uso do
bem histórico-cultural algo bastante positivo nos processos de preservação do
patrimônio, já que a Escola, após restaurada já terá função social e
educacional pré-estabelecida, já que será a sede do curso de Dança da UDESC. Pode-se
dizer que o processo aproxima-se daquilo que propõe Meneguello (2000:1),
historiadora que se dedica ao estudo da preservação no Brasil:
A preservação
dos antigos centros ou de partes da cidade, seja no Brasil ou no exterior,
exige a revisão de conceitos fundamentais como a preservação do patrimônio, o
novo uso conferido às áreas preservadas e, especialmente, as diferentes
interpretações do passado histórico urbano. Seja pelo fato de estas áreas terem
admitido diferentes utilizações em função do crescimento das cidades, seja
pelos usos que edifícios tombados assumem dentro da trama urbana hoje, é
difícil tratar a questão em toda sua complexidade se optarmos por um olhar
nostálgico que valorize apenas a preservação per si.
Patrimônio, um
lugar de memória.
Um texto publicado em 2012 no website da Secretaria de Educação conta um pouco sobre a história
da escola.
Nossa história - 16 de maio de 2012
ESCOLA DE EDUCAÇÃO BÁSICA PROFESSOR
GERMANO TIMM
Nossa escola foi fundada no dia 30 de
maio de 1935, onde o primeiro diretor foi o Sr. Hercílio Zimermann. No decorrer
dos anos vários diretores assumiram a direção do colégio. Atualmente nossos
diretores são o Sr. Carlos Castilho Wolff e Sra. Cristina Souza.
O patrono de nossa escola Sr. Germano
Timm foi um estimado professor alfabetizador de nossa cidade, e por ser tão
dedicado a educação foi lhe dado esta homenagem ainda em vida pelo então
governador do estado.
Neste ano a escola completou 75 anos de
fundação e é a segunda escola estadual mais antiga de Joinville.
Hoje a escola possui mais de 630 alunos
matriculados nos turnos matutino e vespertino.
No dia de 22/09/2007 foi inaugurada a
nova sede da escola, ao lado da escola antiga, onde até hoje permanece tombada
pelo patrimônio histórico, porém não recuperada.
Mas
continuamos lutando para que sua restauração seja concluída pois nela está a
lembrança de uma linda história de amor e dedicação. (Disponível
em: < http://www.escola.sed.sc.gov.br/eebgermanotimm/nossa-historia-2/>
2012) (grifamos)
Avaliando tal publicação, percebe-se o saudosismo, o
sentimento de dor pelo descuido com a estrutura da escola, ou o que dela
sobrou, a lamentação pela não restauração, pelo completo abandono por parte das
autoridades e da própria sociedade. Esses sentimentos são discretos, porém vem
à tona quando lemos as reportagens[3] que falam
sobre o descaso para com a escola.
No mesmo sentido uma professora da escola desabafa: “A
mudança de endereço [da escola] sem consulta não é justa” (ANotícia, 2003),
lembrando que haveria a possibilidade de mudar o endereço da escola para outro
local, sem que a população fosse questionada sobre tal decisão.
Enfim, o próprio sentimento de perda
da antiga escola tornou-se ethos da identidade
da cidade de Joinville. Fazendo-se referência a Marcio Sant´Anna (2009:49), “o
monumento trabalha e mobiliza a memória coletiva por meio da emoção e da afetividade,
fazendo virar um passado selecionado”. Halbwachs
(1990) caracterizaria a memória como “o que ainda é vivo na consciência do
grupo para o indivíduo e para a comunidade”. Pensamento totalmente coadjuvante
com o que ocorre com o bem tombado, objeto desse estudo. Na mesma linha Lewis
Mumford (1998) traz a ideia de cidades invisíveis que contendo uma teia
invisível conecta seus habitantes num espaço metafísico, ou seja, considerando
o imaginário urbano, alguns lugares de memória joinvillenses estão carregados
de afetividades e contribuem para que haja estados de sociabilidades e de
identidades entre certos grupos específicos. Vejamos as sociedades tradicionais
germânicas e italianas, ou os clubes de tiro, de bocha, as praças, onde se
encontram vários grupos. Estudar, então o Imaginário Social de uma determinada
sociedade é “dialogar com seu mistério, com suas crenças mais profundas”
(Ibidem), uma vez que é o local onde se “escondem” as representações sociais
daquele povo, chamados também de “lugares de memória”, conforme vimos acima (Nora,
1993).
Pierre Nora (1993) expõe que a
memória coletiva pode ser definida como “o que fica no passado no vivido dos
grupos, ou o que os grupos fazem do passado”. Justamente,
essa memória coletiva não é a materialização do “lugar-de-memória”, mas a
memória que traz a comunidade no corpo, nos afetos, nas recordações. Nora lamenta que o mundo contemporâneo esteja
criando, produzindo, inventando, tantos lugares de memória, o que empobrece a verdadeira
memória, portada por grupos vivo e não em monumentos, ou casas de memória,
museus, etc.
Sobre esse conceito, proposto por
Nora, Decca (1992:31) explica o sentimento de preservação que vem nos afetando,
fazendo referência às raízes do passado, ocasionado pelo processo de
individualização, na medida em que se rompe os laços com a memória coletiva.
Assim, diante dessa perda, a sociedade recria os lugares de memória. “A própria
cidade é a memória coletiva dos povos, e como a memória está ligada a fatos e a
lugares, a cidade é o lócus da memória coletiva. Essa relação entre o lócus e
os citadinos torna-se, pois, a imagem predominante, a arquitetura, a paisagem”
conforme Rossi (1995:198 apud Lopes 2011:41).
De acordo com Halbwachs (1990) ainda,
“o lugar de memória é um lugar onde a memória trabalha”. E o patrimônio
funciona como um aparelho ideológico da memória, conforme Candau (2011:158). O
patrimônio é menos um conteúdo que uma prática da memória obedecendo a um
projeto de afirmação de si mesma. E se pergunta: Como imaginar poder conservar
todos os traços quando se sabe que todo traço advém de algum acontecimento,
inclusive a esperança mesma dessa conservação?
Duartes (2009:306) complementa com algumas conceituações,
dizendo que a memória:
coletiva é a
memória da sociedade, da totalidade significativa em que se inscrevem e
transcorrem as micromemórias pessoais, elos de uma cadeia maior. É esse caráter
“encompassador” da memória coletiva que reveste de sacralidade as rememorações
míticas e as reencenações rituais, frequentemente associadas à identidade
tribal ou clânica (Bateson, 1967), apanágio de um gênero, de uma classe de
idade, de uma fraternidade.
Junto com as discussões referentes à memória coletiva e a
criação de lugares de memória numa relação de conflito, de escolha e de
invenções, encontra-se a noção de bem
cultural. Um edifício, como é o caso da Escola Germano Timm, na sua
constituição memorialística, denomina-se como um bem material, tangível, do Patrimônio
Histórico Cultural. A Escola Germano
Timm transforma-se uma representação visual, como um bem material, da história
e da cultura da Joinville erguida e construída a partir da emigração alemã para
a região. Funari (2009) diz que “a valorização do patrimônio cultural e a
necessidade de reabilitar os centros históricos, na atualidade, constituem
premissas básicas dos debates sobre o desenvolvimento sustentável nas cidades
latino-americanas, pois esses centros representam a síntese da diversidade que
caracteriza a própria cidade”, reabilitando e potencializando os conceitos de
identidade coletiva e conservação do patrimônio cultural daquela sociedade, sob
os auspícios da representação da cidadania.
O patrimônio
cultural de um país, estado ou cidade “está constituido por todos aquellos
elementos y manifestaciones tangibles o intangibles producidas por las
sociedades, resultado de um proceso histórico em donde la reproducción de las
ideas y del material se constituyen em factores que identifican y diferencian a
esse país o region” (FERNANDEZ e GUZMAN RAMOS, 2004:102).
O
art. 216 da Constituição Federal (1988) definiu o que constitui o patrimônio
cultural brasileiro, na qual seriam: “os bens de natureza material e imaterial
que tomados individualmente ou em conjunto são portadores de referência à
identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira”. Os bens culturalmente considerados materiais são os que possuem
“valor e significado incorporados ao valor simbólico do bem tal como uma
imagem, uma igreja, uma cidade, uma serra, um jardim, um sítio arqueológico,
etc” (MACHADO, 2009:50).
Um das formas de preservação dos
bens considerados patrimônio é, portanto, o tombamento, que por sua vez é um
procedimento jurídico no qual protege o bem móvel ou imóvel por meio de sua
inscrição no Livro do Tombo. Além disso, o tombamento é um ato administrativo
quanto à operação de inscrição do objeto em um dos livros: arqueológico, etnográfico
e paisagístico, histórico, das belas-artes e das artes aplicadas (SILVA, 2003).
Outra forma de se preservar um patrimônio é por meio da
restauração desses bens, contudo existem discussões a respeito dessa temática,
pois nem sempre o restauro é adequado e mantem as características identitárias
daquele imóvel. Kühl (2006:2) explica que a restauração de bens culturais, isto
é, os modos de interferir num bem para que transmita suas principais
características para as gerações futuras, é um campo disciplinar que começa a
adquirir autonomia, mas o desejável é que “não se trata de conservar tudo, nem,
tampouco, de demolir ou transformar radicalmente tudo. É inviável e mesmo
indesejável conservar tudo indiscriminadamente, e é necessário fazer escolhas
conscientes”. Essas escolhas perpassam não só por vieses disciplinares, mas
também se espera que por uma equipe interdisciplinar, adquirindo novos olhares.
Considerações
Finais
Apesar
das palavras de muitos autores aqui mencionados referirem-se quase que
exclusivamente a realidade eurocêntrica, não podemos nos esquivar dessa
ansiedade social que também sentimos na cidade de Joinville. Afinal, não só os
jornalistas que publicaram notícias sobre a Escola Germano Timm detém esse
sentimento, essa sensação, mas a própria população anseia por uma solução ao
patrimônio cultural material – edificado
da escola.
Sobre
a sensação de saudosismo ou de nostalgia Féher (1989:9) analisa o termo pós, de pós-moderno, dizendo que “não
estamos vivendo no presente, não estamos donde estamos senão depois.”. E esse
estar depois ou mais além causa um sentimento ambíguo de orgulho e melancolia
ou nostalgia daquilo que se foi e já não é mais.
Considerando
então as premissas da contemporaneidade em comunhão com os ideais de preservação
e conservação desse patrimônio tombado que é nosso objeto de estudo, entendemos
que a opção adotada pelo Poder Público em disponibilizar a Escola, hoje
abandonada à UDESC foi uma opção acertada. Primeiro porque dará a esse
patrimônio um uso social e de cunho educativo, ou seja, não perderá seu
caráter, continuará a ser uma escola. E também abrandará os sentimentos
nostálgicos entristecidos da população, que até então não tinha motivos para se
alegrar com aquele bem, e logo voltará a sorrir.
Alguns teóricos da contemporaneidade podem vir a responder
algumas das questões que
envolvam o entorno desse bem correlacionado ao desenvolvimento da cidade como
um todo e as novas discussões que surgem a partir da urbanização, como a
paisagem urbana destinada ao turismo, a necessidade de se formar (ou criar) uma
identidade e ainda, não menos importante, a discussão do meio ambiente urbano
são todos temas a se debater, mas que aqui não se encontra mais espaço, porém
com certeza serão analisados mais a frente, durante a escrita da tese de
doutorado.
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escolas: prédios da Conselheiro Mafra e Germano Timm devem ser beneficiados. Jornal ANotícia. 29 maio 2003.
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* Doutoranda do
Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, da UFSC. Mestre
em Patrimônio Cultural e Sociedade, pela Univille, Joinville. Advogada atuante
em Santa Catarina. Bolsista da CAPES.
* Professora
Titular do Departamento de História, da UFSC. Graduada em História pela
Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em História – UFSC. Doutora em História
- PUC/SP. Pós-Doutorado - Universidade Nova de Lisboa/University of Maryland,
Pós-Doutorado - IDAES - Universidad de San Martín.
[1] E também em outras cidades brasileiras em
processo de urbanização.
[2] Já
no início da colonização da cidade de Joinville foi instalada a Deutsch Schule
(Escola Alemã), hoje conhecida como Colégio Bom Jesus, fundado em 1866.
(Website Ielusc, 2014)
[3] Reportagens que acompanhavam as figuras
anexas acima.





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